Saturday, February 26, 2005

REPÓRTER MULTIMÍDIA (entrevista)

 

 

O REPÓRTER MULTIMÍDIA

 

Sérgio Mattos é mestre e doutor em comunicação pela Universidade do Texas, Austin, Estados Unidos. Diplomado em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia ensinou na Faculdade de Comunicação da UFBA tendo se aposentado como professor adjunto. Atualmente, exerce as funções de coordenador dos cursos de Jornalismo e Relações Públicas das Faculdades Integradas Ipitanga, mantidas pela UNIBAHIA, no município de Lauro de Freitas, na Bahia. Sérgio Mattos é também diretor e editor-chefe da revista NEON. Tem vários livros técnicos publicados, concentrando suas pesquisas nos veículos impressos e televisão. Outra área de interesse de suas pesquisas é a censura, sobre a qual já publicou dois livros: “Censura de Guerra” e “O Controle dos Meios de Comunicação”. Sérgio também é poeta (com sete livros individuais publicados) e compositor, com dezenas de músicas gravadas por vários interpretes, sendo que possui quatro CDs individuais. Ao todo Mattos possui 25 livros publicados.  Esta entrevista eletrônica foi concedida a Vera Pinheiro, do Jornal ANJ, em maio de 2000.

 

 

1.     Qual a sua definição para repórter multimídia?


SÉRGIO MATTOS
- Quando se fala num profissional multimídia, a primeira imagem que se nos apresenta é aquela do profissional dos mil e um instrumentos, que dentro das redações exerce uma função de curinga. O homem dos sete instrumentos, o faz-tudo. Esta imagem é de certa forma, uma imagem pejorativa, pois o faz-tudo acaba sendo uma espécie de quebra-galho, nunca um profissional na acepção total da palavra. Entretanto, um jornalista multimídia deve ser aquele profissional que está preparado e que entende o funcionamento dos meios de comunicação em todos os seus aspectos: produção, difusão, comercialização e administração. Hoje é importante que o jornalista tenha uma visão real do mercado onde atua, além de conhecer a operacionalização de toda a parafernália tecnológica existente a fim de que possa satisfazer não apenas suas necessidades como comunicador, mas também atender os variados níveis de expectativas dos consumidores de produtos mídiáticos. O profissional multimídia é também aquele que tem uma noção perfeita das demais profissões da área da comunicação social, sabendo exatamente como atuam e pensam, dentro da lógica de mercado de cada um.



2.      Quais são as qualificações que esse profissional deve ter?

SÉRGIO MATTOS
– Os cursos de comunicação hoje em dia têm procurado abrir o leque das opções das disciplinas oferecidas, buscando ampliar a interdisciplinaridade e integração com outros cursos, visando abrir ainda mais a visão de mundo do futuro jornalista, que precisa ser um profissional aberto, sem qualquer tipo de preconceito e voltado cada vez mais para adaptar as novas tecnologias e tirar proveito delas em benefício da coletividade. O profissional multimídia não pode ser confundido com o profissional que sabe operar variados e sofisticados instrumentos eletrônicos. Muito pelo contrário, este profissional deve conhecer principalmente como funcionam as forças do mercado, como pensam os profissionais de outras áreas, como se processam as relações profissionais entre si e como elas utilizam os meios de comunicação e como se gratificam ao utilizar cada veículo.



3.     As faculdades (Cursos de Jornalismo) estão capacitadas para formar repórter multimídia?


SÉRGIO MATTOS
– Os cursos de jornalismo têm feito um grande esforço para se adaptarem à nova realidade que vem mudando com uma rapidez muito grande. A adequação dos novos currículos de formação de jornalistas à realidade de mercado atual e futuro demanda muita discussão e muitas vezes ainda esbarra na burocracia e lentidão dos órgãos que aprovam as mudanças educacionais. Mas, o importante é que estas mudanças estão se processando e algumas faculdades já apresentam currículos experimentais bem avançados e que estão procurando formar profissionais adaptados a esta tendência e que possuam uma amplitude de conhecimentos, que lhes permitam atuar como verdadeiros profissionais multimídias, mas principalmente, como cidadãos que conhecem os seus direitos e deveres e que sabem exercer a cidadania, em beneficio da comunidade.




