REPÓRTER MULTIMÍDIA (entrevista)
O REPÓRTER MULTIMÍDIA
Sérgio Mattos é mestre e doutor em comunicação pela Universidade do Texas, Austin, Estados Unidos. Diplomado em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia ensinou na Faculdade de Comunicação da UFBA tendo se aposentado como professor adjunto. Atualmente, exerce as funções de coordenador dos cursos de Jornalismo e Relações Públicas das Faculdades Integradas Ipitanga, mantidas pela UNIBAHIA, no município de Lauro de Freitas, na Bahia. Sérgio Mattos é também diretor e editor-chefe da revista NEON. Tem vários livros técnicos publicados, concentrando suas pesquisas nos veículos impressos e televisão. Outra área de interesse de suas pesquisas é a censura, sobre a qual já publicou dois livros: Censura de Guerra e O Controle dos Meios de Comunicação. Sérgio também é poeta (com sete livros individuais publicados) e compositor, com dezenas de músicas gravadas por vários interpretes, sendo que possui quatro CDs individuais. Ao todo Mattos possui 25 livros publicados. Esta entrevista eletrônica foi concedida a Vera Pinheiro, do Jornal ANJ, em maio de 2000.
1. Qual a sua definição para repórter multimídia?
SÉRGIO MATTOS - Quando se fala num profissional multimídia, a primeira imagem que se nos apresenta é aquela do profissional dos mil e um instrumentos, que dentro das redações exerce uma função de curinga. O homem dos sete instrumentos, o faz-tudo. Esta imagem é de certa forma, uma imagem pejorativa, pois o faz-tudo acaba sendo uma espécie de quebra-galho, nunca um profissional na acepção total da palavra. Entretanto, um jornalista multimídia deve ser aquele profissional que está preparado e que entende o funcionamento dos meios de comunicação em todos os seus aspectos: produção, difusão, comercialização e administração. Hoje é importante que o jornalista tenha uma visão real do mercado onde atua, além de conhecer a operacionalização de toda a parafernália tecnológica existente a fim de que possa satisfazer não apenas suas necessidades como comunicador, mas também atender os variados níveis de expectativas dos consumidores de produtos mídiáticos. O profissional multimídia é também aquele que tem uma noção perfeita das demais profissões da área da comunicação social, sabendo exatamente como atuam e pensam, dentro da lógica de mercado de cada um.
2. Quais são as qualificações que esse profissional deve ter?
SÉRGIO MATTOS Os cursos de comunicação hoje em dia têm procurado abrir o leque das opções das disciplinas oferecidas, buscando ampliar a interdisciplinaridade e integração com outros cursos, visando abrir ainda mais a visão de mundo do futuro jornalista, que precisa ser um profissional aberto, sem qualquer tipo de preconceito e voltado cada vez mais para adaptar as novas tecnologias e tirar proveito delas em benefício da coletividade. O profissional multimídia não pode ser confundido com o profissional que sabe operar variados e sofisticados instrumentos eletrônicos. Muito pelo contrário, este profissional deve conhecer principalmente como funcionam as forças do mercado, como pensam os profissionais de outras áreas, como se processam as relações profissionais entre si e como elas utilizam os meios de comunicação e como se gratificam ao utilizar cada veículo.
3. As faculdades (Cursos de Jornalismo) estão capacitadas para formar repórter multimídia?
SÉRGIO MATTOS Os cursos de jornalismo têm feito um grande esforço para se adaptarem à nova realidade que vem mudando com uma rapidez muito grande. A adequação dos novos currículos de formação de jornalistas à realidade de mercado atual e futuro demanda muita discussão e muitas vezes ainda esbarra na burocracia e lentidão dos órgãos que aprovam as mudanças educacionais. Mas, o importante é que estas mudanças estão se processando e algumas faculdades já apresentam currículos experimentais bem avançados e que estão procurando formar profissionais adaptados a esta tendência e que possuam uma amplitude de conhecimentos, que lhes permitam atuar como verdadeiros profissionais multimídias, mas principalmente, como cidadãos que conhecem os seus direitos e deveres e que sabem exercer a cidadania, em beneficio da comunidade.
