Wednesday, May 18, 2005

POESIA E ARTES PLÁSTICAS

O MOMENTO POÉTICO
NAS ARTES PLÁSTICAS

 

Sérgio Mattos

 

 

         A poesia e as artes plásticas, a poesia e a música, a música e as artes plásticas sempre estiveram de mãos dadas, entrelaçadas em busca de novas formas de comunicação e expressão para registrar o nosso tempo. E é exatamente isto que a poesia, as artes plásticas e a música fazem: comunicam-se entre si e com o público, registrando os sentimentos, fazendo leituras diferenciadas da realidade, somando a estas visões uma outra, talvez, proveniente do terceiro olho.  Dizem que os artistas o possuem e conseguem ver o que os demais mortais não conseguem. Por isso registram a realidade com a sensibilidade que Deus lhes deu. Tecem todas as formas de sentimento humano, as cores, os cheiros, as nuances de ver a vida e como a vida nos vê, com nossas perfeições, imperfeições, virtudes e pecados.

 Sim, compete ao artista retratar a vida, registrando-a e transmitindo, para os nossos semelhantes, a beleza que não é percebida por todos. Quando a música e a poesia estão juntas é como se vestíssemos as palavras, além de pintá-las com cores diversas.  Os versos musicados dançam, ganham outra vida e outro colorido. Também, a música e a pintura interagem. A poesia, a música e a pintura acabam formando um todo, que se completa, um inspirando o outro buscando a forma mais simples de dizer o que não é percebido ou não é dito pela maioria.

A arte é o meio que o artista tem, o canal de comunicação, por meio do qual contribuímos para registrar o nosso momento de vida, as nossas vivências, manifestando os nossos sentimentos e o dos que nos rodeiam: alegrias, tristezas, vitórias e derrotas, em busca da consciência coletiva que eleva aos píncaros a grandeza do ser humano.  A arte contribui para que o homem se descubra como principal elemento do universo e passe a viver em harmonia com a natureza e consigo mesmo. Consciente de sua cidadania, dos seus deveres e direitos, consciente do seu papel na construção de um mundo cada vez melhor, onde não existam disputas, guerras, miséria e necessitados.

 Seja na poesia, na música ou nas artes plásticas, desde o tempo de Platão, o papel do artista tem sido o de valorizar a leveza essencial do dia-a-dia na luta permanente contra os dramas existenciais. E buscamos isto na verdade, na beleza e na pureza existente no mundo, que se nos apresenta, cada vez mais, de modo superficial. Compete, pois, aos artistas identificar os significados plenos das coisas concretas ou abstratas. E, com isso termos a chance de percorrer o caminho do êxtase e da pureza, da comunhão perfeita entre a matéria e o espírito, entre o desejo e a realização, entre o pensamento e a criação propriamente dita.

A criação humana é a soma do nosso conhecimento acumulado. Os artistas, de posse de suas singularidades individuais, expressam, na produção de suas obras, o que há de mais sublime no ser humano. São percepções diferentes de uma mesma realidade na sua forma mágica, e por isso fazem a conexão ideal entre o ser humano e a realidade que o cerca.

Aqui cabe a definição do que é arte. E para defini-la nada melhor do que buscarmos as palavras do grande artista Auguste Rodin:

         “Arte é contemplação. É o prazer da mente que penetra a Natureza e descobre o espírito que a anima. É a alegria da inteligência que vê o universo com clareza e o recria, dotando-o de consciência. A arte é a missão mais sublime do homem já que é o exercício do pensamento tentando compreender o mundo e torna-lo compreensível”.

Para uma abrangência maior de nossa capacidade de entender como a poesia se manifesta, nos gestos, olhares, no perfume dos corpos dos amantes, nas palavras ditas nos momentos mais sublimes de nossas vidas, ou como o poeta registra a realidade na qual está inserido, física ou espiritualmente, recorro a um outro grande nome, o de Roman Jakobson. Ele afirma de modo sucinto e inspirado que a poesia manifesta-se essencialmente pela palavra, já que “a palavra é sentida como palavra e não como simples substituto do objeto nomeado, nem como explosão de emoção”.  Para Jakobson, na poesia, as palavras (sua sintaxe, significação, forma externa e interna) “não são mais índices indiferentes da realidade, mas possuem seu próprio peso e seu próprio valor”.

A música, segundo Igor Stravinsky, “é o único domínio no qual o homem realiza o presente, porque por uma imperfeição de sua natureza biológica está fadado a sofrer o escoamento do tempo – de suas categorias de passado e futuro – sem jamais poder tornar real e estável o presente”.

Já com referência à pintura recorro ao depoimento e a competência de Hélio Oiticica que diz: “A pintura caracteriza-se como elemento principal, pela cor; esta, pois, passa a desenvolver-se como o problema da estrutura, no espaço e no tempo, não mais dando ficção ao plano do quadro; ficção de espaço, e ficção e tempo”.

Em síntese, as artes plásticas e a poesia são duas formas de mostrar e abordar a história das idéias, dentro da pluralidade do mundo contemporâneo. Tanto a poesia como as artes plásticas só atingem suas respectivas finalidades quando interagem com outras formas de expressão e comunicação existentes. O artista, em seu sentido mais amplo, seja o poeta da palavra, o poeta do pincel, o poeta das lentes fotográficas, o poeta da composição musical, antes de qualquer coisa, tem de assumir o seu papel de ser um ser aberto à universalidade e ter consciência de que o saber, o conhecimento, só é suficiente se tiver caráter universal.

         Não importa o tipo de linguagem usada pelo artista (palavras, imagens, música…) na sua prática social de representação e significação. O importante é usar a linguagem artística na construção de identidades e representações do mundo real. O importante é que o poeta, o pintor, o escultor, o cineasta, o fotógrafo e o músico saibam preencher o vazio com os seus refinados toques e retoques, criando alicerces suficientemente fortes para estabelecer interações entre as mais variadas formas de arte com o objeto de identificar a interdependência de todos os aspectos que formam a realidade de nosso tempo. Cada artista deve viver o seu próprio tempo correndo os riscos de sua época na tentativa de construir e registrar o seu momento poético, na poesia, na música ou nas artes plásticas.

(Palestra proferida em Feira de Santana, no Cuca/UEFS, dia 20 de novembro de 2002).

 

 

 

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Monday, April 25, 2005

AS RESPONSABILIDADES SOCIAIS DO RELAÇÕES PÚBLICAS

SAUDAÇÃO AOS NOVOS PROFISSIONAIS

DE RELAÇÕES PÚBLICAS

 

 

Sérgio Mattos

(Professor Doutor, Coordenador do Curso de Relações Públicas das

Faculdades Integradas Ipitanga – UNIBAHIA- 01/04/2005)

 

 

Meus prezados e jovens profissionais de RP

 

Meus senhores e minhas senhoras

 

Na condição de coordenador do curso de Relações Públicas das Faculdades Integradas Ipitanga, mantidas pela UNIBAHIA, quero, em primeiro lugar, me congratular com esta turma, que se caracterizou como uma das mais dinâmicas do curso, promovendo eventos integrados e de grande participação no campus I ao longo dos últimos quatro anos. Em segundo lugar, quero advertir aos membros desta turma que os laços entre eles e a Unibahia serão permanentes e afirmar que cada um tem responsabilidades, direta e indireta, com o nome da instituição onde aprenderam as ferramentas básicas para o exercício da profissão. São responsáveis também com a valorização da profissão do RP e com o melhoramento do próprio curso que, já a partir deste ano, está sofrendo um up grade em sua matriz curricular. Juntos espero que possamos contribuir para melhorar cada vez mais o curso de RP da Unibahia e a valorizar ainda mais a profissão que vocês escolheram.

 

Assim sendo, quero aqui esclarecer aos presentes, parentes e amigos que vieram prestigiar este ato de diplomação, sobre o que é ser Relações Públicas e de forma resumida relembrar aos recém formados (formandos) de suas responsabilidades sociais e do papel que terão que enfrentar como profissionais no mundo real, altamente competitivo, e o que deverão fazer no exercício desta nobre profissão:

    

O curso de RP das Faculdades Integradas Ipitanga procura formar profissionais conscientes e voltados para o espírito do trabalho em equipe, capazes de criar uma imagem institucional forte, de resolver crises institucionais e de promover a integração das empresas com a comunidade.

 

Para tanto os novos Profissionais de RP devem estar sempre lembrados de que:

 

O RP é um profissional de planejamento estratégico de comunicação que elabora, realiza, analisa pesquisas, promove a divulgação e organização de eventos, além de interagir e zelar pela imagem e credibilidade da instituição à qual esteja vinculado;

 

O RP deve estar sempre consciente que a melhor maneira de compartilhar as informações de uma organização é trabalhar com uma linguagem específica, adequada para cada público e que seja, clara, precisa, concisa e direta.

 

O profissional de RP deve maximizar as relações humanas e industriais, procurando sempre desenvolver atividades de integração e participação para resolver conflitos e promover o equilíbrio entre os interesses da organização e de seus públicos. Para bem executar este desafio, exige-se do profissional uma visão estratégica e social cada vez mais apurada;

 

O RP realiza funções de consultoria e assessoramento, assumindo o papel de ligação entre a empresa ou entidade com seus públicos;

 

O RP avalia atitudes, identifica as diretrizes e a conduta individual ou da organização na busca do interesse público;

 

O RP tem que ter a capacidade de perceber, identificar, classificar, ouvir e receber feedback. Tem que saber pensar as relações de uma empresa, instituição ou pessoa física, com seus públicos externo e interno, tendo como base os valores éticos e morais. Enfim tem que possuir a capacidade de decidir.

 

Acredito que a partir desta primeira década do século 21, o papel do Profissional de Relações Públicas na Comunicação Integrada será extremamente valorizado e importante para o bom entendimento social. Devido a esta perspectiva, é fundamental que cada um continue estudando, buscando um maior conhecimento das Ciências Humanas (principalmente das ciências sociais e da psicologia aplicada) para que possa vencer os desafios no exercício profissional e desfrutar do sabor das vitórias que a profissão proporciona diante de cada obstáculo vencido.

 

         Assim sendo, espero que Alexandre Hinain Mehmeri, Alyson Bahia da Silva, Ana Karla Rodrigues Silva, Andréa Normando Velasco Costa, Andréia dos Santos Torres, Benício Trindade Ferreira, Calline Judith Almeida Ribeiro, Carolina Maria de Oliveira, Cynara Leal Cunha, Débora Cerqueira Souza, Diana Lopes Cardoso, Eliane Silva de Jesus, Gustavo Poli Silva, Juliana Fernandes de Souza, Luiza Cristina Santos de Souza, Mariessi de Oliveira Gonçalves, Raquel Oliveira Santos de Jesus e Thaís Costa Souza, que integram esta turma, mantenham-se sempre atualizados com as tendências teóricas e práticas,  com as inovações tecnológicas e que continuem estudando para estarem preparados para encontrar soluções para os problemas e crises que vão encontrar e terem capacidade de dar transparência aos processos de comunicação existentes nas empresas.

 

         A partir de agora vocês já são profissionais e não podem mais pensar no que muitos classificam do “EU SÓZINHO”, pois no campo das Relações Públicas tudo deverá ser feito em equipe e de maneira consciente e com responsabilidade Social.

 

         Sejam bem bem-vindos ao mercado de trabalho e parabéns por esta vitória.

         Muito obrigado!

 

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O QUARTO PODER E AS ELITES

O QUARTO PODER E AS ELITES

 

 

(Entrevista de SÉRGIO MATTOS concedida a MARCIO SARDI para a revista FENAE AGORA, edição 16, ano 2, nº, maio de 1999.)

 

Quais os principais grupos de comunicação no Brasil?

SÉRGIO MATTOS– O maior deles sem qualquer sombra de dúvidas é o Grupo Globo, de Roberto Marinho, que detém um holding mídiáticos, englobando uma série de veículos (eletrônicos e impressos) além de empresas outras relacionadas com a industrial cultural. Logo após seguem-se o Grupo Abril e o grupo da RBS. Estes são a meu ver os principais e os maiores, independente do volume de investimentos.

 

Como os principais impérios foram criados?