4.     Esse novo perfil do profissional de imprensa que o mercado passa a exigir pode levar os Cursos de Comunicação à retomada de uma formação mais integrada e não por área de interesse (Jornalismo, Relações Públicas, Publicidade e Propaganda, Rádio e TV…? 

SÉRGIO MATTOS
 – Existem três correntes atualmente: uma que defende o fim dos cursos por área de interesse, formando comunicadores sociais que podem atuar em qualquer destas áreas sem uma especificidade individualizada. Outra que defende, com unhas e dentes, a manutenção do status quo, argumentando com a necessidade das especificidades para um melhor desempenho profissional. E uma terceira corrente que permite uma maior abertura no que diz respeito à interdisciplinaridade, que leva a uma formação mais ampla e integrada, sem descartar os campos de atuação profissional por áreas de interesse. Acredito que esta terceira corrente pode crescer em influência e atender as necessidades do profissional que o mercado está requisitando. Entretanto, abrindo a possibilidade de uma quarta possibilidade, sou daqueles que defendem que a formação jornalística deveria ser em nível de pós-graduação, ou seja para ser jornalista o candidato já deveria ser portador de algum diploma de nível superior, não importando a área de conhecimento e que se especializaria como jornalista, com uma vantagem, pois acrescentaria à sua profissão toda a bagagem adquirida no curso de graduação superior cursado antes. Esta me parece ser a solução para o futuro e um futuro longínquo, pois só agora é que a pós-graduação começa a tomar corpo do país e ainda tem muito caminho a percorrer.


5.     O que caberá às Redações fazer para formar um quadro de repórteres multimídia?

SÉRGIO MATTOS
– O maior patrimônio que uma empresa jornalística pode ter hoje é o seu quadro de recursos humanos, apesar de nem todas considerarem este aspecto. A reciclagem e a especialização dos profissionais é uma necessidade não apenas da empresa como também do próprio jornalista. Cabe, portanto, às empresas, de acordo com suas necessidades de mercado, prover a especialização de seus profissionais, patrocinando cursos e estágios. Compete também às empresas promover a integração interna, facilitando, por exemplo, a que profissionais acompanhem de perto o trabalho desempenhado em outras áreas da empresa, tais como os departamentos de marketing, relações públicas, o departamento de publicidade e assim por diante. Estes estágios internos em outros departamentos, até mesmo no de circulação/distribuição, permitiria situar o profissional dentro da empresa, passando-lhe uma idéia de como funcionam todos os seus departamentos, quais são as suas dificuldades e necessidades em relação ao trabalho desempenhado pela redação. Esta integração interdepartamental dentro das empresas jornalísticas pode contribuir para sanar inúmeros problemas que podem ser constatados em qualquer empresa jornalística. A idéia está lançada e que os empresários da área jornalística que realmente estão preocupados com o futuro e com o grau de especialização de seus quadros podem tentar a experiência que, além de ter baixo custo, apresentará lucros imensuráveis e positivos para a saúde da empresa.


6.     Como, onde, por que meios os profissionais veteranos podem se reciclar para se manter no mercado multimídia?

 

7.     SÉRGIO MATTOS – Aqui não cabe considerar o profissional classificando-o como calouro ou veterano. O profissional de imprensa tem que saber construir sua credibilidade, preservar suas fontes, atuar com ética e profissionalismo e acima de tudo, por ser um profissional que está sempre na vanguarda, procurar se atualizar permanentemente. Entretanto, como quando no exercício profissional diário, na luta pela sobrevivência a reciclagem torna-se difícil por falta de tempo, cabe às empresas o papel de proporcionar esta reciclagem, começando pela integração interna, para que todos tenham uma visão geral de todas as áreas de atuação de uma empresa jornalística com todas as suas peculiaridades de comércio, de indústria e acima de tudo como uma instituição prestadora de serviços que tem funções sociais muito claras e definidas: de educar, informar, entreter e fiscalizar.


8.     Ser competente em diversas mídias é uma questão de talento ou de treinamento, preparo acadêmico e prática?


SÉRGIO MATTOS – É um pouco de tudo isto e mais alguma coisa. Você pode ser bem treinado e capacitado para desenvolver uma função, mas se não tiver bagagem acadêmica e formação humanista você acaba sendo apenas um bom profissional. Assim sendo, o talento e a criatividade também fazem parte do profissional competente e com nível de excelência. Compete ao chefe imediato identificar os criativos a fim de que possamos “soltar a corda”, facilitando o seu crescimento e transformar isto em beneficio da própria empresa.

