UM OLHAR ATENTO SOBRE A TV
UM OLHAR ATENTO SOBRE A TV
Realizada pelo jornalista Leonardo Vilhena, o JORNAL DE OPINIÃO, de Belo Horizonte, publicou uma entrevista com Sérgio Mattos, autor de livros sobre a televisão brasileira, na qual ele condena a dramatização da notícia, o baixo nível dos programas de auditório, fala sobre a influência das novelas e da publicidade, as novas formas de censura, mas lembra que a televisão contribui para a preservação de nossa língua. Verifique as opiniões de Sérgio Mattos veiculadas no jornal mineiro:
Quais as principais influências e modismos da TV comportamento, moda, costumes regionais?
Sérgio Mattos - Nestes últimos 50 anos a televisão tem sido de certa forma exercido o papel de sinalizador para vários setores da sociedade. No que diz respeito ao comportamento, por exemplo, as gírias, a moda e o sotaque (principalmente o carioca) entre outros do sul do país, quando usados em novelas passam a ser copiadas em todo o país. No que diz respeito ao jornalismo propriamente dito, a influência da televisão tem sido danosa para a formação de novos jornalistas, pois todos querem, mesmo trabalhando na mídia impressa, ser como os principais repórteres da TV Globo, por exemplo, que são extremamente opinativos, além de passarem um quê de atores, dramatizando a noticia que estão transmitindo. Devido ao fato dos telejornais serem praticamente a única fonte de informação da maioria da população a televisão acaba sendo também responsável pela má informação da população, pois seria impossível para eles em 20 ou 30 minutos colocarem todas as informações necessárias no ar com os seus respectivos e diferentes ângulos. O noticiário de TV é, portanto, muito parcial e incompleto e mesmo assim tem influenciado alguns jornais tanto na linguagem jornalística quanto na forma de apresentar os conteúdos. No que se refere aos costumes regionais eu diria que a televisão acaba deturpando estas tradições a partir do momento em que os apresenta de forma estereotipada ou caricaturada, como por exemplo o linguajar baiano, a preguiça baiana, o dinamismo do paulista, o carioquês, etc. Em síntese, falta à televisão um trabalho mais sério no que diz respeito não só às produções regionais como também no enfoque das temáticas regionais que hoje só são utilizadas como pano de fundo para seus produtos, leia-se telenovelas.
Qual a importância do telejornalismo praticado no Brasil?
Sergio Mattos Apesar da superficialidade com que as noticias são tratadas e devido à sua quase instantaneidade(noticias transmitidas quase que em tempo real), os telejornais ainda servem de pauta para os jornais impressos. Nenhuma noticia dada, por exemplo no Jornal Nacional da Globo, ficará sem espaço nos jornais impressos do dia seguinte onde os telespectadores poderão encontrar maiores detalhes sobre a chamada ou o lead transmitido na noite anterior. Na verdade o telejornalismo e o jornalismo impresso interagem de uma maneira sui generis, isto porque se pensava que um(TV) iria competir com o outro(jornal impresso) com a perspectiva de eliminá-lo totalmente, o que não aconteceu nem irá acontecer no futuro, mesmo com a concorrência do jornalismo on line(Internet). A interação entre telejornalismo e jornalismo impresso acontece durante todo o tempo: Raro é o noticiário matutino das emissoras que não são iniciados com a leitura das manchetes dos jornais do dia e os noticiários do fim da noite, em geral, são encerrados lendo as principais manchetes dos jornais do dia seguinte. Mas, voltemos à importância do telejornalismo: Quando os telejornais passaram a ser nacionais(o Jornal Nacional da Globo foi transmitido pela primeira vez no dia 1º de setembro de 1969) a sua grande contribuição foi ligar o país de norte a sul, contribuindo para uma unidade, aliás a televisão como um todo no país contribui para preservar e manter a unidade da língua portuguesa num país de dimensões continentais.
Como o telejornalismo interfere na vida das pessoas?
Sergio Mattos Inúmeros pesquisadores vêm tentando definir os conceitos e técnicas de elaboração e apresentação das notícias e reportagens na televisão. Vários estudiosos tentam detectar o processo pelo qual a realidade é construída nos noticiários das televisões, analisando a ideologia dos noticiários de maior audiência do país, tentando identificar a influência deste tipo de programa sobre a população, verificando o processo de conscientização dos grupos comunitários e observando também a influência da ideologia dominante sobre os mesmos. No que diz respeito à construção da realidade pelo telespectador pode-se afirmar que a televisão é apenas mais um componente na formação da representação da realidade, pois o conteúdo das informações recebidas já chega ao consumidor filtradas e somam-se às informações de outras fontes as mais variadas possíveis. Muitos são os estudos de casos isolados, mas não temos ainda um estudo perfeito que diga exatamente o tipo de influência que possa ser generalizado. Entretanto, a partir do interesse que o telejornalismo desperta nos estudiosos podemos concluir que a importância deste programa é muito grande para a população que o tem como única fonte de referência da realidade. Observe-se que existem alguns trabalhos que chegam ao detalhe de descrever o sistema mercantilista de nossas emissoras a partir da produção dos nossos telejornais. Para encerrar este assunto, devo dizer que como jornalista , sou contra a dramatização da notícia.
