FIO CONDUTOR (Resenha)
Comentário de GERMANO MACHADO*
A poesia de Sérgio Mattos vem da juventude, possivelmente da infância, porque, moço, com outros, fez Experimental, nos anos 60, no Palácio da Sé, quando eu também, dirigindo o jornal diocesano A Semana, os apoei. Foi A Semana, conjugando juventude com adultez, imberbes com já amadurecidos e velhos, dentro da rígida padronização hierárquica religiosa, um ambiente para Sérgio Mattos e seus companheiros de Experimental, Poesia Experimental. De então para hoje, Sérgio tem tido uma vida aventurosa, nem sempre venturosa, crescendo do Brasil, da Bahia, vindo do Ceará, para os Estados Unidos, em ascensão para o jornalismo e a comunicação, agora também com a educação. De A Semana para a Tribuna da Bahia, para o IRDEB, para a América, para uma atuação polimorfa inegável
em A Tarde, doutorado em comunicação em o mundo estadunidense e jogando-se em publicações poéticas e comunicadoras. Sempre na evolvibilidade, mesmo no presente momento em que, para não ser um dependente de nada e de ninguém, como que está refazendo e re-ampliando a existência e a vivência. Que fique assim – sempre experimental na evolução (evolver) para não se esgotar, nem mediocrizar. É o que lhe deseja um velho de oitenta anos, seu amigo e admirador, também um aventuroso e nem sempre (ai de nós!) venturoso. Sérgio Mattos já tem nome nacional e vínculos internacionais, milita (é o termo realista) em uma revista como a Néon e coordena os cursos de Jornalismo e Relações Públicas das Faculdades Integradas Ipitangas (UNIBAHIA). É doutor (PhD) em Comunicação nos EUA e pertence (eu igualmente) à Academia de Letras e Artes do Salvador – ALAS -, da qual foi o primeiro Presidente. Não é muito ruista, mas também não irá de ser muito alencarino (cearense que é de nascimento).
A introdução é longa, mas necessária, ao seu novo e último (em publicação, não em evolução) FIO CONDUTOR. O poema Fio Condutor (p.31), embora de 2001 e lhe tenha sugerido (com razão literária técnica) o título do livro, é completo e despido de facilidades totalmente, e merece, por isso, transcrição:
“Entre versos o sussurro dos fatos
São fendas de lucidez.
O poema absoluto pode ser inalcançável,
Mas todo poeta almeja transmitir
Da vida a textura, não a experiência do sofredor.
Na cacofonia intelectual quero ser o fio condutor
Da poesia, transmitindo a textura da vida”
Eis um “poema absoluto”, que supera o de rima, mesmo tecnicamente observado. E há um poema Solidão Literária (de 2004) p. 34, que Sérgio há de absorver constantemente, sempre a lhe estar na ponta do lápis e do cérebro e que, por força de necessidade, transcrevo também:
“Não sigo escolas,
Nem integro grupos.
Abro novos caminhos
E procuro comunicar,
Dar meus recados,
Simples e puro.
Escrever é vital:
- Meus sentimentos indicam
O que é fundamental”.
Eis o que você, Sérgio, há de de inculcar-se – sempre. O Mago, de 1998 (p.35) é exemplo disso, também.
Bem racional e lógico, mas que não é intuitivo, sentido e cordial é o poema de 2002 – Onze de Setembro (p.47), falta-lhe ideologização, o que é importante não ter, mas sem tocar no espinho ferindo a carne do espírito…
Você sabe, meu querido Sérgio Mattos, que você lembra, em vários poemas, Mário Quintana, fazendo centenário este ano? Pois é e vale! Não é coincidência. Alguns, poucos, é verdade, não gostei, o leitor tem o direito de opinião! Em Artista (p. 49). Não transcrevo, por exemplo. Inocência, de 1999, p. 53, é tão adequado que me lembra (olhe, o que digo), um trabalho de Elisabeth Bishop (traduza para o inglês). Não o copio a fim de não cansar. Pense no que afirmo.
Missa Dominical, de 2001, p.56, para mim é completo. Bom Senso (p.57), ainda. Você não cai nunca no pieguismo e os louvores, aqui e ali, a Salvador, por exemplo, não se exageram…
Enfim, como ledor, é que traço estas linhas e verifico que FIO CONDUTOR contém poemas de vários anos, o que demonstra que o autor quis mostrar o passo, em vários modos, da condução do seu poema. Sérgio Mattos vale porque é poeta e porque luta, enfrenta as tempestades, varonilmente. E basta.
Faço questão que ele se mantenha assim: lutador, porque poeta e poeta, porque lutador. Tão platônico quanto aristotélico, mas platonicamente colocando acima do realismo, o ideal, e tão realista que é idealista…
Jogo de palavras? Não. É que o seu fio condutor será sempre uma condição de luta por ideais. É um ENCANTAMENTO, p. 43:
“A poesia é nata
Inspira, transpira
E surge do nada”…
*GERMANO MACHADO, professor aposentado da UFBA e UCSal. Fundador do CEPA. Autor de A Longo Prazo, Sintetismo, Folosofia da Síntese, Tempo Decorrido (3ª edição), Da Física da Matéria à Metafísica do Espírito; jornalista, ensaísta, das Academias Baiana de Educação, Mater Salvatoris, Alas. Funcionário aposentado da Assembléia Legislativa da Bahia.