 

9.     A Universidade, com cursos de extensão, pode ajudar o profissional que viveu o ciclo da especialização para esse novo momento do mercado jornalístico?

SÉRGIO MATTOS –
Pode sim. Os cursos de extensão seriam como o primeiro passo para a formação do jornalista em nível de pós-graduação. No momento eles são bem vindos e tanto as empresas como as faculdades de comunicação deveriam firmar convênios neste sentido.


10. A carga horária de disciplinas práticas voltadas para o mercado é suficiente para formar bons profissionais? Quanto mais precisaria aumentar a carga horária e que novos conteúdos incluir para as necessidades atuais do mercado?

SÉRGIO MATTOS – A atual carga horária dos cursos de jornalismo giram em torno de 2.700 horas, distribuídas em disciplinas teóricas e práticas num período de quatro anos. Em termos de carga horária creio que a atual carga é suficiente, o que precisa mudar (e esta mudança sempre tem acontecido ao longo dos anos) é a adequação dos conteúdos e das disciplinas às tendências e necessidades do mercado. Até a década de 1970, os cursos de jornalismos exigiam uma carga horária maior nas disciplinas de prática jornalística impressa. Hoje os currículos distribuíram aquela carga horária por outras práticas laboratoriais (tais como oficinas de rádio, de televisão, de pequenos meios e de fotografia, entre outros), ampliando a vivência prática do aluno em todos os meios, não ficando mais o ensino tão concentrado apenas no jornalismo impresso. Se isto aumentou a abrangência da formação do aluno por um lado, pelo outro diminuiu a carga horária de prática no laboratório de impresso. Observe-se que esta mudança ocorreu devido às necessidades do mercado de então. Agora, o mercado já aponta uma nova tendência e as universidades e os professores estão acompanhando estas necessidades de perto por meio de discussões, debates, seminários e até mesmo em congressos, visando a encontrar uma solução para o caso. Enquanto as decisões não são tomadas em níveis oficiais é importante que empresas jornalísticas, faculdades de comunicação e os próprios profissionais procurem adotar a interdisciplinaridade, a reciclagem e os estágios interprofissionais e interdepartamentais a fim de suprir as necessidades de conhecimento que o profissional precisa ter hoje e as empresas encontrarem também o profissional que estão buscando.


11.           Para formar um repórter multimídia que mudanças seriam necessárias no currículo da Comunicação Social?


SÉRGIO MATTOS –
O problema aqui é que os cursos de comunicação social estão direcionados para formar profissionais por área de interesse (jornalismo, publicidade, relações públicas, etc.). Assim sendo, dentro dos cursos de jornalismo existentes hoje isto pode ser feito e já vem sendo tentado em várias faculdades, mas apenas no que diz respeito aos aspectos tecnológicos (por exemplo: informática, Internet, jornalismo on line), com a introdução de novas disciplinas que estudam o jornalismo dentro das tendências e uso de novas tecnologias. Para formarmos realmente um repórter multimídia precisamos mudar alguns conceitos e abraçarmos a causa da interdiciplinaridade (entre disciplinas e entre cursos da área da comunicação social) com vontade. Além disso, como já falamos, é necessária uma maior participação das empresas não apenas no processo de reciclagem interna de seus profissionais como também de interação com as universidades, acabando de uma vez por todas com os preconceitos existentes de ambas as partes.

 

 

 

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RECEPÇÃO E TV A CABO

 

 

 

                        CONTRIBUIÇÃO AO CONHECIMENTO

 

Sérgio Mattos

 

         “Recepção e TV a Cabo: A força da cultura local” é um livro que dá uma contribuição muito mais ampla do que se espera numa obra que, à primeira vista, seria segmentada, totalmente voltada para o setor da televisão, ou mais especificamente para a recepção da TV a Cabo. Entretanto, Valério Cruz Brittos conseguiu, com um estilo leve e um domínio vocabular exemplar, desenvolver um tema, de interesse dos comunicológos, de tal maneira que este trabalho pode e deve ser lido, não apenas pelos estudiosos da área, mas também por todo aquele leitor-consumidor do maior veículo de massa deste século, que é a televisão.                  