 SÉRGIO MATTOS – Você está se referindo aos impérios de comunicação, acredito. Sendo assim, desde a época de Assis Chateaubriand (que foi o maior império de comunicação do Brasil e se, considerarmos as diferentes épocas, fazendo as devidas correções e comparações, guardadas as devidas proporções, teria sido maior do que o que Roberto Marinho detém hoje) que os impérios de comunicação no Brasil foram e são construídos sob o beneplácito e o apoio direto dos governantes, ou seja, por trafico de influência política. A ajuda oficial apresenta-se sob várias facetas. Ela pode ser através da concentração da publicidade oficial neste ou naquele grupo de comunicação, pode ser através de financiamentos a fundo perdido, ou a juros abaixo dos praticados no mercado para outras empresas ou pessoas físicas. (Vide detalhes no meu livro  “O Controle dos Meios de Comunicação”, que está disponibilizado na integra na Internet, em minha home page www.sergiomattos.com.br )

 

 

De onde vem o lucro dos meios de comunicação?

SÉRGIO MATTOS – Os veículos de comunicação estão divididos basicamente em dois grupos: Mídia Eletrônica e Mídia Impressa, observando-se que os custos operacionais da mídia impressa geralmente são maiores do que os da mídia eletrônica.  Os dois grupos vivem essencialmente da publicidade, que garante a sobrevivência e os lucros (quando o veículo dá). Não se pode esquecer que alguns veículos, como jornais e revistas também dependem da venda dos exemplares (nas bancas e por assinaturas) diretamente ao publico e que quanto mais vendem (aumentando suas respectivas audiências) mais vão atrair anunciantes.

 

Hoje, muitas empresas de comunicação passam por dificuldades financeiras. Há dados sobre essas dívidas, para quem são e por que surgiram?

SÉRGIO MATTOS – Que existem empresas de comunicação passando dificuldades todos sabem, principalmente aquelas que fizerem uma opção política e que estão vinculadas a grupos políticos, pois a finalidade maior é dar suporte ao partido ou grupo, que as mantém.  Historicamente existem, também no Brasil aquelas empresas que por optarem em fazer oposição também pagaram um grande preço por esta opção, não obtendo, por exemplo, financiamentos, empréstimos ou recebendo a publicidade oficial ou das empresas que prestam serviços ao governo, seja ele, em nível federal, estadual ou municipal.

As empresas de comunicação devem ser vistas como toda e qualquer empresa, pois o empresário que investe quer ter retornos, lucro. Portanto se alguma empresa de comunicação, salvo as politicamente vinculadas, não estão dando lucro pode ter ocorrido algum mau planejamento, falta de estudo de mercado ou não está seguindo os preceitos básicos de considerar a audiência (seu publico leitor, radiouvinte ou telespectador) como seu maior investimento. Devem, portanto, refazer seus objetivos, contratando profissionais para a área onde venha a ser detectada as falhas operacionais.

Você pergunta ainda se há dados sobre essas dívidas? Claro que existem, mas precisam ser levantados individualmente. Cada caso é um caso, não dá para generalizar. Por exemplo, durante o período de exceção, tanto o Jornal do Brasil como o Estado de São Paulo sofreram restrições, por motivos diferentes, mas sofreram sanções oficiais. O Jornal do Brasil até hoje não conseguiu se equilibrar, enquanto o Estadão, depois de ter perdido até a liderança para a Folha, está se equilibrando depois de ter enfrentado uma divida grandiosa por conta de um empréstimo estrangeiro em dólares que foi obrigado a tomar por conta de uma posição política que lhe impediu acesso a um financiamento junto a Caixa Econômica que estava aprovado, mas que no último minuto foi vetado (Vide detalhes no livro “O Controle dos Meios de Comunicação”).

Quanto à origem da dívida, é muito complicado categorizá-las também. Cada caso é um caso. Pode ter sido por conta de empréstimos, por perseguição política - econômica, por má utilização dos recursos /má administração, etc.

 

O governo empresta dinheiro aos veículos de comunicação? Há dados sobre isso?

SÉRGIO MATTOS – Em parte já respondi esta pergunta na resposta anterior. Mas a resposta é CLARO que sim. As empresas de comunicação não são diferentes das demais empresas, salvo quanto aos seus objetivos sociais. Também existem dados, mas devem ser levantados caso a caso, veículo por veículo, em cada estado da federação.

 

A política de concessão de emissoras é transparente? Existe licitação para a concessão de emissoras?

SÉRGIO MATTOS – Aparentemente tudo é de acordo com a lei e publicado no diário oficial, onde saem publicados os editais de licitação. Até 1988, quem decidia a concessão era o ministro das comunicações juntamente com o presidente. Hoje a concessão passa pelo Congresso, uma vez que o processo de concessão foi democratizado após a Constituição de 1988. Entretanto nada impediu que a situação de concentração dos mesmos em mãos de políticos ou de grupos políticos continuassem como antes.

 

Os políticos geralmente são beneficiados com essas concessões? Quais são os políticos maiores detentores de empresas de comunicação?

SÉRGIO MATTOS – Claro que são. Mais de 50% por cento dos veículos eletrônicos (emissoras de rádio e televisão) estão diretamente nas mãos de políticos independente de seus partidos e a outra metade está nas mãos de pessoas que de alguma forma possuem ligações partidárias ou estão ligadas direta ou indiretamente a alguma liderança política. Em cada Estado você tem que levantar estes dados e comprovar. Quanto mais influente é o político mais veículos tem a seu dispor. O professor e pesquisador Daniel Hertz tem um livro sobre o assunto, pois ele se dedicou à pesquisa e a democratização dos veículos de comunicação, denunciando a quem pertence, em cada estado, os principais veículos de comunicação (TV e Rádio).No caso específico da Bahia, o jornalista Agostinho Muniz também fez levantamento semelhante.

 

Sabe-se que muitos políticos usam “laranjas” para adquirirem emissoras. Há notícias de laranjas notórios que não teriam recursos para adquirir televisões e que nunca foram investigados?

SÉRGIO MATTOS – Os laranjas ou “testas de ferro” sempre existiram, mas têm que ter algum respaldo financeiro. As concessões não são dadas a qualquer pessoa ou pobretão que nada possui.  Os candidatos têm que apresentar curriculum e apresentar condições financeiras, pelo menos é assim que está na lei. Desconheço, portanto casos de candidatos que tenham recebido a concessão e que não tinham condições financeiras para tal, mas existem casos que a concessão venceu o prazo porque não foram implementadas, pois os candidatos esperavam obter um financiamento e não conseguiram ou por outras dificuldades.

 

 

Essa benesse  resulta em contrapartida política ao governo?

SÉRGIO MATTOS– Seria ingenuidade dizer que não. Até porque, como se trata de concessão, nenhum governo político a concedia antes de1988 a um inimigo político ou a grupo contrário. Após a Constituição de 1988, o processo de concessão tem que passar pelo Congresso Nacional, onde os lobbies continuam existindo, bem como o processo de uma mão lava a outra. Um político recebe o apoio para isto ou aquilo desde que dê o seu apoio para algum outro interesse. Tudo de comum acordo, o que demonstra que o processo de concessão mudou, mas mudou sobre o ponto de vista de que antes uma ou duas pessoas decidiam e agora quem decide é o congresso e o presidente sanciona. Neste sentido, ironicamente podemos dizer que o processo de negociação mudou também, em vez de negociar com uns poucos, a negociação agora envolve muito mais gente.(Detalhes deste processo podem ser localizados nos livros Um Perfil da TV Brasileira e The Impact of the 1964 Revolution on Brazilian Television, também disponibilizados na Internet.).

 

 

A televisão é o principal meio de divulgação do pensamento de elite?

            SÉRGIO MATTOS – A televisão é o veículo de massa que possui maior abrangência de publico. Num país de analfabetos, o rádio e a televisão passam a ser praticamente a única fonte de informação da população e como tal sofre a influência direta das noticias que são divulgadas.  Quanto à segunda parte da pergunta, acho que a mídia eletrônica serve para reforçar os valores da elite, mas os veículos utilizados mesmo pela elite para formar opinião ainda são os veículos impressos.

 

 

            Quais são os maiores salários no jornalismo brasileiro?

            SÉRGIO MATTOS – Acredito que o dos ancoras das televisões recebam os maiores salários. Dizem, por exemplo, que o Boris Casoi recebe R$ 200 mil por mês. Mas isto não é muito claro, mas com toda certeza quem melhor paga aos profissionais de imprensa ainda são as emissoras de televisão.

 

            O papel do rádio como instrumento de divulgação vem sendo diminuído? Onde o radio ainda se mantém como instrumento de divulgação, como no interior, ele exerce influência?

            SÉRGIO MATTOS – O rádio continua mantendo a mesma força e influência. Ele só perde audiência na hora nobre da televisão, das 18 às 22 horas.  O radio é um veículo mais quente, enquanto a televisão é um veículo frio. O primeiro é muito mais interativo e exige que se preste atenção, enquanto a televisão é um meio passivo, apesar de alguns programas tentarem, hoje em dia, implantar um processo de interatividade. Tanto no interior como nas grandes capitais o rádio é extremamente e essencialmente um veículo comunitário. Veja, como exemplo, como é importante saber noticias sobre engarrafamentos, alagamentos etc., quando estamos dirigindo e recebemos pelo rádio informações para evitarmos esta ou aquela rua. Todo mundo está ligado…Recentemente, no apagão do sul do país, as emissoras de rádio deram uma forte contribuição e praticamente foram os únicos veículos a prestar o serviço publico que se esperava deles. E apesar de não terem sido informados de que haveria um apagão, se saíram muito bem, prestando informações, esclarecendo e orientando a população. Apesar do apagão eles se mantiveram no ar graças aos geradores próprios e a população teve acesso aos mesmos devido os radinhos de pilha que não precisam da eletricidade. Observe-se também que as empregadas domésticas, por exemplo, ouvem rádio praticamente o dia inteiro, e estão informadas sobre tudo… O uso da rádio para a propaganda política ainda é muito praticado no país, principalmente para a manutenção da imagem dos políticos…

 

 

            Em nome da audiência, a cultura  vem sendo pasteurizada pelos meios de comunicação? De que forma isso acontece?

            SÉRGIO MATTOS – Como se pode notar a partir da própria denominação, “veículos de comunicação de massa”, eles, como tal, massificam. O importante é termos uma quantidade maior de veículos facilitando a pluralidade de idéias e de ofertas de programas. Mesmo assim ainda se corre o risco da massificação dos valores sulistas por todo o país, vez que as centrais de produção estão todas concentradas no sul do país. Independente da massificação tem também um detalhe interessante que é o da influência que os maiores veículos exercem por si só sobre os veículos menores localizados em outras áreas do país. Por exemplo, todos as emissoras de rádio do país, os locutores adotaram o carioquês como sotaque oficial, principalmente nas emissoras de radio FM. De norte a sul do país você ouve o mesmo sotaque padronizado.

O que devemos buscar para impedir a massificação é a diversificação das produções, aumentando a participação regional. A produção regional será a salvação das culturas e dos valores regionais. A Constituição prevê isto, mas até o momento nada foi feito neste sentido. Vez por outra encontramos alguns programas que foram produzidos fora do centro sul maravilha.

 

            A Campanha eleitoral retratada pelos meios de comunicação é honesta?

SÉRGIO MATTOS– Se você está se referindo às campanhas publicitárias obrigatórias em época de eleição, a resposta é NÃO. Até por que o nome já diz tudo: Propaganda Eleitoral, portanto de cunho politico-ideológico, que visa impor um determinado produto, no caso um político, destacando seus valores e atributos, sem que haja comprovação dos mesmos.

 

Um dos exemplos citados é a edição do debate de 1889 entre Collor e Lula, na Globo. Houve manipulação?