Como você vê os Programas de auditório produzidos por nossa Televisão brasileira?
Sergio Mattos Os programas de auditório produzidos no Brasil visam atingir as camadas menos favorecidas da população. Os programas de auditório em geral sempre foram de baixo nível. A partir da década de 90 as nossas emissoras voltaram a lançar mão de programações destinadas às classes C e D devido a uma acirrada briga por audiência, principalmente pelo fato de que nesta década houve uma relativa estabilização econômica, contribuindo para o surgimento de um contigente de aproximadamente 24 milhões de novos telespectadores que representam cerca de 20% do antigo total da audiência. Para se Ter uma idéia mais ampla da situação, basta lembrar que durante o Plano Real de FHC, por exemplo, foram vendidos no Brasil cerca de 28 milhões de aparelhos, calculando-se que cerca de seis milhões foram comprados por famílias que estavam adquirindo o primeiro televisor, todas elas integrantes das camadas mais baixas da população. Estes novos telespectadores é que são o motivo das disputas de audiência com programas de baixo nível a exemplo dos exibidos: O Ratinho e o Leão que exploram (ou exploravam, devido as recentes portarias da Justiça) aberrações, sem deixarmos de lado os programas do Domingão do Faustão e o de Gugu que também andaram apelando em busca do crescimento dos índices de audiência.
Em síntese, sou contra a vulgaridade exibida nos programas de auditório e acredito que para atrair a audiência as emissoras não necessitam de tanta apelação. Podemos dizer também que a apelação mostrada hoje na televisão visando atrair audiência se deve também ao advento da televisão paga, via cabo ou via satélite, que tem roubado uma fatia significativa de audiência das televisões abertas.
Qual é a sua opinião sobre a programação infantil de nossa televisão ?
Sergio Mattos Os programas infantis também não estão a salvo desta apelação pela audiência. Nos programas infantis existe o exagero da erotização, mostrada não apenas nas roupas colantes e na forma de dançar sensual das apresentadoras e acompanhantes dos programas tipo Xou da Xuxa e suas pupilas A erotização também está presente nos programas de Angélica, Carla Perez, Tiazinha etc. O nosso melhor programa infantil, em todos os níveis, premiado e reconhecido no mundo todo, foi O Sitio do Pica-Pau Amarelo. Por que o tiraram do ar? Atualmente só quem tem produzido alguma coisa com qualidade educativa nesta área é a TV Cultura (Ratimbum). Na verdade, as emissoras deveriam evitar expor nossas crianças a situações de constrangimento físico, psicológico, humilhações e a situações vexatórias.
Como o senhor vê o espaço de honra ocupado pela Teledramaturgia na TV, a tecnologia das novelas e sua conseqüente exportação?
Sergio Mattos As telenovelas produzidas no Brasil vêm sendo objeto de estudos desde a Segunda metade da década de 60. Estudos os mais variados têm abordado a telenovela como produto típico da cultura de massa. O estereótipo, as questões semânticas e o papel de transformação social ou de introdução de novos hábitos através das telenovelas têm sido, entre outros, alguns dos principais aspectos que são estudados em nossa telenovela. Segundo Samira Campedelli, que estuda as telenovelas a fundo, existem vários tipos de telenovelas: aquelas que são melodramáticas, as exóticas, as alternativas, a do tipo chanchada e a novela-verdade. A teledramaturgia sempre esteve presente na nossa televisão (fundada em 18 de setembro de 1950) desde os primeiro momentos, em 1951, mais precisamente no dia 21 de dezembro começou a transmissão da primeira telenovela brasileira: Sua Vida Me Pertence, que exibia dois capítulos por semana. Entretanto, a primeira telenovela, em capítulos diários, só foi ao ar no ano de 1963 e tinha o seguinte título: 25-499 Ocupado, produzida pela TV Excelsior. A TV Excelsior também foi a responsável pela produção e transmissão da mais longa telenovela brasileira até agora: Redenção que ficou no ar de do dia 16 de maio de 1966 a 2 de maio de 1968, apresentando um total de 596 capítulos. A partir daí a televisão brasileira se especializou na produção de telenovelas e na década de 70 passaram a exportá-las. A primeira delas a fazer sucesso no exterior foi a novela O Bem Amado, que era vendida já dublada para o espanhol. Outra novela que é o maior sucesso de venda da Globo em todos os tempos é Escrava Isaura. Hoje só a Rede Globo exporta seus programas (principalmente telenovelas) para cerca de 130 países e para gerenciar isto a emissora criou um departamento internacional. Tecnologicamente pode-se dizer que as emissoras brasileiras, principalmente a Globo, investiram muito na produção de telenovelas além de terem ousado também, pois hoje as novelas brasileiras são consideradas como as mais bem produzidas e atraem as atenções de todos, tanto telespectadores, anunciantes como emissoras de televisão de todo o mundo interessados neste gênero. A Globo se especializou como produtora e exportadora de programas, não apenas de telenovelas, pois mais recentemente, baseando-se na tendência global, ela passou a desenvolver outros produtos mais interativos, a exemplo do Você Decide, passando a exportar não apenas o programa com perspectivas variadas de adaptações para mais de 10 (dez) países como também passou a exportar apenas o formato do programa, e não o produto acabado. O sucesso dos nossos programas tanto no mercado interno como no externo levou tanto a Globo como o SBT a investir em produções e para tanto criaram respectivamente em 1995 e 1996 o Projac, o maior Centro de Produção da América Latina, em Jacarepaguá no Rio de Janeiro, e o Complexo Anhangüera, a cidade cenográfica do SBT, em São Paulo .
