PRODUÇÃO DE LIVROS - ENTREVISTA
A PUBLICAÇÃO DE LIVROS ENTREVISTA
A PRODUÇÃO DOS REGISTROS DO CONHECIMENTO
Trecho de uma entrevista concedida por Sérgio Mattos à profa. Nancy, então responsável pela disciplina Produção dos Registros do Conhecimento (Editoração), da Escola de Biblioteconomia e Documentação da UFBA.
PROFA. NANCY Por que o povo perdeu o contato com os livros? O que fazer para que a população brasileira volte a se informar por meio da leitura de livros?
SÉRGIO MATTOS Não acredito que o povo tenha perdido o contato com os livros. Isto não é verdadeiro. O que se pode dizer é que a população com baixo poder aquisitivo está comprando menos livros, mas não deixou de ter contato com os mesmos, haja vista a freqüência nas bibliotecas e a quantidade de novos títulos que são lançados anualmente no Brasil, O que se precisa fazer para que a população tenha mais acesso ao livro é barateá-lo e isto só será possível com a adoção de livros nas escolas, aumento das edições e programas oficiais de estimulo à leitura. Devemos também impedir a indústria de xerox, que, direta e indiretamente, contribui para o aumento do preço final dos livros, além de lesar os direitos autorais. Quanto à segunda parte da questão, devemos usar os veículos de comunicação de massa (jornais, revistas, radio e TV) para informar a população sobre os lançamentos de livros, indicando os melhores títulos e fornecendo orientações.
PROFA. NANCY Do ponto de vista social, qual o objetivo do autor ao publicar um livro, além de dar informação à sociedade?
SÉRGIO MATTOS Existem tipos de livros diferentes: o de história/informação/analise etc que se enquadra no tipo de livro de não-ficção. E os livros considerados de ficção tais como romances, contos, poemas, etc. Todos são o resultado de um trabalho elaborado por um autor. Do ponto de vista social as contribuições dadas pela publicação de um livro são muitas talvez até impossíveis de serem enumerada aqui, mas podemos destacar as contribuições dos livros de não-ficção, através dos quais se pode transmitir informações, novos conhecimentos e resgatar e registrar a memória sócio-cultural-econômica de um país, por exemplo. As obras de ficção (romance, contos, poesias) ou de criação são trabalhos elaborados a partir da sensibilidade do autor que, baseando-se em casos verídicos ou não, ou apenas fruto de sua imaginação, retratam uma época ou situações diversas, tais como dramas de ordem psicológica. Dizem que para se ter uma idéia do cotidiano de uma época, devemos ler principalmente os poetas e cronistas, pois estes sabem retratar o dia-a-dia como ninguém, dando vida e cor a detalhes que ninguém leva em consideração. O objetivo do autor ao publicar um livro é de ver o resultado concreto de seu trabalho ser multiplicado e à disposição de centenas de pessoas. A publicação de um trabalho é a contribuição que o autor dá à sociedade. A partir do momento em que um autor publica sua obra, seja ou não de ficção, ela passa a pertencer à sociedade.
PROFA. NANCY Do ponto de vista pessoal, qual o objetivo do autor ao publicar um livro?
SÉRGIO MATTOS Parte da pergunta foi respondida na questão anterior. Além, dos objetivos enumerados acima, poderíamos dizer que os objetivos de ordem pessoal são tantos e tão diversos, variando de pessoa a pessoa que seria impossível citá-los concretamente… Mas se considerarmos um autor consciente de seu papel, podemos dizer que o principal objetivo do autor, do ponto de vista pessoal, ao publicar um livro, é o de dar a sua contribuição naquele setor para o qual está publicando. Por exemplo, um professor de uma disciplina que escreve um livro de comunicação, tem o objetivo de dar uma contribuição significativa àquele ramo do conhecimento, através da sistematização do conhecimento que ele próprio acumulou. A través do livro o professor está também contribuindo para a multiplicação da informação, partilhando o conhecimento acumulado com seus alunos. Isto sem falarmos da satisfação pessoal. Quem publica um livro e pode constatar que ele está sendo comprado, lido, consultado e usado como fonte de informação ou de lazer, sente-se satisfeito, pleno e por que não dizer, um tanto orgulhoso. Não é à toa que se considera que cada livro escrito é um filho do autor…
PROFA. NANCY A sua obra se destina a um público específico?
SÉRGIO MATTOS Ao longo dos anos tenho publicado muitos livros. Livros de poemas, de crônicas e sobre a área de comunicação: jornalismo, televisão. Os livros ditos de criação são destinados a todas as pessoas, independente de sexo, classe social, credo ou cor. Os livros de pesquisa histórica e de analise dos meios de comunicação são mais específicos e se destinam aos profissionais que atuam na área de comunicação, aos estudantes de comunicação e ou pessoas interessadas/curiosas por maiores informações sobre um veículo de comunicação específico.
PROFA. NAMCY A publicação de um livro resulta na melhoria do padrão econômico de um escritor?
SÉRGIO MATTOS Não. Isto porque são poucos os escritores brasileiros que vivem especificamente de sua produção literária. Você conta nos dedos das mãos os autores que vivem especificamente dos livros que produzem. Se fosse o inverso, ou seja, se todo autor pudesse sobreviver dos livros que produz teríamos uma produção muito maior. Imagine o tempo que um autor gasta como professor, como jornalista ou exercendo outra atividade qualquer para sobreviver. Se autor não tivesse que gastar tanto tempo trabalhando pela sobrevivência, poderia destinar mais tempo às suas criações literárias e à produção de noivos livros. Se um autor vivesse do que escreve, poderia ter uma produção maior e de melhor qualidade.