4. Esse novo perfil do profissional de imprensa que o mercado passa a exigir pode levar os Cursos de Comunicação à retomada de uma formação mais integrada e não por área de interesse (Jornalismo, Relações Públicas, Publicidade e Propaganda, Rádio e TV…?
SÉRGIO MATTOS Existem três correntes atualmente: uma que defende o fim dos cursos por área de interesse, formando comunicadores sociais que podem atuar em qualquer destas áreas sem uma especificidade individualizada. Outra que defende, com unhas e dentes, a manutenção do status quo, argumentando com a necessidade das especificidades para um melhor desempenho profissional. E uma terceira corrente que permite uma maior abertura no que diz respeito à interdisciplinaridade, que leva a uma formação mais ampla e integrada, sem descartar os campos de atuação profissional por áreas de interesse. Acredito que esta terceira corrente pode crescer em influência e atender as necessidades do profissional que o mercado está requisitando. Entretanto, abrindo a possibilidade de uma quarta possibilidade, sou daqueles que defendem que a formação jornalística deveria ser em nível de pós-graduação, ou seja para ser jornalista o candidato já deveria ser portador de algum diploma de nível superior, não importando a área de conhecimento e que se especializaria como jornalista, com uma vantagem, pois acrescentaria à sua profissão toda a bagagem adquirida no curso de graduação superior cursado antes. Esta me parece ser a solução para o futuro e um futuro longínquo, pois só agora é que a pós-graduação começa a tomar corpo do país e ainda tem muito caminho a percorrer.
5. O que caberá às Redações fazer para formar um quadro de repórteres multimídia?
SÉRGIO MATTOS O maior patrimônio que uma empresa jornalística pode ter hoje é o seu quadro de recursos humanos, apesar de nem todas considerarem este aspecto. A reciclagem e a especialização dos profissionais é uma necessidade não apenas da empresa como também do próprio jornalista. Cabe, portanto, às empresas, de acordo com suas necessidades de mercado, prover a especialização de seus profissionais, patrocinando cursos e estágios. Compete também às empresas promover a integração interna, facilitando, por exemplo, a que profissionais acompanhem de perto o trabalho desempenhado em outras áreas da empresa, tais como os departamentos de marketing, relações públicas, o departamento de publicidade e assim por diante. Estes estágios internos em outros departamentos, até mesmo no de circulação/distribuição, permitiria situar o profissional dentro da empresa, passando-lhe uma idéia de como funcionam todos os seus departamentos, quais são as suas dificuldades e necessidades em relação ao trabalho desempenhado pela redação. Esta integração interdepartamental dentro das empresas jornalísticas pode contribuir para sanar inúmeros problemas que podem ser constatados em qualquer empresa jornalística. A idéia está lançada e que os empresários da área jornalística que realmente estão preocupados com o futuro e com o grau de especialização de seus quadros podem tentar a experiência que, além de ter baixo custo, apresentará lucros imensuráveis e positivos para a saúde da empresa.
6. Como, onde, por que meios os profissionais veteranos podem se reciclar para se manter no mercado multimídia?
7. SÉRGIO MATTOS Aqui não cabe considerar o profissional classificando-o como calouro ou veterano. O profissional de imprensa tem que saber construir sua credibilidade, preservar suas fontes, atuar com ética e profissionalismo e acima de tudo, por ser um profissional que está sempre na vanguarda, procurar se atualizar permanentemente. Entretanto, como quando no exercício profissional diário, na luta pela sobrevivência a reciclagem torna-se difícil por falta de tempo, cabe às empresas o papel de proporcionar esta reciclagem, começando pela integração interna, para que todos tenham uma visão geral de todas as áreas de atuação de uma empresa jornalística com todas as suas peculiaridades de comércio, de indústria e acima de tudo como uma instituição prestadora de serviços que tem funções sociais muito claras e definidas: de educar, informar, entreter e fiscalizar.
