Sunday, January 30, 2005

MONOGRAFIA: de bicho papão a manso gatinho

UM MANUAL ESSENCIAL

 

SÉRGIO MATTOS

 

Monografia, dissertação e tese são palavras que ainda deixam os alunos de Comunicação Social tremendo nas bases. Identificar o tema de pesquisa, definir os objetivos gerais e específicos, escolher o método a ser usado, apresentar hipóteses e saber usar as ferramentas de trabalho de acordo com as normas visando à elaboração de um projeto de pesquisa são etapas que sempre afligiram os estudantes de graduação. O livro “Monografia: de bicho papão a manso gatinho” é um excelente calmante, uma solução, para aqueles que entram em pânico quando chega a hora de encarar o Projeto de Conclusão de Curso. A professora e jornalista Matilde Eugenia Schnitman consegue – com uma linguagem clara, precisa, objetiva e bem humorada – converter o bicho papão num gatinho carinhoso e amigo, eliminando todos os obstáculos, ajudando o aluno a vencer todas as etapas. Este é um manual que deve ser lido por todo estudante, que ainda não definiu o seu tema monográfico. Em síntese, trata-se de um conjunto de procedimentos de trabalho, cuja receita deve ser seguida à risca para que o aluno consiga estruturar sua monografia e o resultado se transforme numa contribuição ao conhecimento.

O livro da professora Matilde pode ser adquirido diretamente com a autora. O e-mail para contato é: matilde01@uol.com.br

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TALENTOS PUBLICITÁRIOS DA BAHIA

 

 

 

FERNANDO BARROS: A BAHIA É

UM CELEIRO DE CRIATIVIDADE

 

SÉRGIO MATTOS

 

(Entrevista concedida pelo publicitário Fernando Barros, presidente da Propeg, a Sérgio Mattos e publicada na revista NEON, nº 41- maio de 2004).

 

Ao longo dos últimos 30 anos a Propeg, maior agência de publicidade da Bahia, tem sido a mais premiada pelo Prêmio Colunista. A Propeg é a maior agência brasileira de atuação regional, com investimentos em mídia superiores a R$ 131 milhões, atendendo importantes clientes nas áreas pública e privada. Desde janeiro de 2003, a Propeg passou a ter como o seu acionista majoritário o jornalista, publicitário e especialista em marketing Fernando Barros, que desde os anos 90 do século passado já vinha desempenhando a função de Presidente da Propeg Bahia e Brasília. Considerando que a Propeg é uma das 15 maiores agências de publicidade do País e a importância que seu principal executivo tem neste processo, a NEON apresenta nesta edição uma entrevista com Fernando Barros, que fala sobre sua carreira como publicitário, seus conceitos, modo de vida, sobre propaganda, criatividade e as tendências do mercado.

 

 

SÉRGIO MATTOS – Como Fernando Barros definiria a pessoa do Fernando Barros?

FERNANDO BARROS – Eu me considero um profissional de criação. O profissional de criação necessariamente não é aquele que milita somente na criação. É aquele profissional talhado para pensar criativamente. Eu me disciplino para pensar criativamente em tudo o que eu faço, seja nas atividades relacionadas com a propaganda, meu principal negócio, como em todas as atividades que eu tenho, até mesmo as de lazer. Como eu gosto muito de música, eu procuro, na medida do possível, e com as limitações que eu tenho como músico, ser criativo na música. Eu gosto muito do campo, gosto de criar, de ser agricultor. Assim, procuro ser criativo nestas coisas, então a coisa que eu mais persigo, não que eu me considere super criativo, eu gostaria muito de ser lido, de ser entendido e reconhecido, como um profissional de criação. Então, em sendo um profissional de criação, até para você ser criativo, você tem que ser estratégico. Então eu considero também que este é um traço que – se eu posso esquecer um pouco a modéstia -, eu tenho. Eu gosto de pensar estrategicamente. Eu acho que tudo tem que ter estratégia. Se não tiver estratégia não adianta somente ser criativo, buscar somente o ineditismo. É preciso ter primeiro uma orientação estratégica para tudo o que você faz na vida. Tudo o que você faz até as próprias relações pessoais e familiares, tudo tem que ter estratégia. Então eu me defino assim: Um profissional, uma pessoa que gosta de ser considerado, que percebe ser criativo, mas com uma forte raiz de pensar estrategicamente antes mesmo de criar.

