Monday, July 4, 2005

CENSURA NA IMPRENSA BAIANA - Entrevista

 

CENSURA NA IMPRENSA BAIANA

 

 

Entrevista concedida a Isabela Nery  

(Em 30 de Abril de 2005, para Trabalho de Conclusão de Curso em Jornalismo na FTC -Salvador).




  1. O senhor poderia dizer alguns dados de sua carreira: nome completo, idade, naturalidade, formação e vinculação partidária (na época)?

Sérgio Mattos -  Nome completo: Sérgio Augusto Soares Mattos, 56 anos, natural de Fortaleza, Ceará, e baiano por opção e por papel passado (tenho o Titulo de Cidadão Baiano concedido pela Assembléia Legislativa do Estado da Bahia. Minha graduação é em Jornalismo (1971), pela Universidade Federal da Bahia, Mestre em Comunicação (1980), pela Universidade do Texas, em Austin, Estados Unidos, e Doutor em Comunicação(1982), também pela Universidade do Texas, Austin, Estados Unidos.
Nunca me inscrevi em nenhum partido político, mas sempre defendi idéias liberais e democráticas.


  1. Em quais jornais o senhor trabalhou e em que período?

Sérgio Mattos – Comecei minhas atividades como jornalista com a idade de 16 anos no jornal A Semana – um jornal semanário da Arquidiocese do Salvador. Foi lá onde fiz e publiquei a minha primeira reportagem especial e que teve boa repercussão: uma entrevista com D. Helder Câmera, então arcebispo de Olinda, Pernambuco. O então chefe da Policia Federal na Bahia, Coronel Luis Arthur, tentou apreender a edição, mas após ameaça do então Administrador Apostólico da Arquidiocese, D. Eugênio Sales de que mandaria ler os textos nas igrejas, o semanário foi liberado e vendido normalmente nas portas das Igrejas. Trabalhei, com, carteira assinada como jornalista profissional nos jornais locais Tribuna da Bahia e A Tarde, além de ter prestado serviços free-lancer para  jornais e revistas do sul tais como Correio da Manhã, Jornal do Brasil, O Globo, Manchete e Veja.




  1. O que fazia durante a Ditadura Militar?

Sérgio Mattos – Quando o golpe de 1964 foi instalado eu estava concluindo o ginásio, no Colégio São Bento. Participava da JEC – Juventude Estudantil Católica, tendo dirigido o grupo de base do Colégio Estadual da Bahia – Central, muito visado pelas autoridades policiais e militares, onde fiz o colegial (2º grau nos anos de 1965, 1966 e 1967) e participei dos movimentos estudantis da época. É sabido que D. Eugênio Sales encerrou as atividades da JEC em Salvador devido ao meu grupo, no Colégio Central da Bahia, que foi acusado de se envolver mais em política estudantil do que nas atividades de ação católica. O resultado foi que várias pessoas, antes membros da Ação Católica (JEC, JOC e JUC) passaram a exercer efetivamente atividades e militância políticas, principalmente,  por meio do grupo denominado  “AP – Ação Popular”. Em 1968 ingressei na UFBA,  onde obtive o diploma de Bacharel em Jornalismo no ano de 1971. Enquanto fazia faculdade integrei em 1968 e 1969 a redação da revista Liderança e o Grupo da Escolinha TB (da Tribuna da Bahia) que estava preparando os repórteres que iriam integrar a turma de fundadores no jornal que começou a circular no dia 21 de outubro de 1969, a partir de quando passei a ter carteira assinada como jornalista profissional, antes mesmo de concluir o curso. Na  Tribuna da Bahia fui repórter da geral, repórter de setor, repórter político, repórter especial e Chefe de Reportagem. Saí da TB a convite de A Tarde, onde a partir de fevereiro de 1971 exerci funções de editor até fevereiro de 2003, período este interrompido apenas para a obtenção dos títulos de pós-graduação nos Estados Unidos. No período em que trabalhei no A Tarde  criei e editei produtos pioneiros e inovadores na história da imprensa baiana tais como: O Jornal de Utilidades, A Tarde Municípios e A Tarde Rural. Vale lembrar que no período de 1973 a 1997 exerci também as funções de professor da FACOM/UFBA.