SÉRGIO MATTOS – Este é um assunto que não estudei. O que sei é o que a mídia e alguns estudos afirmam. Não gostaria de tecer comentários sobre o assunto, mas posso dizer que sob o ponto de vista mercadológico aquela situação jamais se repetirá no país. Aquilo tudo aconteceu porque foi a primeira vez que assistimos a uma campanha daquele porte, foi a primeira vez, depois de muitos anos que tínhamos uma eleição direta para presidente e os candidatos foram vendidos como PRODUTOS e quem melhor soube vender o seu produto acabou ganhando e mesmo assim ainda houve a tal ajudazinha da edição final.  Como qualquer produto, aquela campanha eleitoral para presidente passou também pela Teoria do Ciclo de Vida (Inovação/Novidade, Adoção, Utilização e Saturação). Após aquela campanha, que foi uma novidade, vieram outras e já estamos saturados. Não será mais nenhuma campanha publicitária que elegerá um produto desconhecido. Quando se diz que o eleitorado amadureceu, na verdade estamos reconhecendo que o público, a audiência, o eleitor/consumidor, já saturou aquele tipo de inovação e que as praticas devem mudar para surtir os efeitos desejados. Uma prova disto é que os maiores papas do marketing político brasileiro, reconhecidos por suas genialidades, não elegeram nem 50% de seus candidatos. Fica, portanto, aqui a dúvida quanto ao assunto que precisa ser melhor estudado e estudado sem os sectarismos políticos que ainda envolve muito pesquisador no Brasil.  Por outro lado, não podemos também deixar de considerar que durante toda aquela campanha, praticamente a imprensa quase toda estava contra Collor, apoiando abertamente outros candidatos inclusive o Lula.

Lamento não ter maiores informações sobre o assunto. Quem eu sei que estudou o assunto a fundo foi o professor Albino Rubim, da UFBA, que talvez possa lhe dar maiores subsídios ou uma opinião pessoal mais fundamentada. Isto porque ele pesquisou jornais e os programas políticos na televisão da época. Apesar de eu, particularmente, não concordar muito com parte das conclusões que ele tirou…, mas como não me debrucei sobre os dados, nada posso afirmar, pois me faltam  fundamentos…  Salto, portanto esta pergunta.

 

 

Problemas como os citados acima – e outros – poderiam ser resolvidos ou minimizados com a democratização dos meios de comunicação?

SÉRGIO MATTOS – Antes de tudo precisamos saber e entender direito o que vem a ser esta democratização dos meios de comunicação. Isto porque tem muita gente argumentando que devemos acabar com ou limitar o monopólio da audiência da globo, visando a democratização dos meios. E dizer isto é uma grande asneira. Ninguém pode determinar o nível de audiência de cada veículo num processo como o nosso, onde a recepção é livre e todos têm a liberdade individual de escolher o programa e o canal que deseja sintonizar. Portanto, eliminada a questão do monopólio de audiência, que não existe, o que existe é a competência deste ou daquele canal ou programa de atrair a atenção dos telespectadores, precisamos saber o que seria esta tão propagada democratização dos meios. Há quem defenda que cada grupo político, clube de serviços, universidades e até mesmo associações comunitários ou grupos étnicos deveriam ter seus próprios canais. Este processo também se torna inviável quando se verifica os custos de implantação de uma emissora, mas tendo recursos qualquer um destes grupos citados, entre outros, podem se candidatar a operar um canal, desde que este esteja disponível no espectro previsto para cada região. O que se sabe, e que é muito avançada, é a nossa Legislação para a TV a CABO, que prevê estas possibilidades, assegurando na lei, o direito e acesso a canais previamente reservados e específicos para todos os grupos considerados “minorias”. Assim sendo, a legislação da TV A CABO, que contou em sua elaboração com a participação de todos os segmentos da sociedade e de grupos profissionais que defendem a democratização dos meios, está sendo considerada avançada por considerar estas questões. Entretanto, o que estamos assistindo é um avanço cada vez maior dos mesmos grupos das televisões abertas, explorando a TV PAGA, TV a CABO ou como queira chamar. Vale lembrar aqui que quanto mais crescer a TV Paga no Brasil menor vai ser a audiência ou a influência da chamada TV Aberta, que por tendência, deverá ficar mais uniforme, apresentando os mesmos tipos de programas e tendo uma audiência mais semelhante no que diz respeito aos índices do Ibope.

Concluindo, diria também que esta sua pergunta também envolve uma questão muito polêmica com múltiplas respostas de difícil aceitação. Todos os grupos possuem argumentos e contra-argumentos que justificam certas situações e a solução para a democratização dos meios de comunicação está na utilização de outros meios, tais como a informática e a Internet. Estes sim, vão possibilitar a democratização. A Internet é o futuro da comunicação e mesmo fazendo elucubrações sobre o que poderá acontecer num futuro próximo, não podemos nem imaginar as mudanças que vão se processar, tanto em nível individual, em cada um de nós, como nas empresas de comunicação. As mudanças mais radicais virão a partir do inicio do próximo milênio. Não é necessário ser profeta para fazer projeções e começar a imaginar o que pode ocorrer. Portanto, vamos aguardar as mudanças como conseqüência direta e indireta do uso da informática e da Internet pelo cidadão.

 

Todo grande telejornal tem um banco como patrocinador. Isso é coincidência, entramos numa fantasiosa teoria da conspiração ou é uma política deliberada?

SÉRGIO MATTOS – O fato de termos bancos patrocinando telejornais neste momento é uma coincidência, ocasionada pelo fato de serem as empresas que mais cresceram e que até em época de crise, como a mais recente que afetou o nosso real, foram as únicas empresas que apresentaram rendimentos positivos. Nos meses da crise os banco tiveram lucros. Isto aí por si só já justifica de certa forma a coincidência, pois quanto mais populares e quanto mais atraírem clientes mais lucros terão. Como os telejornais estão exatamente no horário nobre, mais especificamente no pico do horário nobre, eles estão aproveitando o horário de maior audiência para venderem o peixe deles. Esta realmente é uma coincidência e não devemos apelar para a fantasiosa teoria da conspiração. Observe-se que em outras épocas, quem patrocinava os telejornais eram empresas multinacionais ou empresas distribuidoras de gasolina, tais como O Repórter Esso, O Repórter Pirelli e assim por diante. Pode ser que eu esteja errado, mas no momento é mera coincidência, como foi em outras épocas. Só os maiores anunciantes podem pagar o preço do horário nobre…milhões por segundos.

 

            Muitas emissoras e jornais vetam publicidade que fira suas convicções políticas ou econômicas. Anúncios de sindicatos são constantemente vetados. Isto é legal?

SÉRGIO MATTOS – Que as empresas de comunicação vetam anúncios que ferem seus interesses ou convicções é um fato real. Se é legal ou não, desconheço legislação que trate do assunto. O que se poderia questionar é se seria ético ou não vetar os anúncios, pois existem veículos que os aceitam independente de suas opiniões. Em síntese, não existe uma regra para o assunto. O importante aqui é saber que quando um veículo rejeita um anúncio, sempre tem um outro que o aceita, por concordar e defender os mesmos  pontos de vista do anunciante vetado em outro veículo. De certa forma isto é até democrático. Mas a legislação garante o direito de resposta àqueles que se sintam prejudicados por alguma informação veiculada em qualquer órgão de imprensa independente de pagamento ou compra de espaço para veicular sua defesa.

 

Há informações sobre o número de rádios e TVs comunitárias no Brasil?

SÉRGIO MATTOS –  Sim. Os órgãos oficiais têm este controle. Até porque os clandestinos são automaticamente perseguidos e fechados. O que existe também é uma grande duvida sobre o que viria a ser uma rádio comunitária. Isto porque, por exemplo, muito serviço de som, vem sendo classificados como tal e na verdade não é.  Não existe ainda um consenso  e uma definição muito clara sobre o que é uma emissora comunitária, ou se o nome advém do fato de que quem explora ser uma comunidade ou associação comunitária., ou se é devido ao tamanho e abrangência não comercial, ou seja lá o que for. Quando lemos algum trabalho nesta área, cada autor dá uma definição e uma dimensão diferente ao que ele julga ou classifica como sendo rádio comunitária. A definição deveria partir então de suas características, limitações, abrangência e outras categorias mais que a diferenciasse de uma emissora de rádio comercial.

 

 

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Thursday, March 24, 2005

UM OLHAR ATENTO SOBRE A TV

 

 

UM OLHAR ATENTO SOBRE A TV

 

 

 

            Realizada pelo jornalista Leonardo Vilhena, o JORNAL DE OPINIÃO, de Belo Horizonte, publicou uma entrevista com Sérgio Mattos, autor de livros sobre a televisão brasileira, na qual ele condena a dramatização da notícia, o baixo nível dos programas de auditório, fala sobre a influência das novelas e da publicidade, as novas formas de censura, mas lembra que a televisão contribui para a preservação de nossa língua. Verifique as opiniões de Sérgio Mattos veiculadas no jornal mineiro:

 

Quais as principais influências e modismos da TV – comportamento, moda, costumes regionais?

Sérgio Mattos  - Nestes últimos 50 anos a televisão tem sido de certa forma exercido o papel de sinalizador  para vários setores da sociedade. No que diz respeito ao comportamento, por exemplo, as gírias, a moda e o sotaque (principalmente o carioca) entre outros do sul do país, quando usados em novelas passam a ser copiadas em todo o país. No que diz respeito ao jornalismo propriamente dito, a influência da televisão tem sido danosa para a formação de novos jornalistas, pois todos querem, mesmo trabalhando na mídia impressa, ser como os principais repórteres da TV Globo, por exemplo, que  são extremamente opinativos, além de passarem “um quê” de atores, dramatizando a noticia que estão transmitindo. Devido ao fato dos telejornais serem praticamente a única fonte de informação da maioria da população a televisão acaba sendo também responsável pela má informação da população, pois seria impossível para eles em 20 ou 30 minutos colocarem todas as informações necessárias no ar com os seus respectivos e diferentes ângulos. O noticiário de TV é, portanto, muito parcial e incompleto e mesmo assim tem influenciado alguns jornais tanto na linguagem jornalística quanto na forma de apresentar os conteúdos. No que se refere aos costumes regionais eu diria que a televisão acaba deturpando estas tradições a partir do momento em que os apresenta de forma estereotipada ou caricaturada, como por exemplo  “o linguajar baiano”, a “preguiça baiana”, “o “dinamismo do paulista”,  “o carioquês”, etc. Em síntese, falta à televisão um trabalho mais sério no que diz respeito não só às produções regionais como também no enfoque das temáticas regionais que hoje só são utilizadas como pano de fundo para seus produtos, leia-se telenovelas.

 

 

Qual a importância do telejornalismo praticado no Brasil?

Sergio Mattos –  Apesar  da superficialidade com que as noticias são tratadas e devido à sua  quase instantaneidade(noticias transmitidas quase que em tempo real), os telejornais  ainda servem  de pauta para os jornais impressos. Nenhuma noticia dada, por exemplo no Jornal Nacional da Globo, ficará sem espaço nos jornais impressos do dia seguinte onde os telespectadores poderão encontrar maiores detalhes sobre a chamada ou o lead transmitido na noite anterior. Na verdade o telejornalismo e o jornalismo impresso interagem de uma maneira sui generis, isto porque se pensava que um(TV) iria competir com o outro(jornal impresso) com a perspectiva de eliminá-lo totalmente, o que não aconteceu nem irá acontecer no futuro, mesmo com a concorrência do jornalismo on line(Internet). A interação entre telejornalismo e jornalismo impresso acontece durante todo o tempo: Raro é o noticiário matutino das emissoras que não são iniciados com a leitura das manchetes dos jornais do dia e os noticiários do fim da noite, em geral, são encerrados lendo as principais manchetes dos jornais do dia seguinte. Mas, voltemos à importância do telejornalismo: Quando os telejornais passaram a ser nacionais(o Jornal Nacional da Globo foi transmitido pela primeira vez no dia 1º de setembro de 1969) a sua grande contribuição foi ligar o país de norte a sul, contribuindo para uma unidade, aliás a televisão como um todo no país contribui para  preservar e manter a unidade da língua portuguesa num país de dimensões continentais.

 

Como o telejornalismo interfere na vida das pessoas?

Sergio Mattos – Inúmeros pesquisadores vêm tentando  definir os conceitos e técnicas de elaboração e apresentação das notícias e reportagens na televisão. Vários estudiosos tentam detectar o processo pelo qual a realidade é construída nos noticiários das televisões, analisando a ideologia dos noticiários de maior audiência do país, tentando identificar a influência deste tipo de programa sobre a população, verificando o processo de conscientização dos grupos comunitários e observando também a influência da ideologia dominante sobre os mesmos. No que diz respeito à construção da realidade pelo telespectador pode-se afirmar que a televisão é apenas mais um componente na formação da representação da realidade, pois o conteúdo das informações recebidas já chega ao consumidor filtradas e somam-se  às informações de outras fontes as mais variadas possíveis.  Muitos são os estudos de casos isolados, mas não temos ainda um estudo perfeito que diga exatamente o tipo de influência que possa ser generalizado. Entretanto, a partir do interesse que o telejornalismo desperta nos estudiosos podemos concluir que a importância deste programa é muito grande para a população que o tem como única fonte de referência da realidade. Observe-se que existem alguns trabalhos que chegam ao detalhe de descrever o sistema mercantilista de nossas emissoras a partir da produção dos nossos telejornais. Para encerrar este assunto, devo dizer  que como jornalista , sou contra a dramatização da notícia.