Com relação à história pessoal e profissional, sucesso e coisas tais, eu diria que isto me incomoda muito falar de mim mesmo neste sentido. Eu não tenho uma origem familiar relacionada com a propaganda ou coisa parecida. A minha família é uma família de comerciantes e de agricultores. Eles eram tradicionais produtores de café na região Sudoeste da Bahia. E a minha história começa quando mudei de Feira de Santana, aos nove anos de idade, e vim morar em Salvador, onde estudei. Fiz meus cursos quase todos aqui e um deles sobre Publicidade e Propaganda em São Paulo. E em relação aos sucessos e distinções recebidas tenho uma razoável quantidade delas.

 

SÉRGIO MATTOS – Conte um pouco da história da Propeg desde o seu surgimento na década de 60 do século passado com o nome de GFM-Propeg. Desde a época da boemia e do romantismo que atingia tanto a mídia quanto à publicidade.

FERNANDO BARROS - Veja, eu cheguei à Propeg em 1974. Tinha 23 anos naquela época. Foi meu segundo emprego, pois antes tive uma passagem pela Norton Publicidade e logo em seguida vim pra cá [Propeg] e não sai mais. Fiz toda a minha carreira aqui. Cresci aqui e acabei ficando sócio da empresa. Aqui, na Propeg, eu encontrei uma semente, um terreno muito fértil para crescer naquilo que eu considero mais importante na história da Propeg que tem a ver com a história da propaganda baiana. Tinha muito este lado romântico, e até boêmio, que foi imprimido pelo fundador da Propeg, o Rodrigo Sá Menezes. A Propeg era considerada assim uma espécie de Eldorado para quem queria trabalhar em propaganda. E eu me lembro que a primeira coisa que eu vi na Propeg, e que me entusiasmava, foi uma campanha que vendia exatamente aquilo que o Brasil já conhece que era o talento do profissional baiano. E tinha uma frase famosa, de autoria do próprio Rodrigo que dizia o seguinte: “A Bahia exporta talento. Tem sentido importar Propaganda?”. Ele sabia valorizar, desde aquela época, o talento do publicitário baiano. Eu encontrei aqui e aprendi, nesta escola, a valorizar e fazer um bom trabalho antes de qualquer coisa. Aprendi a procurar fazer sempre um bom trabalho, ser reconhecido por fazer um trabalho criativo, a exemplo do que se fazia, se praticava e se pratica até hoje nas regiões economicamente mais desenvolvidas – notadamente Rio de Janeiro e São Paulo. E isso, eu digo, foi a Propeg quem quebrou este paradigma, pois o pessoal do Rio e São Paulo viu que no Nordeste havia gente também fazendo uma boa propaganda, disputando com as grandes agências e passamos a ser reconhecidos como uma empresa de propaganda criativa, embora estivéssemos operando em uma região economicamente não tão pujante como a deles.

 

SÉRGIO MATTOS - Que fim levaram os fundadores da Propeg?

FERNANDO BARROS – O Rodrigo de Sá Meneses mudou-se para São Paulo. Deixou de fazer parte da sociedade. Hoje ele dirige um grupo de empresas da área de sistemas, na área de logística, informática e está dedicado a estas funções hoje lá em São Paulo. Não tenho notícias de Francisco e o Gama, lamentavelmente faleceu. Ele esteve conosco até os últimos dias. Mas estas pessoas que foram as raízes da agência, na época, eram considerados como verdadeiros revolucionários. Eu levo este aprendizado até hoje. Na minha cabeça, eu acho que agente tem que se renovar sempre, agente tem que estar antenado com as mudanças, com o comportamento das pessoas. A Propeg é uma das mais antigas agências do mercado, mas é também uma das mais novas porque aqui nós temos a mais nova equipe de comunicação que está aqui conosco.

 

SÉRGIO MATTOS - Na Bahia e no Nordeste a Propeg é a maior agência. Qual é a posição da agência no ranking nacional?

FERNANDO BARROS – Nós estamos entre as 15 maiores agências do país.

 

SÉRGIO MATTOS – Qual foi a grande oportunidade que a Propeg teve ao longo de sua história para deslanchar? Houve algum advento importante que tenha contribuído direta ou indiretamente para este crescimento?