 

         Antes de tecer qualquer comentário sobre a obra em si, gostaria de apresentar o seu autor. Valério Cruz Brittos é advogado, jornalista e professor de comunicação, tendo trabalhado em redações de rádio, televisão e jornal, tanto no Rio Grande do Sul, de onde é natural, como em Brasília, tendo exercido as funções de repórter e de editor de política.  Nos últimos anos tem se dedicado à prática acadêmica (ensino, pesquisa e extensão), uma vez que é professor vinculado à Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) e doutor em Comunicação pela FACOM/UFBA, onde tive a honra e o prazer de ser seu orientador e admirador, devido ao seu espírito empreendedor e a garra com que se dedica ao trabalho da pesquisa.

 

         Como se estas informações já não fossem suficientes para qualificar o autor desta obra, posso ainda destacar que ele tem especialização em Ciências Políticas e em Economia Política da Comunicação, além de ser Mestre em Comunicação pela PUCRS, onde defendeu tese sobre o tema deste livro.  Partindo do texto inicial da dissertação de mestrado, Brittos avançou em sua pesquisa, atualizando-a de forma a que a leitura deste livro se torne obrigatória nas escolas, além de se transformar num ponto de referência para todos os que se dedicam ao estudo deste assunto.


           Quando digo que este livro oferece uma ampla gama de informações, maior do que a delimitação contida em seu próprio título, na verdade, quero afirmar que esta obra, além de oferecer uma visão histórica de nossa televisão, discute o caso da TV a Cabo no país, partindo da cidade de Pelotas, para constatar que “as identidades culturais local e regional podem ser consideradas como vias que impedem a homogeneização, apesar de, no processo de interação e constante renovação do qual participam, também terem assimilado dados do global, revelando-se elas próprias híbridas”.


            Como identificou o autor, uma das especificidades da televisão a cabo “é o modo de assistir à TV que estabelece, tendendo a recepção de coletiva a individual, a partir da múltipla oferta de canais, propiciando maior segmentação do consumo, o que ocasiona dispersão”.


         Não podemos deixar de considerar que o mercado de TV paga, no Brasil, ainda é emergente, mas está crescendo com tal rapidez que não é preciso ser profeta para pontuar que no inicio da próxima década a TV por assinatura será, juntamente com o fenômeno da Internet, responsável pela radical mudança que a televisão convencional vai sofrer tanto no aspecto de conteúdo quanto no que diz respeito à composição de sua audiência. Aliás, Brittos também nos brinda com analises neste sentido.


         Os capítulos 2, 4 e 5 deste livro se constituem, a meu ver, num ensaio à parte, quando o autor oferece uma ampla visão de cultura sob os pontos de vistas da antropologia cultural e social, discutindo como o pluralismo do consumo cultural nos leva a um reordenamento do que realmente do que realmente vem a ser cultura e do significado do que é nacional.   Destacando a importância e participação da mídia na constituição das identidades, “as quais não são neutras e envolvem auto-reconhecimento, e que a memória coletiva é a garantia da identidade no tempo”, Brittos analisa ainda a identidade cultural e o seu papel como principal agente mediador da recepção.
 No sexto capítulo ele se dedica a análise do receptor de televisão a cabo, apresentando dados que evidenciam que a TV a cabo está reduzindo a influência do modelo massivo de comunicação desse período globalização que estamos vivendo. “Com a TV a cabo, a programação homogênea entra em declínio e os grupos e indivíduos vão buscar suas próprias opções… Essa mudança de ver televisão, de coletiva a individual, traz conseqüências, inclusive, na sociabilidade… Agora, com a segmentação cultural, cresce a individualização do consumo televisivo, reduzindo ainda mais a possibilidade de convivência social”.

         Nos sétimo e oitavo capítulos o leitor encontra todas as questões que envolvem a literatura, a tecnologia e regulamentação existente televisão a cabo no país.


         Depois de ter analisando a questão da identidade cultural nos primeiros, no oitavo capítulo, Brittos trata do outro lado da moeda, ou seja, o papel da cultura global e sua heterogeneidade. Segundo o autor, “o que determina se um produto integra a cultura global, não é sua origem geográfica, mas seu padrão de produção”. Neste capitulo, que também pode ser identificado como um ensaio à parte, Brittos sintetiza, histórica e conceitualmente, o processo da globalização até os nossos dias quando assume uma forma mais avançada e complexa da internacionalização.