 

Como você vê os Programas de auditório  produzidos por nossa Televisão brasileira?

Sergio Mattos – Os programas de auditório produzidos no Brasil visam atingir as camadas menos favorecidas da população. Os programas de auditório em geral sempre foram de baixo nível. A partir da década de 90 as nossas emissoras voltaram a lançar mão de programações destinadas às classes C e D devido a uma acirrada briga por audiência, principalmente pelo fato de que nesta década houve uma relativa estabilização econômica, contribuindo para o surgimento  de um contigente de aproximadamente  24 milhões de novos telespectadores que representam cerca de 20% do antigo total da audiência. Para se Ter uma idéia mais ampla da situação, basta lembrar que durante o Plano Real de FHC, por exemplo, foram vendidos no Brasil cerca de 28 milhões de aparelhos, calculando-se que cerca de seis milhões foram comprados por famílias que estavam adquirindo o primeiro televisor, todas elas integrantes das camadas mais baixas da população. Estes novos telespectadores é que são o motivo das disputas de audiência com programas de baixo nível a exemplo dos exibidos:  O Ratinho e  o Leão que exploram (ou exploravam, devido as recentes portarias da Justiça) aberrações, sem deixarmos de lado os programas do Domingão do Faustão e o de Gugu que também andaram apelando em busca do crescimento dos índices de audiência.

Em síntese, sou contra a vulgaridade exibida nos programas de auditório e acredito que para atrair a audiência as emissoras não necessitam de tanta apelação. Podemos dizer também que a apelação mostrada hoje na televisão visando atrair audiência se deve também ao advento da televisão paga, via cabo ou via satélite, que tem roubado uma fatia significativa de audiência das televisões abertas.

 

Qual é a sua opinião sobre a programação infantil de nossa televisão ?

Sergio Mattos – Os programas infantis também não estão a salvo desta apelação pela audiência. Nos programas infantis existe o exagero da erotização, mostrada não apenas  nas roupas  colantes e na forma de dançar sensual das apresentadoras e acompanhantes dos programas tipo “Xou da Xuxa” e suas pupilas A erotização também está presente nos programas de Angélica, Carla Perez, Tiazinha etc. O nosso melhor programa infantil, em todos os níveis,  premiado e reconhecido no mundo todo,  foi “O Sitio do Pica-Pau Amarelo”. Por que o tiraram do ar? Atualmente só quem tem produzido alguma coisa com qualidade educativa nesta área é a TV Cultura (Ratimbum). Na verdade, as emissoras  deveriam evitar  expor nossas crianças a situações de constrangimento físico, psicológico, humilhações e a situações vexatórias.

 

Como o senhor vê o espaço de honra ocupado pela Teledramaturgia na TV, a tecnologia das novelas e sua conseqüente exportação?

Sergio Mattos –  As telenovelas  produzidas no Brasil vêm sendo objeto de estudos desde a Segunda metade da década de 60. Estudos os mais variados têm abordado a telenovela como produto típico da cultura de massa. O estereótipo, as questões semânticas e o papel de transformação social ou de introdução de novos hábitos através das telenovelas têm sido, entre outros, alguns dos principais aspectos que são estudados em nossa telenovela. Segundo  Samira Campedelli, que estuda as telenovelas a fundo, existem vários tipos de telenovelas: aquelas que são melodramáticas, as exóticas, as alternativas, a do tipo chanchada e a novela-verdade.  A teledramaturgia sempre esteve presente na nossa televisão (fundada em 18 de setembro de 1950) desde os primeiro momentos, em 1951, mais precisamente no dia 21 de dezembro começou a transmissão da primeira telenovela brasileira: “Sua Vida Me Pertence”, que exibia dois capítulos  por semana. Entretanto, a primeira telenovela, em capítulos diários, só foi ao ar no ano de 1963 e tinha o seguinte título: “25-499 – Ocupado”, produzida pela TV Excelsior. A TV Excelsior também foi a responsável pela produção e transmissão da mais longa telenovela brasileira até agora: “Redenção” que ficou no ar de do dia 16 de maio de  1966 a  2 de maio de 1968, apresentando um total de  596 capítulos. A partir daí a televisão brasileira se especializou na produção de telenovelas e na década de 70 passaram a exportá-las. A primeira delas a fazer sucesso no exterior foi a novela “O Bem Amado”, que era vendida já dublada para o espanhol. Outra novela que é o maior sucesso de venda da Globo em todos os tempos é “Escrava Isaura”. Hoje só a Rede Globo exporta seus programas (principalmente telenovelas) para cerca de 130 países e para gerenciar isto a emissora criou um departamento internacional. Tecnologicamente pode-se dizer que as emissoras brasileiras, principalmente a Globo, investiram muito na produção de telenovelas além de terem ousado também, pois hoje as novelas brasileiras são consideradas como as mais bem produzidas e atraem as atenções de todos, tanto telespectadores, anunciantes como emissoras de televisão de todo o mundo interessados neste gênero. A Globo se especializou como produtora e exportadora de programas, não apenas de telenovelas, pois mais recentemente, baseando-se na tendência global, ela passou a desenvolver outros produtos mais interativos, a exemplo do “Você Decide”, passando a exportar não apenas o programa com perspectivas variadas de adaptações para mais de 10 (dez) países como também passou a exportar apenas o formato do programa, e não o produto acabado. O sucesso dos nossos programas tanto no mercado interno como no externo levou tanto a Globo como o SBT a investir em produções e para tanto criaram respectivamente em 1995 e 1996 o Projac, o maior Centro de Produção da América Latina, em Jacarepaguá no Rio de Janeiro, e o Complexo  Anhangüera, a cidade cenográfica do SBT, em São Paulo .

 

 

Qual é a influência da Publicidade na televisão brasileira?

Sergio Mattos – A televisão é o maior veículo publicitário do Brasil, ficando com 60% do bolo publicitário do país, que gira em torno de 1%(um porcento) do nosso PIB.  Desde o seu inicio a televisão se caracterizou como um veículo publicitário por excelência. Como nos primeiros anos a TV não atingia ainda um grande público, também não conseguia atrair grandes anunciantes, mas as agências de publicidade estrangeiras instaladas no país e que possuíam experiência com TV, logo passaram a utilizá-la como veículo publicitário passando a decidir também sobre o conteúdo de seus programas. Nos primeiros anos os patrocinadores determinavam os programas que deveriam ser produzidos e veiculados, além de contratar diretamente os artistas e produtores. O patrocinador decidia sobre tudo. Exatamente por isso, durante as primeiras duas décadas de nossa televisão os programas eram identificados pelos nomes dos patrocinadores: “Repórter Esso”, “Telejornal Pirelli”, “Telenotícias Panair”, “Reportagem Ducal”, “Teatrinho Trol”, “Gincana Kibon”, “Sabatina Maizena” etc.  Em 1969, 16 das 24 novelas produzidas e veiculadas no Brasil tinham o patrocínio de empresas multinacionais: Gessy-Lever, Colgate-Palmolive, Kolynos-Van-Ess. Hoje em dia a influência da publicidade é mais indireta, mas continua presente uma vez que a TV é dependente de anúncios e o anunciante, se o programa não tiver audiência suficiente, pode determinar o seu fim pelo simples fato de cancelar os anúncios que garantem a veiculação daquele programa em um determinado horário especifico. Com a queda da audiência os anúncios fogem, deixando de ser programados e o programa acaba sendo retirado do ar mesmo que tenha alta qualidade educativa.

 

Qual é sua visão sobre a censura nos veículos de comunicação?

Sergio Mattos – A censura a qualquer meio de comunicação de massa é uma violência à liberdade que o cidadão tem, de procurar, receber e publicar informações, garantida pelo Art. 19 da Declaração dos Direitos do Homem e também pela nossa Constituição de 1988. Apesar disto, é preocupante o ressurgimento da censura no Brasil. Estou me referindo não à censura formal e policial praticada aqui no Brasil durante os governos de exceção, abolida totalmente pela Constituição, mas a uma nova forma de censura, de aspecto hipócrita, que sem contar com a repressão policial, envolve todos os tipos de pressões e constrangimentos possíveis. Na busca de obter sucesso na vida social normal, os artistas, escritores e jornalistas, por exemplo, sob as mais variadas formas de pressão, podem ser levados a praticar a autocensura a fim de atender às regras ditadas pelas normas políticas, econômicas e sociais do momento, seja num país de regime democrático ou totalitário.

 

O senhor fala em formas disfarçadas de censura. Como elas acontecem?

Sergio Mattos – Elas podem ser exercidas isoladamente por qualquer cidadão, contra o direito de outros. É perigosa, pois pode alastrar-se, levando associações, grupos político-ideológicos, religiosos, sociais ou outros tipos de instituições constituídas a decidir sobre o conteúdo dos trabalhos artísticos, científicos, jornalísticos e literários que são apropriados para seus associados, telespectadores, ouvintes, leitores ou seguidores, condenando o restante ao ostracismo. O desenvolvimento tecnológico e o fortalecimento das estruturas burocráticas governamentais poderão contribuir para o surgimento de novos métodos de controle dos meios de comunicações de massa. Métodos muito mais eficazes, pois a tendência , que se pode observar, é que a censura está se tornando cada vez mais  sutil  e complexa, desde que Herbert Marcuse desenvolveu a tese que ele denominou de “tolerância repressiva”. Assim, qualquer idéia perturbadora pode ser simplesmente ignorada ou, quando tolerada, ela é sobrelevada e obscurecida, gerando com a permissividade “uma espécie de censura ao contrário”. Assim sendo, a indiferença também é uma forma de censura muito eficaz e esta muitas vezes é praticada também pelos jornalistas e veículos que ignoram certos fatos, pessoas, artistas, políticos, compositores, autores, etc., simplesmente por não gostarem destas pessoas especificamente seja lá qual for o motivo.

(Entrevista publicada no Jornal de Opinião,  de Belo Horizonte, de 04-10 de dezembro de 2000, pp.4 e 5).

 

 

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Sunday, March 13, 2005

A PRODUÇÃO NA TV BRASILEIRA (resenha)

PARA ENTENDER A PRODUÇÃO DA TV BRASILEIRA

 

Sérgio Mattos (*)

(Professor Doutor em Comunicação)

 

 

 

ARONCHI DE SOUZA, José Carlos. Gêneros e Formatos na Televisão Brasileira. São Paulo: Summus, 2004.

 

 

 

 

            Por meio da Summus Editorial, o professor José Carlos Aronchi de Souza, acaba de lançar o livro “Gêneros e Formatos na Televisão Brasileira”, oferecendo uma contribuição fundamental para a formação dos profissionais da comunicação que vão trabalhar com a produção de programas televisivos.

            O livro é fruto de um trabalho iniciado com a dissertação de mestrado do autor na década de 90 do século passado. No período de dez anos, de 1994 a 2003, ele acompanhou as informações sobre a programação da televisão brasileira, com o objetivo geral de oferecer subsídios para que tanto alunos, como professores e profissionais tivessem acesso a informações que permitissem, com objetividade, “caracterizar e desenvolver uma produção televisiva acadêmica com bases em elementos empíricos”.O estudo teve também três objetivos específicos para entender as respectivas categorias, gêneros e formatos usados em nossa televisão:

1)- Identificar as categorias, os gêneros e os formatos dos programas da televisão brasileira.

2)- Oferecer a quem viesse se envolver na produção de programas de televisão uma visão geral das principais características dos programas e dos objetivos de cada gênero.

3) Identificar os elementos e as etapas de produção de TV que caracterizam cada formato de programa.