FERNANDO BARROS - Eu diria com muita convicção que o advento que marcou a saída da Propeg da Bahia para afirmar-se como empresa de atuação nacional foi uma conta chamada Banco Econômico, que era uma empresa baiana, mas de atuação nacional e que cresceu muito (O Econômico esteve entre os cinco maiores bancos do Brasil) e nos levou junto, graças a Deus e ao Dr. Angelo Calmon de Sá que acreditou em nós. Eu credito muito do sucesso que nós fizemos à confiança que ele depositou na Propeg.  Nós acompanhamos o Econômico e o crescimento do banco naquela época e nos firmamos nacionalmente. A partir daí, a imagem da Propeg passou a ser reconhecida também pelo belo trabalho de comunicação que fizemos para o Banco Econômico. Daí vieram outras contas e as coisas seguiram…

 

SÉRGIO MATTOS – Qual o papel que a mídia local exerceu no crescimento da Propeg?

FERNANDO BARROS – Eu diria que a mídia nos ajudou e modestamente nós ajudamos também a mídia. Porque na época em que a Propeg surgiu havia muita hegemonia e as empresas ditas hegemônicas não consideravam o trabalho das agências. Em uma determinada época, o principal jornal, que era A TARDE, acordou para isso [em meados da década de 70 do século passado] e sob a efetiva liderança de quem tocava a parte administrativa e comercial do jornal na época, o saudoso Arthur Couto, ele passou a valorizar, respeitar e estimular o mercado da Propaganda baiana. Então, ele foi pioneiro em enxergar o publicitário e o mercado da propaganda como parceiro do jornal.

 

SÉRGIO MATTOS – Qual o segredo para uma agência de publicidade fazer sucesso?

FERNANDO BARROS - O segredo para uma agência ter sucesso é ela e seus dirigentes simplesmente se questionarem, todos os dias. Temos que acordar pensando no que é que ficou para traz ou no que está ficando para traz. De maneira que se sentir seguro nesta área é a pena de morte para quem quer fazer de uma agência de propaganda uma coisa presente e atuante. Este questionamento é feito diariamente na Propeg. Sempre estamos olhando e revogando métodos ultrapassados. Verificando como é que podemos melhorar e prestar um serviço melhor aos nossos clientes. E, sobretudo, agente procura dar oportunidades a novos profissionais para promover a renovação. É difícil uma empresa de serviços, notadamente neste campo da propaganda, manter-se presente, atualizada e jovem, se não houver esta atitude de freqüente, constante e convicto questionamento diário. O questionamento diário é muito importante para fazer com que efetivamente agente não fique para traz.

 

SÉRGIO MATTOS – Atualmente existem mais de 200 Faculdades de Publicidade no Brasil. O mercado absorverá os futuros publicitários de anel no dedo e diploma debaixo do braço?

FERNANDO BARROS – Outro dia fiz um questionamento deste durante uma palestra para estudantes e não sei se gostaram muito. Fico muito preocupado com a quantidade de profissionais que as faculdades desovam no mercado. Nós não temos mercado para absorver tanta gente. Não há anunciantes nem agências para suportar tanta gente. De maneira que os profissionais de comunicação devem até buscar alternativas que não sejam necessariamente trabalhar em agências.

 

SÉRGIO MATTOS – Existe alguma receita para ser um bom publicitário e fazer sucesso?

FERNANDO BARROS – O que é preciso para um profissional de propaganda fazer sucesso? Eu sempre digo que a Bahia tem uma vocação histórica, inquestionável para fabricar talentos publicitários. Isto é indiscutível e o Brasil reconhece, não é? Agora, para fazer sucesso como publicitário, primeiro, o cara tem que ter sorte. Sem sorte não se ganha guerra. Segundo, ele tem que ter talento. Terceiro, ele tem que ter perseverança e entender que esta é uma profissão dura, dura, muito dura de se vencer. Quem pensa em ter uma vida social e profissional tranqüila de 8 horas diárias, não deve trabalhar com propaganda.porque isto aqui, verdadeiramente, nos leva a trabalhar por noites e finais de semana. O profissional de sucesso, o profissional que vai firmar-se e ter reconhecimento, tem que fazer valer o seu talento e, sobretudo, fazer valer a sua transpiração e obviamente tem que ter sorte porque sem sorte nem atravessar a rua dá certo.

 

SÉRGIO MATTOS – Como você traçaria um panorama do mercado publicitário baiano hoje?