8. Ser competente em diversas mídias é uma questão de talento ou de treinamento, preparo acadêmico e prática?
SÉRGIO MATTOS É um pouco de tudo isto e mais alguma coisa. Você pode ser bem treinado e capacitado para desenvolver uma função, mas se não tiver bagagem acadêmica e formação humanista você acaba sendo apenas um bom profissional. Assim sendo, o talento e a criatividade também fazem parte do profissional competente e com nível de excelência. Compete ao chefe imediato identificar os criativos a fim de que possamos soltar a corda, facilitando o seu crescimento e transformar isto em beneficio da própria empresa.
9. A Universidade, com cursos de extensão, pode ajudar o profissional que viveu o ciclo da especialização para esse novo momento do mercado jornalístico?
SÉRGIO MATTOS Pode sim. Os cursos de extensão seriam como o primeiro passo para a formação do jornalista em nível de pós-graduação. No momento eles são bem vindos e tanto as empresas como as faculdades de comunicação deveriam firmar convênios neste sentido.
10. A carga horária de disciplinas práticas voltadas para o mercado é suficiente para formar bons profissionais? Quanto mais precisaria aumentar a carga horária e que novos conteúdos incluir para as necessidades atuais do mercado?
SÉRGIO MATTOS A atual carga horária dos cursos de jornalismo giram em torno de 2.700 horas, distribuídas em disciplinas teóricas e práticas num período de quatro anos. Em termos de carga horária creio que a atual carga é suficiente, o que precisa mudar (e esta mudança sempre tem acontecido ao longo dos anos) é a adequação dos conteúdos e das disciplinas às tendências e necessidades do mercado. Até a década de 1970, os cursos de jornalismos exigiam uma carga horária maior nas disciplinas de prática jornalística impressa. Hoje os currículos distribuíram aquela carga horária por outras práticas laboratoriais (tais como oficinas de rádio, de televisão, de pequenos meios e de fotografia, entre outros), ampliando a vivência prática do aluno em todos os meios, não ficando mais o ensino tão concentrado apenas no jornalismo impresso. Se isto aumentou a abrangência da formação do aluno por um lado, pelo outro diminuiu a carga horária de prática no laboratório de impresso. Observe-se que esta mudança ocorreu devido às necessidades do mercado de então. Agora, o mercado já aponta uma nova tendência e as universidades e os professores estão acompanhando estas necessidades de perto por meio de discussões, debates, seminários e até mesmo em congressos, visando a encontrar uma solução para o caso. Enquanto as decisões não são tomadas em níveis oficiais é importante que empresas jornalísticas, faculdades de comunicação e os próprios profissionais procurem adotar a interdisciplinaridade, a reciclagem e os estágios interprofissionais e interdepartamentais a fim de suprir as necessidades de conhecimento que o profissional precisa ter hoje e as empresas encontrarem também o profissional que estão buscando.
11. Para formar um repórter multimídia que mudanças seriam necessárias no currículo da Comunicação Social?
SÉRGIO MATTOS O problema aqui é que os cursos de comunicação social estão direcionados para formar profissionais por área de interesse (jornalismo, publicidade, relações públicas, etc.). Assim sendo, dentro dos cursos de jornalismo existentes hoje isto pode ser feito e já vem sendo tentado em várias faculdades, mas apenas no que diz respeito aos aspectos tecnológicos (por exemplo: informática, Internet, jornalismo on line), com a introdução de novas disciplinas que estudam o jornalismo dentro das tendências e uso de novas tecnologias. Para formarmos realmente um repórter multimídia precisamos mudar alguns conceitos e abraçarmos a causa da interdiciplinaridade (entre disciplinas e entre cursos da área da comunicação social) com vontade. Além disso, como já falamos, é necessária uma maior participação das empresas não apenas no processo de reciclagem interna de seus profissionais como também de interação com as universidades, acabando de uma vez por todas com os preconceitos existentes de ambas as partes.