            Consciente de que só poderia identificar e classificar os programas pela análise da grade de programação de cada emissora, o autor iniciou suas observações e ao final, ele acabou construindo uma tipologia dos programas veiculados na televisão brasileira. José Carlos Aronchi de Souza identificou, na televisão brasileira, a existência de 31 formatos aplicados em 37 gêneros distribuídos em cinco categorias. Entretanto, como não era seu objetivo, apesar de ter identificado um número tão expressivo de programas, ele não se deteve a fazer um histórico de cada gênero. O que ele pretendeu mesmo e conseguiu foi organizar os conceitos sobre televisão, contribuindo desta forma para aumentar o conhecimento deste veículo de massa que ocupa um lugar de destaque na vida dos brasileiros.

            Neste livro, o autor nos oferece um texto sistematizado, apropriado a servir de guia para os estudantes, pois ajuda os mesmos a reconhecerem os gêneros e formatos transmitidos diariamente pelas redes de televisão do Brasil. A falta de bibliografia específica, que trate do tema gêneros e formatos de televisão, transforma este trabalho num manual essencial, num ponto de partida para o ensino de produção de programas para a televisão. Ao longo do livro são apresentados, discutidos, analisados e definidos as cinco categorias, os 31 formatos e 37 gêneros identificados e classificados. Vale destacar que os gêneros dos programas foram identificados de acordo com a classificação das próprias emissoras e que os formatos dos programas foram analisados de acordo com as características técnicas que acompanham cada gênero.

          Porém, o autor nos adverte que “no decorrer do livro são apresentadas várias classificações de categorias e gêneros para programas semelhantes. Nesse aspecto, uma hipótese deste trabalho é a de que a classificação dos gêneros dos programas de televisão no Brasil não acompanha um padrão internacional e é flexível, conforme os interesses de cada rede – o que leva a concluir que a definição dada pelas emissoras tem como objetivo principal atrair o telespectador em vez de se restringir à essência do gênero” (pág. 36). Mais adiante, José Carlos Aronchi de Souza esclarece, também, “que o termo formato é nomenclatura própria do meio para identificar a forma e o tipo de produção de um gênero de programa de televisão. Formato está sempre associado a um gênero, assim como gênero está diretamente ligado a uma categoria” (Pág.46).

            De maneira criativa, usando o mesmo modo de formatação de um programa de TV, Aronchi de Souza dividiu seu livro em dois blocos. No primeiro bloco, intitulado “Um programa para conhecer os programas”, ele escreve sobre a importância do ensino de televisão; apresenta o que precisamos saber para entender as categorias, os gêneros e os formatos; além de ensinar como identificar o tempero da salada dos gêneros. Integram ainda o primeiro bloco mais três capítulos. No primeiro, detalhadamente ele apresenta as definições teóricas e as relações existentes entre as artes e a comunicação. No segundo, ele aborda “gêneros e televisão”, apresentando uma visão de mercado, explica a programação de televisão e explica o que é e como se estrutura uma grade horária de TV, que ele considera como o ponto-chave para o sucesso no mercado. No terceiro e último capítulo do primeiro bloco, o autor nos apresenta uma visão geral dos principais gêneros de sucesso nas televisões do mundo: na Europa, Estados Unidos e América Latina.

            O segundo bloco é dedicado à “Classificação das categorias, organização dos gêneros e identificação dos formatos”. Integra o quarto capítulo, o mais longo e detalhado de todos, vários gráficos da análise feita a partir dos programas apresentados pelas redes de televisão do Brasil, demonstrando que pouca ou quase nenhuma alteração foi registrada em um período de dez anos nos programas de sucesso. Registrou apenas pequenas modificações em alguns deles como a redução do tempo destinado a alguns programas, a exemplo do telejornalismo do SBT.  Os gráficos ajudam a compreender as opções de cada emissora no desenvolvimento de suas respectivas programações e o autor faz uma análise de cada gênero na grade de programação das televisões.

            Em seu capítulo de encerramento, o autor conclui que o trabalho abre caminhos para que novos estudos dos formatos da televisão sejam produzidos, além de ter chegado também a algumas conclusões definitivas, tais como: “Os gêneros são definidos pela emissora seguindo o seu entendimento e as suas estratégias de marketing. (…) O formato passa a definir um gênero, o que ocorre com freqüência na grade horária. (…) O ponto principal da pesquisa foi reconhecer que o formato é o elemento fundamental para a classificação do gênero de programa de televisão e transmiti-lo. A mesma denominação pode ser um formato ou um gênero, como ‘entrevista’. Para definir o programa, deve-se tentar identificar sua essência, da produção ao público-alvo. (…) Gêneros viram formatos e vice-versa”.

            Como destacado por José Marques de Melo, no prefácio, este livro é “uma contribuição valiosa, ainda que provisória, para a formação universitária dos profissionais da comunicação”.  Sim, este é um trabalho que passa a ser referência para o ensino de produção de programas de televisão, porque além de usar uma linguagem clara e objetiva, fornece exemplos atuais e apresenta todos os pontos práticos necessários à produção de um programa, com a identificação dos princípios básicos e características essenciais a cada programa.

 

_________________

(*) Esta resenha foi publicada na revista Comunicação & Sociedade, de São Bernardo do Campo, São Paulo, Umesp, Ano 26, nº 43, pp. 206-209.

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Sunday, March 6, 2005

SOBRE UM JORNALISTA- POETA ANGOLANO

UPONGO, um pranto poético

 

Sérgio Mattos

(Escritor, poeta, jornalista e professor)

 

            Daniel Fernando Setila, nascido em 9 de novembro de 1966 na cidade de Huambo (antiga Nova Lisboa), no centro de Angola, é poeta nato. Dono de uma poesia forte, marcada pelas cicatrizes deixadas em seu corpo, sua alma e em seu coração devido à experiência de sua luta em busca da realização dos sonhos e do mundo de esperança que idealizou construir.

         A escolha da palavra UPONGO – que em Umbundo, língua falada na região centro sul de Angola, quer dizer Pranto, nos revela desde já um poeta que sabe cantar não apenas o belo, o sonoro ou o verde, mas também a dor que verdadeiramente sente. Não é à toa que se define como “o pé descalço dos esfarrapados de minha terra”. A sua sensibilidade está presente em seus versos e é ela que confere à sua poesia uma originalidade de conteúdo sensível, rico e depurado. Nos poemas reunidos em UPONGO, Daniel Setila expõe sua alma, compartilhando suas lembranças e sentimentos com o público leitor. É lamentável sabermos que outros originais de sua autoria tenham se perdido durante a guerra civil em sua terra natal.

          Para que o leitor entenda e possa se situar melhor em relação aos sentimentos e fonte de criação poética, é importante conhecer um pouco da história deste poeta angolano, deste poeta da língua portuguesa. Filho de um médico e de uma enfermeira, Daniel iniciou sua vida profissional como jornalista na cidade de Benguela, aos 17 anos, trabalhando numa emissora de rádio local. Estava estudando jornalismo em Luanda, quando, em 1984, teve de abandonar a escola para cumprir o serviço militar obrigatório. Foi piloto de helicópteros, durante a guerra civil angolana, até sofrer um acidente que o tirou dos céus e o colocou novamente no ar, desta feita através da Rádio Nacional de Angola, onde foi nomeado chefe de redação e correspondente de guerra. Em 1989, por indicação do Departamento da Esfera Ideológica do Comitê Central do MPLA – Movimento Popular de Libertação de Angola, viajou para Cuba, onde estudou comunicação na Universidade de Havana.

         A cidade de Havana, com seus contrastes, mistérios e riqueza cultural, que atraíram Ernest Hemingway, entre tantos outros escritores seduzidos pelo clima paradisíaco da maior ilha das Antilhas, embalados pelo som da salsa e dos boleros acompanhados do sabor forte do rum, também cativou Daniel, que lá permaneceu por um tempo. Em Havana, casou-se e teve uma filha. Ele viveu ao lado de sua mulher, um amor cubano, e continuou exercendo a profissão de jornalista, trabalhando na Rádio Havana de Cuba, até separar-se e retornar para a Angola. Sua vida e experiência marcam direta e indiretamente sua criação poética:

 

         “Os angolanos são diferentes.
                  Compram armas
                  e matam angolanos, como eu.
                  Falam inglês, francês, chinês,
                  português português e português brasileiro.
                  Suas mulheres se perfumam em Paris
                  e compram sapatos italianos,

         a carne da Argentina e o arroz da China,
                  as balas de Washington e os tanques em Moscou.”

 

 

          Segundo o crítico francês Léon-Gabriel Gnes, o poeta “vive de duas exigências contraditórias: a fidelidade aos dados da inspiração, às sensações elementares e ao rigor intelectual que se manifesta no próprio objeto verbal”. Partindo desta constatação, poderíamos acrescentar que, exatamente por isto, a poesia não pode ser vista apenas como um fenômeno artístico. Ela é também um evento histórico, pois o poeta registra a sua época, o seu mundo real e o seu mundo ideal, preservando assim a memória de um momento de vida, com suas cores, cheiro, dores, ódio e amores.

                  

        “Abro a janela do paraíso
         e vejo as canções graves como elas.

                    Somente a morte vagueia na  melodia,

                    Melodia triste e célebre,

                    Como o assobio dos canhões”.


          A poesia de Daniel Setila revela um poeta atual, que registra a consciência humana e suas agonias. Imagens e metáforas se entrelaçam através de cada poema, evidenciando reflexões e constatações de um tempo com todas as suas implicações sociais, psicológicas e filosóficas.  Daniel não foge da tendência que marcou a poesia do final do século XX, criando uma poesia livre, que canta e encanta. O poeta Daniel se deixa perceber pela sensibilidade à flor da pele, pois consegue ver com as mãos, sem ser cego, sentir a maciez da tez com um olhar e sentir o gosto do cheiro e transmitir aos leitores seus sentimentos, percepções e visão de mundo:

 

                  “Apalpei o teu suspiro,
                  como água de kalandula,
                  e vejo ainda a tua pureza nos meus dedos.”


Ou como mais adiante acrescenta cantando:

 

                  “Ainda assim
                  continuo apalpando aqui e ali
                  a cor dos meus olhos silêncio
                  clamando, chamando a música da alvorada.”

 

Daniel modela as palavras de maneira vigorosa, produzindo uma poesia sem sentimentalismo, mas plena de lembranças marcantes e cheias de crítica social e política:

 

                  “O meu castigo
                  é o desterro das minhas idéias,
                  o desamparo das vozes famintas,
                  o som do desabafo das desilusões.”

 

 

          Do cenário da guerra angolana, na qual o poeta foi protagonista (ator e vítima), afloram poemas que recordam um momento de vida, com extrema nitidez e plasticidade. A plasticidade e ritmo de seus versos revelam suas experiências de vida, enquanto sua percepção sensorial transmite as vicissitudes, a esperança, o amor, o ódio, a dor e a guerra:

 

 

                  “O meu grito é mudo e surdo
                  A minha palavra, o silêncio.
                  O silêncio dos meus anseios”

                  ……………………………………..

                  “Apenas sinto e consinto o que não consinto.
                  Por isso estou lhe escrevendo lágrimas do passado,
                  com temperos do presente”.


          Como todo poeta, Daniel se exprime dentro de uma multiplicidade de sentimentos, demonstrando amplitude universalista, até mesmo quando transmite a vivência regional de uma situação localizada em Angola. Sua poesia apresenta um lirismo forte, uma lucidez melancólica e um engajamento político - ideológico sem ser contraditório ou radical.

          UPONGO evidencia um autor de extrema sensibilidade, conhecedor dos segredos das palavras, e que demonstra pleno domínio sobre como se expressar e se utilizar de todos os recursos poéticos. Sua poesia agrada pela musicalidade, pela simplicidade, firmeza  e beleza.

          A rima, na poesia de Daniel, não é constante, banal ou rotineira. Quando aparece em seus versos, ela é incisiva e contundente:

 

                  “Se meu destino de rosa fosse
                  eu seria um mar de flores.
                  Se meu sorriso de pura fonte fosse,
                  seria um mundo de amores.”

 

          Na verdade, cada um de seus poemas se constitui na projeção de uma idéia transformada em palavras através da emoção. Mas a emoção não se constitui no fundamental de sua criação, ela é simplesmente o meio que ele encontrou para transformar sua idéia, visão de seu mundo real, de seu mundo ideal, em palavras que pudessem ser sentidas, entendidas por todos. A emoção é o veículo de transmissão de sua mensagem para que ela seja percebida de forma universal. Isto porque ele demonstra ter a consciência de que a literatura não é um fenômeno exclusivamente artístico e que o poeta tem também a função de preservar a memória de sua comunidade, da sua terra. Falando da terra, ele fala do homem, dos seus valores e de sua visão de mundo. Assim é este poeta, cantor de Benguela, que diz ter alma do Bié e língua de Luanda.