FERNANDO BARROS - O mercado publicitário é promissor porque a Bahia é promissora. Nós estamos efetivamente passando para o terceiro ciclo de desenvolvimento quando se instala e chegam à Bahia as indústrias de transformação…

 

SÉRGIO MATTOS – Mas isto não está se refletindo na publicidade…

FERNANDO BARROS – Não, mas vai acabar se refletindo porque depois das megas indústrias como a Ford e as indústrias de pneus que estão chegando na Bahia, vamos ter instaladas em torno delas todas as indústrias periféricas. Por exemplo: você já tem hoje as indústrias de calçados que estão se transformando em anunciantes para as agências locais. Assim, o terceiro ciclo de desenvolvimento, ou seja, sair da indústria de base da produção de comodities, está verdadeiramente instalado na Bahia. Aí sim se desenha um futuro para a propaganda que vai aumentar o bolo e aumentando o bolo publicitário obviamente vai caber mais gente no setor.

 

SÉRGIO MATTOS – Por que o mercado publicitário da Bahia é limitado quando comparado com outros Estados do Nordeste?

FERNANDO BARROS – Olha não é bem assim, não. A Bahia lidera o Nordeste. Para se ter uma idéia a economia da Bahia é duas vezes e meia a soma de Pernambuco e do Ceará e o mercado publicitário também. Agora o que há em relação a Pernambuco é que lá tem mais indústrias de transformação. Não há mais volume, mas há mais variedades. E aqui nós temos a propaganda ainda muito sustentada pelo varejo, pelos serviços e pelo governo. Mas a situação está mudando, pois agora temos a área de ensino se afirmando como segmento anunciante interessante, temos as áreas recém privatizadas como distribuidora de energia, e por aí vai. Aí você começa a encontrar o mercado um pouco ampliado por isso. E aqui ainda temos o mercado imobiliário que, ao contrário do Rio e São Paulo que tende a anunciar imóveis como estorvo, a gente sempre deu show de bola no Brasil, fazendo uma propaganda imobiliária invejável.

 

SÉRGIO MATTOS – A que você atribui a fama e o sucesso alcançado por publicitários e agências baianas em nível nacional?

FERNANDO BARROS – Eu diria que aquilo que Rodrigo Sá Menezes profetizava há mais de 30 anos é a mais pura verdade. A Bahia é um celeiro de talentos para a propaganda, E não há em nenhuma das grandes agências de hoje, nas maiores agências, uma só que não tenha um baiano. Em todas elas tem pelo menos um baiano. Também encontramos baianos trabalhando na mídia nacional e baianos ocupando postos executivos importantes na comunicação e no marketing do Brasil inteiro. Então isso pra mim atesta o quanto Rodrigo vaticinava e defendia que é uma vocação natural desse Estado. A Bahia é um celeiro de criatividade verdadeiramente. A prova é que entre os principais publicitários do País – eu não deixo de me arriscar, de jeito nenhum, ao afirmar com convicção –, mais da metade dos publicitários de sucesso do Brasil são baianos.

 

SÉRGIO MATTOS – O que você acha da tendência, já constatada nos Estados Unidos, do crescimento e da importância da mídia segmentada e da importância da chamada mídia alternativa? Por que as agências e os mídias não programam a mídia alternativa?

FERNANDO BARROS – Porque não acordaram ainda para isto. Mas é bom acordar. Porque cada vez mais os anunciantes vão exigir foco, vão exigir segmentação nas suas abordagens. Ser mídia alternativa necessariamente não significa você estar entre os maiores, mas estar circulando, tendo audiências, naqueles públicos específicos que interessam aos anunciantes, às empresas. Eu vejo assim até porque os custos das chamadas mídias tradicionais vão ficar cada vez mais pesados para quem quer às vezes se comunicar com um segmento específico de público e que você não precisa dar um tiro de canhão para matar uma mosca. É melhor dar um tiro de estilingue para matar uma mosca. A mídia alternativa, na minha opinião, vai se constituir como o grande desafio para as agências entenderem e as agências fazerem os anunciantes entenderem que os investimentos na mídia alternativa serão cada vez mais importantes e serão necessários para se obter sucesso na administração de suas verbas.

 

SÉRGIO MATTOS – Estamos vivendo um período crítico para a mídia nacional. Como você vê o problema? A “crise econômica” está afetando também as agências de publicidade?