         Enfim, podemos dizer que este livro amplia o conhecimento sobre a relação entre receptor, produto e tecnologia, agregando novos conhecimentos, além de sinalizar para uma mudança no modo de ver e de fazer pesquisas sobre televisão no Brasil. Dentre as várias e importantes considerações conclusivas apresentadas, o autor constatou, por exemplo, que: “Na América Latina, a própria hibridização relativiza o global, desmontando a noção normalmente disseminada de que sua ação é avassaladora, homogeneizante destruidora de toda diversidade”. Dito de outra forma, se o global convive com outras formas culturais, que permanecem, não pode ser homogêneo. Pode sim, e é, hegemônico. Por isso, as identidades culturais, local e regional, podem ser consideradas como vias que impedem a homogeneização…”

 

Para concluir, volto a insistir: este livro é, de fato, uma grande contribuição à área dos estudos da comunicação e deve ser lido por todos que queiram entender melhor o desenvolvimento da televisão neste país.

 

         (Contatos com o autor do livro podem ser feitos por meio do seguinte e-mail: val.bri@terra.com.br)

 

        

 

                  

 

 

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Friday, February 11, 2005

PRODUÇÃO DE LIVROS - ENTREVISTA

A PUBLICAÇÃO DE LIVROS – ENTREVISTA

 

A PRODUÇÃO DOS REGISTROS DO CONHECIMENTO

 

 

 

Trecho de uma entrevista concedida por Sérgio Mattos à profa. Nancy, então responsável pela disciplina Produção dos Registros do Conhecimento (Editoração), da Escola de Biblioteconomia e Documentação da UFBA.

 

 

PROFA. NANCY – Por que o povo perdeu o contato com os livros? O que fazer para que a população brasileira volte a se informar por meio da leitura de livros?
SÉRGIO MATTOS – Não acredito que o povo tenha perdido o contato com os livros. Isto não é verdadeiro. O que se pode dizer é que a população com baixo poder aquisitivo está comprando menos livros, mas não deixou de ter contato com os mesmos, haja vista a freqüência nas bibliotecas e a quantidade de novos títulos que são lançados anualmente no Brasil, O que se precisa fazer para que a população tenha mais acesso ao livro é barateá-lo e isto só será possível com a adoção de livros nas escolas, aumento das edições e programas oficiais de estimulo à leitura. Devemos também impedir a indústria de xerox, que, direta e indiretamente, contribui para o aumento do preço final dos livros, além de lesar os direitos autorais. Quanto à segunda parte da questão, devemos usar os veículos de comunicação de massa (jornais, revistas, radio e TV) para informar a população sobre os lançamentos de livros, indicando os melhores títulos e fornecendo orientações.


PROFA. NANCY – Do ponto de vista social, qual o objetivo do autor ao publicar um livro, além de dar informação à sociedade?

SÉRGIO MATTOS – Existem tipos de livros diferentes: o de história/informação/analise etc que se enquadra no tipo de livro de não-ficção. E os livros considerados de ficção tais como romances, contos, poemas, etc. Todos são o resultado de um trabalho elaborado por um autor. Do ponto de vista social as contribuições dadas pela publicação de um livro são muitas talvez até impossíveis de serem enumerada aqui, mas podemos destacar as contribuições dos livros de não-ficção, através dos quais se pode transmitir informações, novos conhecimentos e resgatar e registrar a memória sócio-cultural-econômica de um país, por exemplo. As obras de ficção (romance, contos, poesias) ou de criação são trabalhos elaborados a partir da sensibilidade do autor que, baseando-se em casos verídicos ou não, ou apenas fruto de sua imaginação, retratam uma época ou situações diversas, tais como dramas de ordem psicológica. Dizem que para se ter uma idéia do cotidiano de uma época, devemos ler principalmente os poetas e cronistas, pois estes sabem retratar o dia-a-dia como ninguém, dando vida e cor a detalhes que ninguém leva em consideração.  O objetivo do autor ao publicar um livro é de ver o resultado concreto de seu trabalho ser multiplicado e à disposição de centenas de pessoas. A publicação de um trabalho é a contribuição que o autor dá à sociedade. A partir do momento em que um autor publica sua obra, seja ou não de ficção, ela passa a pertencer à sociedade.                                          