          Salve o poeta Daniel Fernando Setila !

 _______________________         

NOTA – Conheci o poeta angolano Daniel Fernando Setila em uma viagem que fiz a Cuba em companhia do jornalista Valter Xéu em 1998. Seus poemas me foram passados juntamente com a solicitação para que escrevesse uma apresentação para um livro que seria publicado com o título de “UPONGO”. Fiz o texto, mas o livro, pelo que sei,  jamais foi publicado. Perdi o contato com o poeta angolano, mas publico aqui, na Internet, o que penso e sinto sobre sua poesia, compartilhando com leitores e amigos um pouco da poesia, bela e sofrida, deste angolano. Espero também que por meio da Internet, quem sabe, possamos localizá-lo novamente. Quem sabe se o jornalista baiano Raimundo Lima, um de meus ex-alunos, hoje radicado também na Angola, não conhece o poeta e nos coloca em contato…Fica a esperança.

 

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Friday, March 4, 2005

TELEVISÃO E CULTURA (Resenha)

ANÁLISE SEMIÓTICA

   DA TELENOVELA

 

Sérgio Mattos(*) 

 

         A autora do livro “Televisão e Cultura: análise semiótica da ficção seriada” vem dedicando-se ao estudo e à observação da composição das histórias de ficção e à reação dos receptores, desde os tempos de sua adolescência, quando escrevia histórias de amor que circulavam entre os estudantes do Colégio Severino Vieira, em Salvador, e, ainda sem saber, já empregava a técnica do folhetim na divulgação seriada destas. Com o aumento da influência da televisão, a partir dos anos 70 do século passado, ela passou a identificar similaridades estruturais entre as condições de recepção das telenovelas (folhetins eletrônicos) e suas próprias histórias distribuídas no colégio, o que a estimulou, provavelmente, a dedicar-se ao assunto profissionalmente por meio de estudos acadêmicos.

         Desde então, Lícia Soares de Souza vem pesquisando e escrevendo sobre as narrativas da televisão, constituindo-se hoje em uma das maiores autoridades brasileiras no assunto, sempre dando excelentes contribuições no que diz respeito à construção do conhecimento acadêmico para que possamos melhor compreender o que se passa com as formas de produção e os conteúdos transmitidos por nosso maior veículo de comunicação de massa, que é a televisão.

         Entre as contribuições de Lícia Souza podemos destacar o livro “Représentation et idéologies: les teléromans au service de la publicité”, publicado em Montreal, Canadá, em 1994, no qual faz uma leitura das telenovelas, destacando as da Rede Globo, por ser a que mais exporta esse tipo de programa. Ela questiona o conceito de representação e ideologia, utilizando-se da semiótica para descrever as modalidades de introdução de um discurso publicitário na ficção narrativa. Entre as conclusões, a autora afirma que a Globo introduz a publicidade nas novelas não muito “sutilmente”, sugerindo ao telespectador “usar a roupa do galã da novela das oito”.

         Em 1996, ela volta a concentrar sua atenção de pesquisadora sobre as telenovelas da Globo, publicando um novo trabalho, intitulado “Comunication et intégration: la fiction quotidienne de TV Globo”, em uma revista especializada da Universidade de Laval, no Canadá. Nesse artigo, ela apresenta algumas idéias gerais sobre a história dessa ficção nacional, que, aos poucos, distancia-se dos procedimentos importados. Em seguida, analisa algumas novelas que obtiveram êxito nos anos 60 e 70, abrindo o debate sobre a constituição de um amplo campo cultural de grande consumo que já possui suas próprias regras e conceitos de produção.

         Considerando que foi sob a influência do folhetim, que a teleficção surgiu e consolidou-se, no século passado, como uma forma de narrativa audiovisual com especificidades próprias que a transformaram numa forma superior da cultura midiática, Lícia Soares de Souza desenvolveu uma nova pesquisa cujos resultados nos são apresentados neste livro.

Em “Televisão e Cultura: análise semiótica da ficção seriada”, a pesquisadora tem dois objetivos principais: 1) caracterizar a dimensão cultural da teleficção sob o ângulo semiótico no contexto da globalização; e, 2) levantar alguns dos principais temas e estilos da narrativa televisiva. Para tanto, a autora identificou quatro núcleos temáticos das telenovelas: a) mal de amor; b) estrutura de poder; c) antropofagia cultural; e, d) estrutura policial.

         As análises são feitas a partir de dois cenários: intertextual e transtextual. O primeiro cenário se apresenta como estrutural global, pois reflete a remodelização dos elementos temáticos e estilísticos. No segundo, transtextual, a estrutura global particulariza sua referencialidade em contato com os signos de uma comunidade.

         Vale destacar que este é um trabalho no qual o cenário cultural é analisado também sob o ponto de vista macro-estrutural, evidenciando as relações e interações entre uma cultura dita erudita (considerada superior) e uma cultura popular de massa (considerada inferior). Aqui, “cultura é percebida como um conjunto orgânico de sistemas textuais que produz a memória de uma coletividade historicamente situada, que instaura programas para assegurar a comunicação do material representativo e que interpreta as relações significativas que emanam do patrimônio representativo”.

         As evidências apresentadas ao longo deste livro permitiram a autora concluir que hoje é essencial se “pensar a comunicação televisiva a partir de um ponto de vista semiótico com a possibilidade de descrever a rede de trocas entre realidades distintas. Seria perseguir a interação entre os processos desterritorializantes e os de reterritorialização dos espaços singulares no decorrer do qual cada coletividade busca dar sentido aos significantes do mundo moderno”.

         Um dos pontos de destaque de seu trabalho é a análise que faz da antropofagia cultural e da carnavalização, evidenciando o relacionamento das telenovelas com um conjunto cultural nacional, levando-a a concluir que “existe um sistema de relações entre componentes de uma tradição cultural do domínio restrito e as narrativas telefictícias, que define um processo produtivo socialmente ativo”.

         Além disso, ao analisar a voz da terra na teleficção, a autora concluiu também que as séries regionalistas, produzidas por nossa televisão, “empreendem as ligações sígnicas entre o domínio restrito e os fatos da atualidade relativos às lutas seculares pela posse das terras”. No que diz respeito à teleficção policial, que concentra inúmeros estilos do gênero, as evidências mostram “como o código hermenêutico, com seus enigmas e mistérios, recebe identidades próprias na narrativa seriada e modular que caracteriza a teleficção”.
    E
m síntese, a partir do esquema semiótico de análise proposto, Lícia Soares de Souza lança, com este livro, as bases para que possamos entender como “se agenciam, na especificidade do audiovisual nacional, os componentes narrativos, enunciativos e argumentativos, de vários outros estilos de produção fictícia”, tais como os documentários jornalísticos ou cinematográficos, que tecem novas redes de signos culturais a partir das novas percepções de construção do mundo que estão surgindo como resultado, por exemplo, das idas-e-vindas da globalização e dos processos de fortalecimento da regionalização.

         Este livro merece ser lido, não apenas por ser uma contribuição a mais à literatura específica, mas também, e principalmente, pelas questões instigantes que levanta.
______________________

(*) Sérgio Mattos é doutor em Comunicação pela Universidade do Texas, em Austin, Estados Unidos, e autor de vários livros sobre a televisão brasileira, sendo o último: “História da Televisão Brasileira: Uma visão econômica, social e política”, editado pela Editora Vozes em 2002.

 

 

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Saturday, February 26, 2005

REPÓRTER MULTIMÍDIA (entrevista)

 

 

O REPÓRTER MULTIMÍDIA

 

Sérgio Mattos é mestre e doutor em comunicação pela Universidade do Texas, Austin, Estados Unidos. Diplomado em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia ensinou na Faculdade de Comunicação da UFBA tendo se aposentado como professor adjunto. Atualmente, exerce as funções de coordenador dos cursos de Jornalismo e Relações Públicas das Faculdades Integradas Ipitanga, mantidas pela UNIBAHIA, no município de Lauro de Freitas, na Bahia. Sérgio Mattos é também diretor e editor-chefe da revista NEON. Tem vários livros técnicos publicados, concentrando suas pesquisas nos veículos impressos e televisão. Outra área de interesse de suas pesquisas é a censura, sobre a qual já publicou dois livros: “Censura de Guerra” e “O Controle dos Meios de Comunicação”. Sérgio também é poeta (com sete livros individuais publicados) e compositor, com dezenas de músicas gravadas por vários interpretes, sendo que possui quatro CDs individuais. Ao todo Mattos possui 25 livros publicados.  Esta entrevista eletrônica foi concedida a Vera Pinheiro, do Jornal ANJ, em maio de 2000.

 

 

1.     Qual a sua definição para repórter multimídia?


SÉRGIO MATTOS
- Quando se fala num profissional multimídia, a primeira imagem que se nos apresenta é aquela do profissional dos mil e um instrumentos, que dentro das redações exerce uma função de curinga. O homem dos sete instrumentos, o faz-tudo. Esta imagem é de certa forma, uma imagem pejorativa, pois o faz-tudo acaba sendo uma espécie de quebra-galho, nunca um profissional na acepção total da palavra. Entretanto, um jornalista multimídia deve ser aquele profissional que está preparado e que entende o funcionamento dos meios de comunicação em todos os seus aspectos: produção, difusão, comercialização e administração. Hoje é importante que o jornalista tenha uma visão real do mercado onde atua, além de conhecer a operacionalização de toda a parafernália tecnológica existente a fim de que possa satisfazer não apenas suas necessidades como comunicador, mas também atender os variados níveis de expectativas dos consumidores de produtos mídiáticos. O profissional multimídia é também aquele que tem uma noção perfeita das demais profissões da área da comunicação social, sabendo exatamente como atuam e pensam, dentro da lógica de mercado de cada um.



2.      Quais são as qualificações que esse profissional deve ter?

SÉRGIO MATTOS
– Os cursos de comunicação hoje em dia têm procurado abrir o leque das opções das disciplinas oferecidas, buscando ampliar a interdisciplinaridade e integração com outros cursos, visando abrir ainda mais a visão de mundo do futuro jornalista, que precisa ser um profissional aberto, sem qualquer tipo de preconceito e voltado cada vez mais para adaptar as novas tecnologias e tirar proveito delas em benefício da coletividade. O profissional multimídia não pode ser confundido com o profissional que sabe operar variados e sofisticados instrumentos eletrônicos. Muito pelo contrário, este profissional deve conhecer principalmente como funcionam as forças do mercado, como pensam os profissionais de outras áreas, como se processam as relações profissionais entre si e como elas utilizam os meios de comunicação e como se gratificam ao utilizar cada veículo.



3.     As faculdades (Cursos de Jornalismo) estão capacitadas para formar repórter multimídia?


SÉRGIO MATTOS
– Os cursos de jornalismo têm feito um grande esforço para se adaptarem à nova realidade que vem mudando com uma rapidez muito grande. A adequação dos novos currículos de formação de jornalistas à realidade de mercado atual e futuro demanda muita discussão e muitas vezes ainda esbarra na burocracia e lentidão dos órgãos que aprovam as mudanças educacionais. Mas, o importante é que estas mudanças estão se processando e algumas faculdades já apresentam currículos experimentais bem avançados e que estão procurando formar profissionais adaptados a esta tendência e que possuam uma amplitude de conhecimentos, que lhes permitam atuar como verdadeiros profissionais multimídias, mas principalmente, como cidadãos que conhecem os seus direitos e deveres e que sabem exercer a cidadania, em beneficio da comunidade.




4.     Esse novo perfil do profissional de imprensa que o mercado passa a exigir pode levar os Cursos de Comunicação à retomada de uma formação mais integrada e não por área de interesse (Jornalismo, Relações Públicas, Publicidade e Propaganda, Rádio e TV…? 