FERNANDO BARROS – Olha a propaganda é filha dileta da atividade econômica e isto é um enigma que nunca se conseguiu decifrar. Normalmente se fala, se o mercado vai mal, vamos anunciar para vender mais, para estimular este mercado e este mercado, responder a estes estímulos. Acontece o contrario no Brasil. Quando a atividade econômica sofre qualquer desvio, sofre qualquer desidratação, corta-se. A coisa mais fácil que os empresários entendem que deve ser cortado, paradoxalmente, é o que não deveria ser cortado, que é a propaganda. De maneira que o que agente percebe é que toda vez que a atividade econômica tem qualquer tipo de revés é a propaganda quem paga a primeira conta. E quando o mercado começa a pulsar de novo, eu digo também – aí fazendo justiça- que é o primeiro setor que responde. Este é um enigma que os publicitários não conseguiram ainda vencer e outras coisitas mais como, por exemplo, no verão se diminui de anunciar. E o verão é a época propícia para consumo e normalmente os anunciantes, fora aqueles clássicos tradicionais de bebidas e coisas relacionadas, baixam os investimentos nesta área e época, o que também é inexplicável, Mas agente vai acabar um dia fazendo as empresas e anunciantes entenderem que a propaganda é verdadeiramente aquilo que melhor se definiu e se conceituou sobre a sua existente: A propaganda é a alma do negócio.

 

DADOS SOBRE FERNANDO BARROS

 

Fernando Barros nasceu em 16 de agosto de 1952 em Feira de Santana. Aos 19 anos, no ano de 1971, ingressou na Escola de Comunicação da UFBA, onde cursou Jornalismo, e simultaneamente começou a trabalhar na Norton Publicidade, filial da Bahia. Em 1973 ingressou na Faculdade de Administração e Gerência de Negócios e mudou de emprego, indo trabalhar na GFM-Propeg, como Executivo de Atendimento, tendo sido logo promovido a Diretor de Atendimento e, em seguida, a Vice-Presidente Executivo, passando a assumir a Presidência da Propeg Bahia em 1990 e também a Presidência da Propeg Brasília em 1997. Ao longo de sua carreira, tem participado de vários cursos e seminários, entre eles, o Fórum Harvard de Alta Administração e Seminário Internacional de Consultoria de Propaganda, além de proferir palestras em diversos seminários, ciclos de Marketing e Propaganda e Marketing Político em diversos Estados brasileiros. Publicitário do Ano pelo Prêmio Colunista Norte/Nordeste 1986 e 1998.  Barros é responsável pelo planejamento de comunicação e criação de inúmeros projetos de marketing de sucesso para grandes empresas e entidades e, principalmente, para os Governos Estadual e Federal. Tem recebido também várias láureas e premiações diversas tanto em nível regional como nacional. Fernando Barros, além de ser Especialista em Marketing de Serviços e de Governo, concebeu e gerenciou, entre outros, o plano de marketing que apoiou o uso de energia elétrica para a Casa Civil da Presidência da República que transformou o que seria um percalço administrativo num “case” de sucesso. Já foi presidente da ABAP – Associação Brasileira de Agência de Propaganda – Capítulo Bahia, e atualmente é Diretor-Conselheiro da Associação Comercial da Bahia. O Jornalista, Publicitário e especialista em Marketing Fernando Barros é, desde janeiro de 2003, o acionista majoritário da maior agência de publicidade da Bahia, a Propeg, que se destaca entre as 15 maiores do Brasil.

 

A HISTÓRIA DE SUCESSO DA PROPEG

 

A Propeg foi fundada em 1965 com o nome de GFM-Propeg. Com 39 anos de atuação no mercado, é hoje uma das mais tradicionais agências de publicidade do País.

Em 1990, a Propeg criou o “Projeto Brasil”, iniciando a formação de uma rede de agências de publicidade e outras empresas de comunicação de marketing, que operavam nos principais mercados do País. O projeto tinha um prazo de dez anos para ser realizado e um objetivo: constituir, em cada novo mercado e em associação com um ou mais profissionais locais, uma nova agência local.

O projeto atingiu sua meta: a Propeg tornou-se a agência de mais ampla atuação no país, presente em dez dos mais importantes mercados brasileiros, que representavam 84% do PIB nacional.

Em 2001, a Propeg deixou de ser a denominação de uma empresa para ser a marca da agência: a Propeg Comunicação Social e Mercadológica “Ltda”. Transformou-se em “Rede Interamericana de Comunicação S/A.

O principal objetivo da mudança foi permitir que a empresa operasse outras marcas e redes de agências, além da Propeg. Assim, foram criadas a NBS, com atuação no Rio de Janeiro e a Multicomm, em São Paulo.