 

PROFA. NANCY – Do ponto de vista pessoal, qual o objetivo do autor ao publicar um livro?
SÉRGIO MATTOS – Parte da pergunta foi respondida na questão anterior. Além, dos objetivos enumerados acima, poderíamos dizer que os objetivos de ordem pessoal são tantos e tão diversos, variando de pessoa a pessoa que seria impossível citá-los concretamente… Mas se considerarmos um autor consciente de seu papel, podemos dizer que o principal objetivo do autor, do ponto de vista pessoal, ao publicar um livro, é o de dar a sua contribuição naquele setor para o qual está publicando. Por exemplo, um professor de uma disciplina que escreve um livro de comunicação, tem o objetivo de dar uma contribuição significativa àquele ramo do conhecimento, através da sistematização do conhecimento que ele próprio acumulou. A través do livro o professor está também contribuindo para a multiplicação da informação, partilhando o conhecimento acumulado com seus alunos. Isto sem falarmos da satisfação pessoal. Quem publica um livro e pode constatar que ele está sendo comprado, lido, consultado e usado como fonte de informação ou de lazer, sente-se satisfeito, pleno e por que não dizer, um tanto orgulhoso. Não é à toa que se considera que cada livro escrito é um filho do autor…

PROFA. NANCY – A sua obra se destina a um público específico?
SÉRGIO MATTOS – Ao longo dos anos tenho publicado muitos livros. Livros de poemas, de crônicas e sobre a área de comunicação: jornalismo, televisão. Os livros ditos de criação são destinados a todas as pessoas, independente de sexo, classe social, credo ou cor. Os livros de pesquisa histórica e de analise dos meios de comunicação são mais específicos e se destinam aos profissionais que atuam na área de comunicação, aos estudantes de comunicação e ou pessoas interessadas/curiosas por maiores informações sobre um veículo de comunicação específico.

 

PROFA. NAMCY – A publicação de um livro resulta na melhoria do padrão econômico de um escritor?

SÉRGIO MATTOS – Não. Isto porque são poucos os escritores brasileiros que vivem especificamente de sua produção literária. Você conta nos dedos das mãos os autores que vivem especificamente dos livros que produzem. Se fosse o inverso, ou seja, se todo autor pudesse sobreviver dos livros que produz teríamos uma produção muito maior. Imagine o tempo que um autor gasta como professor, como jornalista ou exercendo outra atividade qualquer para sobreviver. Se autor não tivesse que gastar tanto tempo trabalhando pela sobrevivência, poderia destinar mais tempo às suas criações literárias e à produção de noivos livros. Se um autor vivesse do que escreve, poderia ter uma produção maior e de melhor qualidade.

 

PROFA. NANCY – Qual o problema que os autores enfrentam no que tange à estrutura das editoras?

SÉRGIO MATTOS – Não entendi bem a pergunta. O que tem a estrutura da editora com problemas do autor? O que existe hoje no país é que temos poucas editoras e muitos autores. O problema que o autor encontra é o de ter a sorte de ver sua obra selecionada por uma editora para efeito de publicação. E isto significa peregrinação do autor, levando os originais embaixo do braço, por uma série de editoras que às vezes despacham os originais sem nem ao menos abrir o envelope e conferir o conteúdo. Hoje, no Brasil, para se ter uma obra publicada por uma editora conhecida é muito difícil e o autor, além de já ter nome, sempre precisa da ajuda de alguém influente para apresentá-lo ou forçar a barra, garantindo que o conteúdo tem valor e merece ser publicado. Fora isto, resta ao autor procurar editoras que fazem o trabalho de editoração, mas que cobram por isto, ficando os custos da edição por conta do autor. É por isso que a maioria dos autores inicia a carreira custeando a produção dos próprios livros.

 

PROFA. NANCY – Na publicação de um livro o escritor conta com o apoio de órgãos públicos ou com o apoio da iniciativa privada?

SÉRGIO MATTOS – Dependendo do autor e da obra ele pode contar com este apoio. Tudo depende da influência que o autor tenha ou da importância que sua obra tem para atrair o interesse de órgãos públicos ou privados. Se no país existisse uma política editorial, tanto em nível federal-estadual-municipal, nós teríamos uma quantidade maior de livros de qualidade. Como não temos uma política editorial definida, apesar de termos muitas publicações, apenas uns poucos são beneficiados.