Qual é a influência da Publicidade na televisão brasileira?
Sergio Mattos A televisão é o maior veículo publicitário do Brasil, ficando com 60% do bolo publicitário do país, que gira em torno de 1%(um porcento) do nosso PIB. Desde o seu inicio a televisão se caracterizou como um veículo publicitário por excelência. Como nos primeiros anos a TV não atingia ainda um grande público, também não conseguia atrair grandes anunciantes, mas as agências de publicidade estrangeiras instaladas no país e que possuíam experiência com TV, logo passaram a utilizá-la como veículo publicitário passando a decidir também sobre o conteúdo de seus programas. Nos primeiros anos os patrocinadores determinavam os programas que deveriam ser produzidos e veiculados, além de contratar diretamente os artistas e produtores. O patrocinador decidia sobre tudo. Exatamente por isso, durante as primeiras duas décadas de nossa televisão os programas eram identificados pelos nomes dos patrocinadores: Repórter Esso, Telejornal Pirelli, Telenotícias Panair, Reportagem Ducal, Teatrinho Trol, Gincana Kibon, Sabatina Maizena etc. Em 1969, 16 das 24 novelas produzidas e veiculadas no Brasil tinham o patrocínio de empresas multinacionais: Gessy-Lever, Colgate-Palmolive, Kolynos-Van-Ess. Hoje em dia a influência da publicidade é mais indireta, mas continua presente uma vez que a TV é dependente de anúncios e o anunciante, se o programa não tiver audiência suficiente, pode determinar o seu fim pelo simples fato de cancelar os anúncios que garantem a veiculação daquele programa em um determinado horário especifico. Com a queda da audiência os anúncios fogem, deixando de ser programados e o programa acaba sendo retirado do ar mesmo que tenha alta qualidade educativa.
Qual é sua visão sobre a censura nos veículos de comunicação?
Sergio Mattos A censura a qualquer meio de comunicação de massa é uma violência à liberdade que o cidadão tem, de procurar, receber e publicar informações, garantida pelo Art. 19 da Declaração dos Direitos do Homem e também pela nossa Constituição de 1988. Apesar disto, é preocupante o ressurgimento da censura no Brasil. Estou me referindo não à censura formal e policial praticada aqui no Brasil durante os governos de exceção, abolida totalmente pela Constituição, mas a uma nova forma de censura, de aspecto hipócrita, que sem contar com a repressão policial, envolve todos os tipos de pressões e constrangimentos possíveis. Na busca de obter sucesso na vida social normal, os artistas, escritores e jornalistas, por exemplo, sob as mais variadas formas de pressão, podem ser levados a praticar a autocensura a fim de atender às regras ditadas pelas normas políticas, econômicas e sociais do momento, seja num país de regime democrático ou totalitário.
O senhor fala em formas disfarçadas de censura. Como elas acontecem?
Sergio Mattos Elas podem ser exercidas isoladamente por qualquer cidadão, contra o direito de outros. É perigosa, pois pode alastrar-se, levando associações, grupos político-ideológicos, religiosos, sociais ou outros tipos de instituições constituídas a decidir sobre o conteúdo dos trabalhos artísticos, científicos, jornalísticos e literários que são apropriados para seus associados, telespectadores, ouvintes, leitores ou seguidores, condenando o restante ao ostracismo. O desenvolvimento tecnológico e o fortalecimento das estruturas burocráticas governamentais poderão contribuir para o surgimento de novos métodos de controle dos meios de comunicações de massa. Métodos muito mais eficazes, pois a tendência , que se pode observar, é que a censura está se tornando cada vez mais sutil e complexa, desde que Herbert Marcuse desenvolveu a tese que ele denominou de tolerância repressiva. Assim, qualquer idéia perturbadora pode ser simplesmente ignorada ou, quando tolerada, ela é sobrelevada e obscurecida, gerando com a permissividade uma espécie de censura ao contrário. Assim sendo, a indiferença também é uma forma de censura muito eficaz e esta muitas vezes é praticada também pelos jornalistas e veículos que ignoram certos fatos, pessoas, artistas, políticos, compositores, autores, etc., simplesmente por não gostarem destas pessoas especificamente seja lá qual for o motivo.
(Entrevista publicada no Jornal de Opinião, de Belo Horizonte, de 04-10 de dezembro de 2000, pp.4 e 5).