Desde janeiro de 2003, sob o controle acionário de Fernando Barros, a Propeg está presente nas cidades de Brasília, Curitiba, Florianópolis e Salvador. Hoje a Propeg é a maior agência de publicidade do Nordeste e está entre as cinco maiores agências de publicidade de Brasília. Na região Sul, a Propeg opera desde 1999, em associação com José Alberto Vivas. Com sede em Curitiba e filial em Florianópolis, em apenas cinco anos já está entre as quatro maiores agências do Paraná e entre as dez maiores da região Sul.

A Propeg é hoje a maior agência brasileira de atuação regional, com investimentos em mídia superiores a R$ 131 milhões (dados referente ao ano de 2002), atendendo importantes clientes nas áreas pública e privada.

Nas cidades onde atua, a Propeg hoje possui, entre outros, os seguintes clientes de destaque: Aeroclube Plaza Show, Alphaville Salvador, Big Bem Jóias e Relógios, Coelba, Crystal Plaza Shopping, Bahiatursa, Escola de Teatro Ballet Bolshoi no Brasil, Faculdades Unime Educação, Governo do estado da Bahia, Barigüi Veículos e Ford Center, Grupo Dom Bosco, GVT Telefonia, HSBC Seguros, ISAE/FGV-PR, Loja Insinuante S/A, Ministério de Orçamento e Gestão, Prefeitura municipal de Salvador, Prefeitura Municipal de Camaçari, Prefeitura Municipal de Curitiba, Rede de Hotéis Deville e SEBRAE-PR.

A Propeg é filiada ao CENP desde sua criação, respondendo a todos os pré-requisitos necessários para isto. É também uma das primeiras filiadas á ABAP – Associação Brasileira de Propaganda.

 

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Saturday, January 29, 2005

NILDA SPENCER: UMA HISTÓRIA DEDICADA AO TEATRO

 

 

NILDA SPENCER:

O TEATRO SÓ ME DEU ALEGRIAS

 

SÉRGIO MATTOS

(Entrevista concedida pela atriz baiana Nilda Spencer publicada na revista NEON, edição nº 45, setembro 2004)

 

Nilda Spencer, a embaixatriz do Teatro baiano, com 81 anos, cheia de experiências de uma vida bem vivida, viúva, mãe de duas filhas (Susan e Judy) que lhe deram dois netos, nos recebeu para um bate-papo descontraído. Chegamos à sua residência, no Chame-Chame, às 9 horas do dia 15 de setembro, conforme o combinado. Pretendíamos fazer uma entrevista formal, dentro do espírito que sempre norteou a NEON, de resgatar a memória cultural e artística da Bahia, contribuindo para a preservação dos nossos valores. Lá, entretanto, conversamos sobre vários assuntos motivados pela amizade, por lembranças e devido a alegria, força e vibração que ela costuma irradiar, principalmente quando fala do sonho de sua vida: o Teatro, ao qual dedicou sua vida. Após uma conversar de quase três horas, quando falou de sua experiência como pianista, atriz de teatro, televisão e cinema, ela posou para uma seção de fotos produzidas por Denise Mattos, quando teve a oportunidade de dar um verdadeiro show de expressões faciais que só uma grande atriz, com sua vivência consegue fazer. Isto porque por trás de sua simplicidade ela conhece e domina o sentimento do ser humano com a profundidade de quem é capaz de ver também no fundo da alma das pessoas. Conheço Nilda Spencer há mais de 35 anos, quando ela começou a escrever uma coluna de teatro no jornal Tribuna da Bahia, onde me iniciei como jornalista profissional no ano de 1969. A sua figura, pequena em estatura, sempre me pareceu grande devido à sua simplicidade, cortesia, alegria e firmeza com que manifesta suas opiniões, além da disposição permanente de ajudar as pessoas. Quando ia à redação do jornal, rara era a vez em que não se via cercada para um papo rápido. Isto porque a redação estava repleta de poetas e jovens artistas que integravam a equipe da Geração TB. Uma equipe formada e chefiada por Quintino de Carvalho. Com mais de 40 anos de teatro, Nilda Spencer é um exemplo vivo de uma pessoa realizadora e que continua construindo a história cultural da Bahia. Uma pessoa que soube ter a ousadia de assumir o sonho de ser artista de teatro, além de ser educadora, dando sua contribuição para a formação de novas gerações de atores.

 

 

SÉRGIO MATTOS – Para relaxar um pouco, para que as memórias venham à tona, comece falando um pouco sobre você mesma, suas origens e sua família.