 

PROFA. NANCY – Quais as dificuldades do autor ao publicar sua obra?

SÉRGIO MATTOS – Além de tudo o que já relacionamos acima, podemos dizer que uma das maiores dificuldades que um autor encontra é a distribuição de sua obra e o processo de venda realizado pelas livrarias que continuam usando pessoas não qualificadas, capacitadas para atuar neste setor. As distribuidoras sangram as editoras e os autores, pois estas ficam com a maior parte da fatia. Cabe ao distribuidor 50% do preço de capa da cada do livro. As livrarias ficam em média com 20 ou 30% , e o restante 10 ou 20% para a editora e 10% , relativo aos direitos autorais, para o autor. Observe-se que o autor, geralmente, recebe sua parte já defasada e desatualizada porque a prestação de contas é sempre feita depois de muito tempo da data de venda do livro ou em cotas de livros. Isto é o panorama geral, mas existem naturalmente casos específicos, dependendo da obra ou do autor, quando o autor recebe sua parte até mesmo antes do livro chegar às livrarias. Neste caso estão incluídos autores de best-sellers ou quando o autor produz o livro sob encomenda, aí ele recebe antecipações…

 

PROFA. NANCY – Em Salvador já existe uma estrutura editorial para se publicar livros?

SÉRGIO MATTOS – Existe. Em Salvador nós já temos inúmeros autores, que continuam produzindo e publicando e muitos ainda são inéditos. Temos um parque gráfico de boa qualidade, temos inúmeras livrarias e postos de venda de livros. Além disto temos um mercado consumidor/leitor de boa envergadura. Só está faltando em Salvador a implantação de uma editora de porte nacional acompanhada de uma boa distribuidora para resolvermos o problema na área de editoração. Aliás, na década de 90, o Instituto Baiano do Livro investiu muito nesse sentido: o de criar e dotar a Bahia de toda a infraestrutura necessária para a implantação de uma grande editora na Bahia. Apesar de não termos ainda uma editora de porte, a Bahia tem produzido centenas de títulos por ano, com edições estimadas entre 1000 e 3000 exemplares que praticamente são esgotadas em nível regional, sem ultrapassar as nossas fronteiras. Isto dito parece não ser muito representativo, mas enganam-se os que pensam assim, uma vez que as editoras nacionais, que distribuem livros para todo o país também tiram edições que variam de 1000 a 3000 exemplares. Portanto, nossas edições regionais são grandes porque se destinam basicamente ao território baiano. A Bahia é e vai continuar sendo um centro cultural de expressão no país exatamente por esta singularidade que está presente em todos os campos da criação.

 

PROFA. NANCY – Houve influências de alguém ou algo para iniciar sua carreira?

SÉRGIO MATTOS – Claro. Todo e qualquer autor sofre influências, positiva ou negativa, no início da carreira. As minhas foram positivas e acredito que o fato de ser jornalista e de atuar na imprensa contribuiu e muito para abrir as portas no que se refere à publicação e divulgação da obra.

 

PROFA. NANCY – Dentre as suas obras, qual a que você destacaria como aquela que mais o emocionou ao ser publicada?
SÉRGIO MATTOS – O primeiro livro é sempre o primeiro…, mas o último é sempre considerado como o melhor, uma vez que dedicamos mais atenção e usamos a experiência acumulada. Entretanto, entre o primeiro e o último livro publicado existem vários tipos de emoções. Temos aquela emoção sentida pela boa receptividade por parte do público, aquela que sentimos quando a crítica especializada reconhece o valor da obra. Além destas, temos a satisfação de constatar que nosso trabalho começa a ser citado em vários cantos do país e do mundo e a sensação de começarmos a ver a obra publicada em outras línguas. Estes são apenas alguns exemplos de emoções. Diria que a maior emoção é sempre ver publicado o seu mais novo trabalho.

 

PROFA. NANCY – Qual a sua opinião sobre o provérbio: “O homem se realiza quando planta uma árvore, constitui uma família e escreve um livro”?

SÉRGIO MATTOS – É incompleto e limitado.

 

 

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