 

  1. O jornal onde trabalhava sofreu censura prévia? De que forma?

Sérgio Mattos – Sim. Todos os jornais, inclusive estes, nos quais trabalhei, eram censurados e recebiam constantemente os avisos dos assuntos, temas e pessoas sobre os quais  não poderíamos publicar nem comentar absolutamente nada. Isto ocorreu no período de 1964 a 1979, quando o presidente Ernesto Geisel extinguiu, no mês de março, o Ato Institucional nº 5. As formas de censura utilizadas eram comunicados por escrito de maneira lacônica que eram entregues por agentes federais nas redações dos jornais. Os papéis, geralmente em formato de uma folha de oficio cortada pela metade traziam secamente a ordem: “Por ordem expressa do ministro da justiça…tal assunto está proibido de ser veiculado na imprensa escrita ou falada”; “Por ordem do Chefe da Policia Federal …( tal assunto) está proibido”. Muitas vezes, as proibições também eram feitas via telefone e a pessoa que o recebia, como também quem recebia o papelucho, ficava responsável perante as autoridades policiais pelo cumprimento da “ordem proibitiva” independente do grau de responsabilidade hierárquica que tivesse dentro da redação. Quem recebia o comunicado tinha que avisar a todo mundo principalmente aos chefes imediatos, editores e redator chefe.  Exemplos destas proibições você pode localizar no livro “O Controle dos Meios de Comunicação”, de minha autoria, que está disponível no meu sítio pessoal (www.sergiomattos.com.br). 

 

  1. Existia a presença do censor na redação onde o senhor trabalhava?

Sérgio Mattos - Nem na Tribuna da Bahia nem em A Tarde tinha censura prévia, com censor instalado na redação, pelo menos no período em que trabalhei nestes nos dois jornais. Tenho conhecimento de censura prévia, com a presença de censor em A Tarde durante a ditadura de Getulio Vargas, mas esta é uma outra história. Durante o período em que trabalhei neste dois jornais, se houve presença de “censor/vigia” infiltrado para fazer denúncia contra jornalistas, eu não soube nem nunca ouvi falar nada a respeito. Mas, nos jornais e revistas do sul do país, submetidos à censura prévia, dentro das redações se podia encontrar mais de um censor.

 

  1. Como o jornal reagia às decisões dos censores? Como o jornal ocupava os espaços deixados em branco, após os cortes dos censores?

Sérgio Mattos – Aqui não tivemos censura interna nas redações e como sabíamos antecipadamente quais os assuntos proibidos tratávamos de publicar outras matérias ou de tentar dizer para o público leitor o assunto proibido de outras formas.O caso mais sensacional que existe de preenchimento de espaços censurados ocorreu no Estado de S. Paulo, onde os textos censurados eram substituídos por poemas de Camões, por receitas de bolo ou instruções de como cultivar rosas. Esta história também você encontra com vários exemplos no livro “O Controle dos Meios de Comunicação”.


  1. Qual o comportamento dos colegas da imprensa?

Sérgio Mattos – Todos os jornalistas sempre foram contra a censura e devemos continuar defendendo o direito de informação e de liberdade de expressão acima de tudo. Os jornalistas baianos reagiam à censura da mesma forma, com indignação, que outros colegas do norte ou do sul também reagiam. E não podia nem pode ser de outra forma. Durante os 21 anos do Golpe de 1964 vários jornalistas foram presos, espancados e impedidos de exercer a profissão.

 

  1. Qual a linha editorial dos jornais baianos da época? O senhor pode me citar o nome dos jornais que atuavam em Salvador na época?

Sérgio Mattos – No período da revolução de 64 os jornais que circulavam em Salvador eram: A Tarde, Tribuna da Bahia, Jornal da Bahia, Diário de Notícias, Estado da Bahia, A Semana e o Jornal IC.  Todos os jornais tinham ou apresentavam uma linha editorial de jornal informativo e independente.

 

9. Existe um arquivo das matérias censuradas no jornal em que o senhor
       trabalhou?
Sérgio Mattos
– Paolo Marconi, um colega de turma da Faculdade e colega também na Tribuna da Bahia escreveu um livro, intitulado “Censura –1968-1978″, que virou um clássico. Ele colecionou vários papéis, ordens de censura. Não posso afirmar se ele ainda os conserva, mas atualmente ele é conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios, que fica no Centro Administrativo da Bahia, e talvez você possa  falar com ele e tirar esta dúvida ou quem sabe até ver e sentir com as próprias mãos, se ele ainda conservar os papeluchos da censura. Vale a pena tentar… Pelo que sei apenas de Paolo colecionou estes papeizinhos de censura. Desconheço que algum outro jornal ou profissional baiano tenha guardado estas proibições. Procure saber da ABI – Associação Baiana de Imprensa,  para ver se no museu da imprensa, que fica lá, existem alguns arquivados.