NILDA SPENCER – Eu nasci  no dia 18 de junho de 1923, no bairro do Canela, em Salvador, em um casarão, um solar colonial cheio de varandas, que dava para a atual escola de Teatro. Fui batizada com o nome de Nilda Oliva César. Sou filha de D. Zizi Oliva César e de Elizeu César. Minha mãe era professora e meu pai tesoureiro do Departamento de Águas da cidade, uma pessoa muito honesta e muito elogiada. Minha mãe foi muito rígida com minha educação. Ela gostava muito de português e não deixava passar nada, nem mesmo no cotidiano. Ela ia corrigindo tudo. Minhas recordações de infância são maravilhosas. As lembranças da adolescência são melhores ainda e, depois de madura, só tenho ÓTIMAS lembranças… .Casei-me aos 20 anos de idade com o geólogo americano, Julius Clarence Spencer Jr., que conheci em Mata de São João. Eu não viajava muito para o interior, mas minha avó Mariquinha (Maria Álvares César), morava em Mata de São João e o conheci numa das visitas que fiz. A família de meu pai vinha de Barracão, hoje Rio Real, cidade na fronteira com Sergipe. Minha mãe é da família Oliva. Com relação à minha formação,  estudei inicialmente no Colégio das Sacramentinas, depois fui para a  Escola Jesus Maria José, cujos diretores eram amigos e colegas de minha mãe. Depois fui para o colégio de D. Afrísia Santiago, Nossa Senhora Auxiliadora, depois fui para a Soledade, das Irmãs Insulinas, e posteriormente fiz a Universidade, na Escola de Teatro da UFBA.

 

SM – Tendo estudado em colégios tradicionais e rígidos como o de D. Afrísia qual foi o impacto de sua decisão de estudar e fazer teatro? Qual o impacto no seio familiar e na sociedade da época?

NILDA –  A aceitação não foi muito boa não. Mas, como eu já estava madura e independente quando tomei a decisão… não sofri pressões. Digo isso porque antigamente a independência da mulher vinha com o casamento. Quando decidi fazer teatro, eu já estava casada, tinha mais de 30 anos, e ninguém me segurava mais. Tanto é assim que minha decisão foi uma coisa repentina. Eu me arrumei para sair e comuniquei: Eu vou fazer Teatro e fui…

 

SM – Mas para você tomar uma decisão deste porte tinha que haver algum vínculo que te ligasse ao teatro ou às artes. Quem era a pessoa ou pessoas envolvidas neste processo?

NILDA – Olhe, eu tive muita sorte. Posso dizer isso. Minha mãe gostava de teatro e de ópera. Fui criada ouvindo óperas. Eu até imitava e fazia dublagens em casa. Quando me ouvia fazendo dublagens, minha avó comentava: “Esta danadinha tem uma voz muito bonita!”. Desta forma, com dez anos de idade eu já mostrava que tinha uma tendência artística…

 

SM – E as dublagens, houve alguma apresentação profissional?

NILDA – Sim houve uma. Eu fui a primeira pessoa a fazer dublagem na Bahia, cantando “Summer Time”. Eu coloquei o Mário Gusmão, deitado, de frauda, em meu colo. Eu me apresentei toda pintada de preto. A apresentação foi um sucesso. O reitor Edgard Santos ficou tão entusiasmado que ao final subiu ao placo e me abraçou. Como ele estava todo de branco, ficou todo sujo. Isto ocorreu no dia 13 de junho na festa oficial de inauguração do Teatro Santo Antonio em 1958.

 

SM – Desculpe-me Nilda, por tê-la interrompida. Você estava falando sobre a influência, direta ou indireta, de sua mãe em sua formação…

NILDA – Pois é, minha mãe falava muito, em casa, da época do Teatro do Politeama, do Teatro São João e também dos incêndios. Aliás, até o Teatro Castro Alves também já foi destruído pelo fogo. De certa forma eu sempre estive envolvida com o meio artístico, pois minha mãe sempre me levava para assistir aos concertos de D. Alexandrina Ramalho. Fui educada para ser pianista.

 

SM – E toca alguma coisa ainda hoje?

NILDA – Nada! Mas cheguei a ter um iniciozinho de sucesso e se não fosse o teatro…Eu cheguei a dar alguns concertos com colegas como Manuel Veiga e outros. Do grupo, Veiga  foi o que seguiu mesmo a carreira e hoje é maestro.