SÉRGIO MATTOS
 – Existem três correntes atualmente: uma que defende o fim dos cursos por área de interesse, formando comunicadores sociais que podem atuar em qualquer destas áreas sem uma especificidade individualizada. Outra que defende, com unhas e dentes, a manutenção do status quo, argumentando com a necessidade das especificidades para um melhor desempenho profissional. E uma terceira corrente que permite uma maior abertura no que diz respeito à interdisciplinaridade, que leva a uma formação mais ampla e integrada, sem descartar os campos de atuação profissional por áreas de interesse. Acredito que esta terceira corrente pode crescer em influência e atender as necessidades do profissional que o mercado está requisitando. Entretanto, abrindo a possibilidade de uma quarta possibilidade, sou daqueles que defendem que a formação jornalística deveria ser em nível de pós-graduação, ou seja para ser jornalista o candidato já deveria ser portador de algum diploma de nível superior, não importando a área de conhecimento e que se especializaria como jornalista, com uma vantagem, pois acrescentaria à sua profissão toda a bagagem adquirida no curso de graduação superior cursado antes. Esta me parece ser a solução para o futuro e um futuro longínquo, pois só agora é que a pós-graduação começa a tomar corpo do país e ainda tem muito caminho a percorrer.


5.     O que caberá às Redações fazer para formar um quadro de repórteres multimídia?

SÉRGIO MATTOS
– O maior patrimônio que uma empresa jornalística pode ter hoje é o seu quadro de recursos humanos, apesar de nem todas considerarem este aspecto. A reciclagem e a especialização dos profissionais é uma necessidade não apenas da empresa como também do próprio jornalista. Cabe, portanto, às empresas, de acordo com suas necessidades de mercado, prover a especialização de seus profissionais, patrocinando cursos e estágios. Compete também às empresas promover a integração interna, facilitando, por exemplo, a que profissionais acompanhem de perto o trabalho desempenhado em outras áreas da empresa, tais como os departamentos de marketing, relações públicas, o departamento de publicidade e assim por diante. Estes estágios internos em outros departamentos, até mesmo no de circulação/distribuição, permitiria situar o profissional dentro da empresa, passando-lhe uma idéia de como funcionam todos os seus departamentos, quais são as suas dificuldades e necessidades em relação ao trabalho desempenhado pela redação. Esta integração interdepartamental dentro das empresas jornalísticas pode contribuir para sanar inúmeros problemas que podem ser constatados em qualquer empresa jornalística. A idéia está lançada e que os empresários da área jornalística que realmente estão preocupados com o futuro e com o grau de especialização de seus quadros podem tentar a experiência que, além de ter baixo custo, apresentará lucros imensuráveis e positivos para a saúde da empresa.


6.     Como, onde, por que meios os profissionais veteranos podem se reciclar para se manter no mercado multimídia?

 

7.     SÉRGIO MATTOS – Aqui não cabe considerar o profissional classificando-o como calouro ou veterano. O profissional de imprensa tem que saber construir sua credibilidade, preservar suas fontes, atuar com ética e profissionalismo e acima de tudo, por ser um profissional que está sempre na vanguarda, procurar se atualizar permanentemente. Entretanto, como quando no exercício profissional diário, na luta pela sobrevivência a reciclagem torna-se difícil por falta de tempo, cabe às empresas o papel de proporcionar esta reciclagem, começando pela integração interna, para que todos tenham uma visão geral de todas as áreas de atuação de uma empresa jornalística com todas as suas peculiaridades de comércio, de indústria e acima de tudo como uma instituição prestadora de serviços que tem funções sociais muito claras e definidas: de educar, informar, entreter e fiscalizar.


8.     Ser competente em diversas mídias é uma questão de talento ou de treinamento, preparo acadêmico e prática?


SÉRGIO MATTOS – É um pouco de tudo isto e mais alguma coisa. Você pode ser bem treinado e capacitado para desenvolver uma função, mas se não tiver bagagem acadêmica e formação humanista você acaba sendo apenas um bom profissional. Assim sendo, o talento e a criatividade também fazem parte do profissional competente e com nível de excelência. Compete ao chefe imediato identificar os criativos a fim de que possamos “soltar a corda”, facilitando o seu crescimento e transformar isto em beneficio da própria empresa.

 

9.     A Universidade, com cursos de extensão, pode ajudar o profissional que viveu o ciclo da especialização para esse novo momento do mercado jornalístico?

SÉRGIO MATTOS –
Pode sim. Os cursos de extensão seriam como o primeiro passo para a formação do jornalista em nível de pós-graduação. No momento eles são bem vindos e tanto as empresas como as faculdades de comunicação deveriam firmar convênios neste sentido.


10. A carga horária de disciplinas práticas voltadas para o mercado é suficiente para formar bons profissionais? Quanto mais precisaria aumentar a carga horária e que novos conteúdos incluir para as necessidades atuais do mercado?

SÉRGIO MATTOS – A atual carga horária dos cursos de jornalismo giram em torno de 2.700 horas, distribuídas em disciplinas teóricas e práticas num período de quatro anos. Em termos de carga horária creio que a atual carga é suficiente, o que precisa mudar (e esta mudança sempre tem acontecido ao longo dos anos) é a adequação dos conteúdos e das disciplinas às tendências e necessidades do mercado. Até a década de 1970, os cursos de jornalismos exigiam uma carga horária maior nas disciplinas de prática jornalística impressa. Hoje os currículos distribuíram aquela carga horária por outras práticas laboratoriais (tais como oficinas de rádio, de televisão, de pequenos meios e de fotografia, entre outros), ampliando a vivência prática do aluno em todos os meios, não ficando mais o ensino tão concentrado apenas no jornalismo impresso. Se isto aumentou a abrangência da formação do aluno por um lado, pelo outro diminuiu a carga horária de prática no laboratório de impresso. Observe-se que esta mudança ocorreu devido às necessidades do mercado de então. Agora, o mercado já aponta uma nova tendência e as universidades e os professores estão acompanhando estas necessidades de perto por meio de discussões, debates, seminários e até mesmo em congressos, visando a encontrar uma solução para o caso. Enquanto as decisões não são tomadas em níveis oficiais é importante que empresas jornalísticas, faculdades de comunicação e os próprios profissionais procurem adotar a interdisciplinaridade, a reciclagem e os estágios interprofissionais e interdepartamentais a fim de suprir as necessidades de conhecimento que o profissional precisa ter hoje e as empresas encontrarem também o profissional que estão buscando.


11.           Para formar um repórter multimídia que mudanças seriam necessárias no currículo da Comunicação Social?


SÉRGIO MATTOS –
O problema aqui é que os cursos de comunicação social estão direcionados para formar profissionais por área de interesse (jornalismo, publicidade, relações públicas, etc.). Assim sendo, dentro dos cursos de jornalismo existentes hoje isto pode ser feito e já vem sendo tentado em várias faculdades, mas apenas no que diz respeito aos aspectos tecnológicos (por exemplo: informática, Internet, jornalismo on line), com a introdução de novas disciplinas que estudam o jornalismo dentro das tendências e uso de novas tecnologias. Para formarmos realmente um repórter multimídia precisamos mudar alguns conceitos e abraçarmos a causa da interdiciplinaridade (entre disciplinas e entre cursos da área da comunicação social) com vontade. Além disso, como já falamos, é necessária uma maior participação das empresas não apenas no processo de reciclagem interna de seus profissionais como também de interação com as universidades, acabando de uma vez por todas com os preconceitos existentes de ambas as partes.

 

 

 

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RECEPÇÃO E TV A CABO

 

 

 

                        CONTRIBUIÇÃO AO CONHECIMENTO

 

Sérgio Mattos

 

         “Recepção e TV a Cabo: A força da cultura local” é um livro que dá uma contribuição muito mais ampla do que se espera numa obra que, à primeira vista, seria segmentada, totalmente voltada para o setor da televisão, ou mais especificamente para a recepção da TV a Cabo. Entretanto, Valério Cruz Brittos conseguiu, com um estilo leve e um domínio vocabular exemplar, desenvolver um tema, de interesse dos comunicológos, de tal maneira que este trabalho pode e deve ser lido, não apenas pelos estudiosos da área, mas também por todo aquele leitor-consumidor do maior veículo de massa deste século, que é a televisão.                  

 

         Antes de tecer qualquer comentário sobre a obra em si, gostaria de apresentar o seu autor. Valério Cruz Brittos é advogado, jornalista e professor de comunicação, tendo trabalhado em redações de rádio, televisão e jornal, tanto no Rio Grande do Sul, de onde é natural, como em Brasília, tendo exercido as funções de repórter e de editor de política.  Nos últimos anos tem se dedicado à prática acadêmica (ensino, pesquisa e extensão), uma vez que é professor vinculado à Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) e doutor em Comunicação pela FACOM/UFBA, onde tive a honra e o prazer de ser seu orientador e admirador, devido ao seu espírito empreendedor e a garra com que se dedica ao trabalho da pesquisa.

 

         Como se estas informações já não fossem suficientes para qualificar o autor desta obra, posso ainda destacar que ele tem especialização em Ciências Políticas e em Economia Política da Comunicação, além de ser Mestre em Comunicação pela PUCRS, onde defendeu tese sobre o tema deste livro.  Partindo do texto inicial da dissertação de mestrado, Brittos avançou em sua pesquisa, atualizando-a de forma a que a leitura deste livro se torne obrigatória nas escolas, além de se transformar num ponto de referência para todos os que se dedicam ao estudo deste assunto.


           Quando digo que este livro oferece uma ampla gama de informações, maior do que a delimitação contida em seu próprio título, na verdade, quero afirmar que esta obra, além de oferecer uma visão histórica de nossa televisão, discute o caso da TV a Cabo no país, partindo da cidade de Pelotas, para constatar que “as identidades culturais local e regional podem ser consideradas como vias que impedem a homogeneização, apesar de, no processo de interação e constante renovação do qual participam, também terem assimilado dados do global, revelando-se elas próprias híbridas”.


            Como identificou o autor, uma das especificidades da televisão a cabo “é o modo de assistir à TV que estabelece, tendendo a recepção de coletiva a individual, a partir da múltipla oferta de canais, propiciando maior segmentação do consumo, o que ocasiona dispersão”.


         Não podemos deixar de considerar que o mercado de TV paga, no Brasil, ainda é emergente, mas está crescendo com tal rapidez que não é preciso ser profeta para pontuar que no inicio da próxima década a TV por assinatura será, juntamente com o fenômeno da Internet, responsável pela radical mudança que a televisão convencional vai sofrer tanto no aspecto de conteúdo quanto no que diz respeito à composição de sua audiência. Aliás, Brittos também nos brinda com analises neste sentido.


         Os capítulos 2, 4 e 5 deste livro se constituem, a meu ver, num ensaio à parte, quando o autor oferece uma ampla visão de cultura sob os pontos de vistas da antropologia cultural e social, discutindo como o pluralismo do consumo cultural nos leva a um reordenamento do que realmente do que realmente vem a ser cultura e do significado do que é nacional.   Destacando a importância e participação da mídia na constituição das identidades, “as quais não são neutras e envolvem auto-reconhecimento, e que a memória coletiva é a garantia da identidade no tempo”, Brittos analisa ainda a identidade cultural e o seu papel como principal agente mediador da recepção.
 No sexto capítulo ele se dedica a análise do receptor de televisão a cabo, apresentando dados que evidenciam que a TV a cabo está reduzindo a influência do modelo massivo de comunicação desse período globalização que estamos vivendo. “Com a TV a cabo, a programação homogênea entra em declínio e os grupos e indivíduos vão buscar suas próprias opções… Essa mudança de ver televisão, de coletiva a individual, traz conseqüências, inclusive, na sociabilidade… Agora, com a segmentação cultural, cresce a individualização do consumo televisivo, reduzindo ainda mais a possibilidade de convivência social”.

         Nos sétimo e oitavo capítulos o leitor encontra todas as questões que envolvem a literatura, a tecnologia e regulamentação existente televisão a cabo no país.


         Depois de ter analisando a questão da identidade cultural nos primeiros, no oitavo capítulo, Brittos trata do outro lado da moeda, ou seja, o papel da cultura global e sua heterogeneidade. Segundo o autor, “o que determina se um produto integra a cultura global, não é sua origem geográfica, mas seu padrão de produção”. Neste capitulo, que também pode ser identificado como um ensaio à parte, Brittos sintetiza, histórica e conceitualmente, o processo da globalização até os nossos dias quando assume uma forma mais avançada e complexa da internacionalização.