 

10.  O senhor conhece algum censor, para eu entrevistar?

Sérgio Mattos – Não, Não conheço. Mas você pode procurar na Policia Federal e saber o nome de algum que tenha exercido esta função aqui na Bahia.

 

  1. Na opinião do senhor, qual foi o período mais duro, dentro dos anos do governo militar? Qual o período em que a imprensa sofreu mais com a censura?

Sérgio Mattos – O período do governo Médici, de 1969 a 1974. Este foi o período no qual o regime militar mais fez propaganda e usou os veículos de comunicação para manter o status quo. O governo Médici coincide também com o período no qual a censura se fez mais presente e atuante e a repressão foi uma das mais duras, com a prisão de vários intelectuais, professores, políticos e jornalistas. Foi o período da guerrilha urbana e quando a censura se fez exercer, não apenas com bilhetes e telefonemas, mas com ameaças, torturas e prisões.

 

12. Quero saber se, apesar dos jornalistas estarem contra a censura, existia o
       medo de ser preso, se o clima na redação era tenso por causa disso?

Sérgio Mattos - O medo é uma característica individual, não dá para dizer se havia o medo de ser preso, ou não, em cada indivíduo que naquela época atuava como jornalista, salvo se cada um deles venha a revelar. É certo, porém, afirmar que muitos eram mais afoitos e outros mais covardes e, apenas nestes, os covardes sim, podíamos constatar o medo das conseqüências. Mas, observe por outro ângulo: se considerarmos que no pior período de censura (1978-1978) houve muita autocensura, tanto por parte dos veículos como por parte dos profissionais, poderíamos dizer que houve, de certa maneira, muito medo das conseqüências, pois quem não as teme ou temia, é ou era destemido e enfrentava a realidade como ocorreu com vários jornais, apreendidos, empastelados e perseguidos, além de sofrerem também cortes de possíveis anúncios oficiais ou de empresas dependentes do governo. Por parte dos jornalistas diria também que ocorreu o mesmo. Muitos se auto censuravam ou se omitiam cumprindo apenas as obrigações e tarefas mandadas a fazer pelos seus superiores, por medo das conseqüências que podiam se abater sobre eles mesmos e/ou sobre suas respectivas famílias. Não devemos, portanto, condenar estas atitudes de sobrevivência adotadas pelos seres humanos, pois, só quando nos encontramos em situações semelhantes é que temos a idéia exata da tensão sofrida por cada um. Na época,  tivemos também muitos que passaram a adotar uma atitude destemida e acabaram presos, torturados e desempregados. E teve aquele grupo que apesar de não se expor abertamente, atuava nos bastidores procurando e encontrando sempre brechas para denunciar os fatos que estavam sendo censurados e outros mais. E este trabalho de bastidor foi o exercido pela maioria dos jornalistas conscientes da realidade e do perigo que o regime representava para as liberdades individuais e em especial para a liberdade de imprensa. Na verdade existem vários heróis anônimos na história da imprensa brasileira e na história da imprensa da Bahia. A  história daqueles jornalistas que lutaram contra o regime sem aparecer, sem dar testa, quase como se estivessem fazendo uma guerrilha underground no sentido de prevenir a população de que o regime estava proibindo a divulgação de certas notícias; que  estava limitando as liberdades individuais e que representava uma grande ameaça para a liberdade de imprensa. Os veículos de comunicação eram muito visados e todos os jornalistas eram vigiados, pois representavam um perigo para o regime, até porque a imprensa sempre foi de vanguarda e os intelectuais da esquerda, principalmente, eram encontrados com facilidade nas redações dos jornais como profissionais ou colaboradores. Na época do regime quem trabalhava em jornal possuía uma pasta (dossiê) com seu nome na Polícia Federal, na 2ª Secção do Exército e outros órgãos de “inteligência” do poder constituído. Nestas pastas era colecionado tudo sobre cada profissional que estivesse no exercício do jornalismo. Tudo o que o jornalista escrevia ou o que diziam sobre ele, fossem fatos concretos ou apenas boatos, eram arquivados. E assim, os órgãos de informação do governo possuíam verdadeiros dossiês sobre cada jornalista em atividade.

 

 

 

Posted by smattos at 14:45:26 | Permalink | Comments (4)