PROFA. NANCY Qual o problema que os autores enfrentam no que tange à estrutura das editoras?
SÉRGIO MATTOS Não entendi bem a pergunta. O que tem a estrutura da editora com problemas do autor? O que existe hoje no país é que temos poucas editoras e muitos autores. O problema que o autor encontra é o de ter a sorte de ver sua obra selecionada por uma editora para efeito de publicação. E isto significa peregrinação do autor, levando os originais embaixo do braço, por uma série de editoras que às vezes despacham os originais sem nem ao menos abrir o envelope e conferir o conteúdo. Hoje, no Brasil, para se ter uma obra publicada por uma editora conhecida é muito difícil e o autor, além de já ter nome, sempre precisa da ajuda de alguém influente para apresentá-lo ou forçar a barra, garantindo que o conteúdo tem valor e merece ser publicado. Fora isto, resta ao autor procurar editoras que fazem o trabalho de editoração, mas que cobram por isto, ficando os custos da edição por conta do autor. É por isso que a maioria dos autores inicia a carreira custeando a produção dos próprios livros.
PROFA. NANCY Na publicação de um livro o escritor conta com o apoio de órgãos públicos ou com o apoio da iniciativa privada?
SÉRGIO MATTOS Dependendo do autor e da obra ele pode contar com este apoio. Tudo depende da influência que o autor tenha ou da importância que sua obra tem para atrair o interesse de órgãos públicos ou privados. Se no país existisse uma política editorial, tanto em nível federal-estadual-municipal, nós teríamos uma quantidade maior de livros de qualidade. Como não temos uma política editorial definida, apesar de termos muitas publicações, apenas uns poucos são beneficiados.
PROFA. NANCY Quais as dificuldades do autor ao publicar sua obra?
SÉRGIO MATTOS Além de tudo o que já relacionamos acima, podemos dizer que uma das maiores dificuldades que um autor encontra é a distribuição de sua obra e o processo de venda realizado pelas livrarias que continuam usando pessoas não qualificadas, capacitadas para atuar neste setor. As distribuidoras sangram as editoras e os autores, pois estas ficam com a maior parte da fatia. Cabe ao distribuidor 50% do preço de capa da cada do livro. As livrarias ficam em média com 20 ou 30% , e o restante 10 ou 20% para a editora e 10% , relativo aos direitos autorais, para o autor. Observe-se que o autor, geralmente, recebe sua parte já defasada e desatualizada porque a prestação de contas é sempre feita depois de muito tempo da data de venda do livro ou em cotas de livros. Isto é o panorama geral, mas existem naturalmente casos específicos, dependendo da obra ou do autor, quando o autor recebe sua parte até mesmo antes do livro chegar às livrarias. Neste caso estão incluídos autores de best-sellers ou quando o autor produz o livro sob encomenda, aí ele recebe antecipações…
PROFA. NANCY Em Salvador já existe uma estrutura editorial para se publicar livros?
SÉRGIO MATTOS Existe. Em Salvador nós já temos inúmeros autores, que continuam produzindo e publicando e muitos ainda são inéditos. Temos um parque gráfico de boa qualidade, temos inúmeras livrarias e postos de venda de livros. Além disto temos um mercado consumidor/leitor de boa envergadura. Só está faltando em Salvador a implantação de uma editora de porte nacional acompanhada de uma boa distribuidora para resolvermos o problema na área de editoração. Aliás, na década de 90, o Instituto Baiano do Livro investiu muito nesse sentido: o de criar e dotar a Bahia de toda a infraestrutura necessária para a implantação de uma grande editora na Bahia. Apesar de não termos ainda uma editora de porte, a Bahia tem produzido centenas de títulos por ano, com edições estimadas entre 1000 e 3000 exemplares que praticamente são esgotadas em nível regional, sem ultrapassar as nossas fronteiras. Isto dito parece não ser muito representativo, mas enganam-se os que pensam assim, uma vez que as editoras nacionais, que distribuem livros para todo o país também tiram edições que variam de 1000 a 3000 exemplares. Portanto, nossas edições regionais são grandes porque se destinam basicamente ao território baiano. A Bahia é e vai continuar sendo um centro cultural de expressão no país exatamente por esta singularidade que está presente em todos os campos da criação.
PROFA. NANCY Houve influências de alguém ou algo para iniciar sua carreira?
SÉRGIO MATTOS Claro. Todo e qualquer autor sofre influências, positiva ou negativa, no início da carreira. As minhas foram positivas e acredito que o fato de ser jornalista e de atuar na imprensa contribuiu e muito para abrir as portas no que se refere à publicação e divulgação da obra.
PROFA. NANCY Dentre as suas obras, qual a que você destacaria como aquela que mais o emocionou ao ser publicada?
SÉRGIO MATTOS O primeiro livro é sempre o primeiro…, mas o último é sempre considerado como o melhor, uma vez que dedicamos mais atenção e usamos a experiência acumulada. Entretanto, entre o primeiro e o último livro publicado existem vários tipos de emoções. Temos aquela emoção sentida pela boa receptividade por parte do público, aquela que sentimos quando a crítica especializada reconhece o valor da obra. Além destas, temos a satisfação de constatar que nosso trabalho começa a ser citado em vários cantos do país e do mundo e a sensação de começarmos a ver a obra publicada em outras línguas. Estes são apenas alguns exemplos de emoções. Diria que a maior emoção é sempre ver publicado o seu mais novo trabalho.
PROFA. NANCY Qual a sua opinião sobre o provérbio: O homem se realiza quando planta uma árvore, constitui uma família e escreve um livro?
SÉRGIO MATTOS É incompleto e limitado.