         Enfim, podemos dizer que este livro amplia o conhecimento sobre a relação entre receptor, produto e tecnologia, agregando novos conhecimentos, além de sinalizar para uma mudança no modo de ver e de fazer pesquisas sobre televisão no Brasil. Dentre as várias e importantes considerações conclusivas apresentadas, o autor constatou, por exemplo, que: “Na América Latina, a própria hibridização relativiza o global, desmontando a noção normalmente disseminada de que sua ação é avassaladora, homogeneizante destruidora de toda diversidade”. Dito de outra forma, se o global convive com outras formas culturais, que permanecem, não pode ser homogêneo. Pode sim, e é, hegemônico. Por isso, as identidades culturais, local e regional, podem ser consideradas como vias que impedem a homogeneização…”

 

Para concluir, volto a insistir: este livro é, de fato, uma grande contribuição à área dos estudos da comunicação e deve ser lido por todos que queiram entender melhor o desenvolvimento da televisão neste país.

 

         (Contatos com o autor do livro podem ser feitos por meio do seguinte e-mail: val.bri@terra.com.br)

 

        

 

                  

 

 

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Friday, February 11, 2005

PRODUÇÃO DE LIVROS - ENTREVISTA

A PUBLICAÇÃO DE LIVROS – ENTREVISTA

 

A PRODUÇÃO DOS REGISTROS DO CONHECIMENTO

 

 

 

Trecho de uma entrevista concedida por Sérgio Mattos à profa. Nancy, então responsável pela disciplina Produção dos Registros do Conhecimento (Editoração), da Escola de Biblioteconomia e Documentação da UFBA.

 

 

PROFA. NANCY – Por que o povo perdeu o contato com os livros? O que fazer para que a população brasileira volte a se informar por meio da leitura de livros?
SÉRGIO MATTOS – Não acredito que o povo tenha perdido o contato com os livros. Isto não é verdadeiro. O que se pode dizer é que a população com baixo poder aquisitivo está comprando menos livros, mas não deixou de ter contato com os mesmos, haja vista a freqüência nas bibliotecas e a quantidade de novos títulos que são lançados anualmente no Brasil, O que se precisa fazer para que a população tenha mais acesso ao livro é barateá-lo e isto só será possível com a adoção de livros nas escolas, aumento das edições e programas oficiais de estimulo à leitura. Devemos também impedir a indústria de xerox, que, direta e indiretamente, contribui para o aumento do preço final dos livros, além de lesar os direitos autorais. Quanto à segunda parte da questão, devemos usar os veículos de comunicação de massa (jornais, revistas, radio e TV) para informar a população sobre os lançamentos de livros, indicando os melhores títulos e fornecendo orientações.


PROFA. NANCY – Do ponto de vista social, qual o objetivo do autor ao publicar um livro, além de dar informação à sociedade?

SÉRGIO MATTOS – Existem tipos de livros diferentes: o de história/informação/analise etc que se enquadra no tipo de livro de não-ficção. E os livros considerados de ficção tais como romances, contos, poemas, etc. Todos são o resultado de um trabalho elaborado por um autor. Do ponto de vista social as contribuições dadas pela publicação de um livro são muitas talvez até impossíveis de serem enumerada aqui, mas podemos destacar as contribuições dos livros de não-ficção, através dos quais se pode transmitir informações, novos conhecimentos e resgatar e registrar a memória sócio-cultural-econômica de um país, por exemplo. As obras de ficção (romance, contos, poesias) ou de criação são trabalhos elaborados a partir da sensibilidade do autor que, baseando-se em casos verídicos ou não, ou apenas fruto de sua imaginação, retratam uma época ou situações diversas, tais como dramas de ordem psicológica. Dizem que para se ter uma idéia do cotidiano de uma época, devemos ler principalmente os poetas e cronistas, pois estes sabem retratar o dia-a-dia como ninguém, dando vida e cor a detalhes que ninguém leva em consideração.  O objetivo do autor ao publicar um livro é de ver o resultado concreto de seu trabalho ser multiplicado e à disposição de centenas de pessoas. A publicação de um trabalho é a contribuição que o autor dá à sociedade. A partir do momento em que um autor publica sua obra, seja ou não de ficção, ela passa a pertencer à sociedade.                                          

 

PROFA. NANCY – Do ponto de vista pessoal, qual o objetivo do autor ao publicar um livro?
SÉRGIO MATTOS – Parte da pergunta foi respondida na questão anterior. Além, dos objetivos enumerados acima, poderíamos dizer que os objetivos de ordem pessoal são tantos e tão diversos, variando de pessoa a pessoa que seria impossível citá-los concretamente… Mas se considerarmos um autor consciente de seu papel, podemos dizer que o principal objetivo do autor, do ponto de vista pessoal, ao publicar um livro, é o de dar a sua contribuição naquele setor para o qual está publicando. Por exemplo, um professor de uma disciplina que escreve um livro de comunicação, tem o objetivo de dar uma contribuição significativa àquele ramo do conhecimento, através da sistematização do conhecimento que ele próprio acumulou. A través do livro o professor está também contribuindo para a multiplicação da informação, partilhando o conhecimento acumulado com seus alunos. Isto sem falarmos da satisfação pessoal. Quem publica um livro e pode constatar que ele está sendo comprado, lido, consultado e usado como fonte de informação ou de lazer, sente-se satisfeito, pleno e por que não dizer, um tanto orgulhoso. Não é à toa que se considera que cada livro escrito é um filho do autor…

PROFA. NANCY – A sua obra se destina a um público específico?
SÉRGIO MATTOS – Ao longo dos anos tenho publicado muitos livros. Livros de poemas, de crônicas e sobre a área de comunicação: jornalismo, televisão. Os livros ditos de criação são destinados a todas as pessoas, independente de sexo, classe social, credo ou cor. Os livros de pesquisa histórica e de analise dos meios de comunicação são mais específicos e se destinam aos profissionais que atuam na área de comunicação, aos estudantes de comunicação e ou pessoas interessadas/curiosas por maiores informações sobre um veículo de comunicação específico.

 

PROFA. NAMCY – A publicação de um livro resulta na melhoria do padrão econômico de um escritor?

SÉRGIO MATTOS – Não. Isto porque são poucos os escritores brasileiros que vivem especificamente de sua produção literária. Você conta nos dedos das mãos os autores que vivem especificamente dos livros que produzem. Se fosse o inverso, ou seja, se todo autor pudesse sobreviver dos livros que produz teríamos uma produção muito maior. Imagine o tempo que um autor gasta como professor, como jornalista ou exercendo outra atividade qualquer para sobreviver. Se autor não tivesse que gastar tanto tempo trabalhando pela sobrevivência, poderia destinar mais tempo às suas criações literárias e à produção de noivos livros. Se um autor vivesse do que escreve, poderia ter uma produção maior e de melhor qualidade.

 

PROFA. NANCY – Qual o problema que os autores enfrentam no que tange à estrutura das editoras?

SÉRGIO MATTOS – Não entendi bem a pergunta. O que tem a estrutura da editora com problemas do autor? O que existe hoje no país é que temos poucas editoras e muitos autores. O problema que o autor encontra é o de ter a sorte de ver sua obra selecionada por uma editora para efeito de publicação. E isto significa peregrinação do autor, levando os originais embaixo do braço, por uma série de editoras que às vezes despacham os originais sem nem ao menos abrir o envelope e conferir o conteúdo. Hoje, no Brasil, para se ter uma obra publicada por uma editora conhecida é muito difícil e o autor, além de já ter nome, sempre precisa da ajuda de alguém influente para apresentá-lo ou forçar a barra, garantindo que o conteúdo tem valor e merece ser publicado. Fora isto, resta ao autor procurar editoras que fazem o trabalho de editoração, mas que cobram por isto, ficando os custos da edição por conta do autor. É por isso que a maioria dos autores inicia a carreira custeando a produção dos próprios livros.

 

PROFA. NANCY – Na publicação de um livro o escritor conta com o apoio de órgãos públicos ou com o apoio da iniciativa privada?

SÉRGIO MATTOS – Dependendo do autor e da obra ele pode contar com este apoio. Tudo depende da influência que o autor tenha ou da importância que sua obra tem para atrair o interesse de órgãos públicos ou privados. Se no país existisse uma política editorial, tanto em nível federal-estadual-municipal, nós teríamos uma quantidade maior de livros de qualidade. Como não temos uma política editorial definida, apesar de termos muitas publicações, apenas uns poucos são beneficiados.

 

PROFA. NANCY – Quais as dificuldades do autor ao publicar sua obra?

SÉRGIO MATTOS – Além de tudo o que já relacionamos acima, podemos dizer que uma das maiores dificuldades que um autor encontra é a distribuição de sua obra e o processo de venda realizado pelas livrarias que continuam usando pessoas não qualificadas, capacitadas para atuar neste setor. As distribuidoras sangram as editoras e os autores, pois estas ficam com a maior parte da fatia. Cabe ao distribuidor 50% do preço de capa da cada do livro. As livrarias ficam em média com 20 ou 30% , e o restante 10 ou 20% para a editora e 10% , relativo aos direitos autorais, para o autor. Observe-se que o autor, geralmente, recebe sua parte já defasada e desatualizada porque a prestação de contas é sempre feita depois de muito tempo da data de venda do livro ou em cotas de livros. Isto é o panorama geral, mas existem naturalmente casos específicos, dependendo da obra ou do autor, quando o autor recebe sua parte até mesmo antes do livro chegar às livrarias. Neste caso estão incluídos autores de best-sellers ou quando o autor produz o livro sob encomenda, aí ele recebe antecipações…

 

PROFA. NANCY – Em Salvador já existe uma estrutura editorial para se publicar livros?

SÉRGIO MATTOS – Existe. Em Salvador nós já temos inúmeros autores, que continuam produzindo e publicando e muitos ainda são inéditos. Temos um parque gráfico de boa qualidade, temos inúmeras livrarias e postos de venda de livros. Além disto temos um mercado consumidor/leitor de boa envergadura. Só está faltando em Salvador a implantação de uma editora de porte nacional acompanhada de uma boa distribuidora para resolvermos o problema na área de editoração. Aliás, na década de 90, o Instituto Baiano do Livro investiu muito nesse sentido: o de criar e dotar a Bahia de toda a infraestrutura necessária para a implantação de uma grande editora na Bahia. Apesar de não termos ainda uma editora de porte, a Bahia tem produzido centenas de títulos por ano, com edições estimadas entre 1000 e 3000 exemplares que praticamente são esgotadas em nível regional, sem ultrapassar as nossas fronteiras. Isto dito parece não ser muito representativo, mas enganam-se os que pensam assim, uma vez que as editoras nacionais, que distribuem livros para todo o país também tiram edições que variam de 1000 a 3000 exemplares. Portanto, nossas edições regionais são grandes porque se destinam basicamente ao território baiano. A Bahia é e vai continuar sendo um centro cultural de expressão no país exatamente por esta singularidade que está presente em todos os campos da criação.

 

PROFA. NANCY – Houve influências de alguém ou algo para iniciar sua carreira?

SÉRGIO MATTOS – Claro. Todo e qualquer autor sofre influências, positiva ou negativa, no início da carreira. As minhas foram positivas e acredito que o fato de ser jornalista e de atuar na imprensa contribuiu e muito para abrir as portas no que se refere à publicação e divulgação da obra.

 

PROFA. NANCY – Dentre as suas obras, qual a que você destacaria como aquela que mais o emocionou ao ser publicada?
SÉRGIO MATTOS – O primeiro livro é sempre o primeiro…, mas o último é sempre considerado como o melhor, uma vez que dedicamos mais atenção e usamos a experiência acumulada. Entretanto, entre o primeiro e o último livro publicado existem vários tipos de emoções. Temos aquela emoção sentida pela boa receptividade por parte do público, aquela que sentimos quando a crítica especializada reconhece o valor da obra. Além destas, temos a satisfação de constatar que nosso trabalho começa a ser citado em vários cantos do país e do mundo e a sensação de começarmos a ver a obra publicada em outras línguas. Estes são apenas alguns exemplos de emoções. Diria que a maior emoção é sempre ver publicado o seu mais novo trabalho.

 

PROFA. NANCY – Qual a sua opinião sobre o provérbio: “O homem se realiza quando planta uma árvore, constitui uma família e escreve um livro”?

SÉRGIO MATTOS – É incompleto e limitado.

 

 

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