 

SM – É, eu sei que você chegou a realizar alguns concertos públicos. Como foi isto?

NILDA – Na década de 40 (do século passado) fiz pequenos recitais pela cidade, incluindo as missas de natal. O maior deles foi o recital que fiz em homenagem à Força Expedicionária Brasileira, em 1945, no Clube Bahiana de Tênis.

 

SM – Você também realizou concertos fora do país?

NILDA – Fiz alguns concertos nos Estados Unidos e na Venezuela. Quando a guerra acabou eu me encontrava nos Estados Unidos e fui convidada a realizar concertos para os soldados americanos feridos na guerra. Mas o meu destino era mesmo o teatro.

 

SM – Sua experiência de pianista ficou nisto ou teve algum envolvimento no próprio teatro?

NILDA – Não, não…eu fiz várias composições também. Fazia composições para as peças de Martim Gonçalves e para várias peças infantis.

 

SM – Como começou sua experiência com o teatro propriamente dito?

NILDA – Começou  quando Martim Gonçalves veio para a Bahia, a convite do Dr. Edgard Santos, Reitor da UFBA, para fundar a Escola de Teatro.  Genaro de Carvalho(artista e tapeceiro), que vivia insistindo e dizendo que eu devia me profissionalizar devido ao meu talento (ela costumava  imitar,  além dos astros de Hollywood, políticos locais e outras pessoas em reuniões sociais), foi quem me apresentou a Martim Gonçalves. Um dia, Genaro disse que era amigo de Martim Gonçalves e que ia lhe oferecer um coquetel de boas vindas e gostaria de contar com minha presença. Fui ao coquetel e quando lá cheguei não tinha nenhum outro convidado além de mim  e de Martim Gonçalves. O coquetel foi uma armadilha criada por Genaro para  me apresentar a Martim. Conversamos muito e ele me convidou para fazer uma Leitura de Peça no outro dia. Quando lá cheguei já tinha até um lugar para mim na peça “O Alto da Cananéia”, de Gil Vicente, que o grupo dirigido por ele estava ensaiando. Esta peça teve estréia em 1956 na Igreja de Santa Tereza , inclusive com um tropeço meu no palco, que havia sido construído só para aquela apresentação. Depois do tropeço tudo correu direitinho e eu comecei a freqüentar a Escola de Teatro que na época funcionava no porão da Reitoria da UFBA. A Bahia tinha uma tradição de teatro, mas a vida teatral estava parada já há alguns anos.

 

SM – Depois de “O Alto da Cananéia”, qual foi peça que marcou definitivamente a atriz Nilda para que ela continuasse nos palcos?

NILDA – Bom, eu continuei acompanhando Martim Gonçalves nas aulas públicas que ele dava no porão da Reitoria, quando começou a formar um público nos domingos à noite. Ele dava as aulas, eu freqüentava as aulas e fazia pequenas cenas de Lorca, de Brecht, entre os  autores mais conhecidos e famosos. As sessões eram abertas ao público nos domingos à noite. No começo tinha pouca gente, cinco ou seis pessoas. Depois foi enchendo até lotar o espaço, pois as aulas públicas caíram no conhecimento dos estudantes e do público em geral e a assistência passou a lotar o espaço. Martim era muito esperto e inteligente. Ele promovia estas aulas públicas enquanto estavam reformando o Solar Santo Antonio que havia sido comprado pela UFBA e transformado, posteriormente, na Escola de Teatro, em l956. O Teatro Santo Antonio (hoje rebatizado com o nome Teatro Martim Gonçalves) foi inaugurado, no ano de 1958, com a peça “Senhorita Julia”, de Strindberg, onde eu fazia o papel de Cristina, uma empregada. Um papel muito forte, contracenando com dois atores profissionais: Antonio Patinho e Ana Edller, que era nossa professora de Dicção. Ana era uma pessoa fantástica e depois que casou com um americano foi morar nos Estados Unidos onde morreu há uns dois anos.

 

SM – É , eu tive a oportunidade de conhecê-la lá nos Estados Unidos, onde estava fazendo meus estudos de pós graduação. Ela morava na cidade de Pittsburgh, na Pennsylvania e em 1978 eu a entrevistei, publicando uma longa matéria no jornal A Tarde. A reportagem repercutiu no meio teatral baiano, pois João Augusto não gostou muito de algumas coisas que ela disse na matéria…

NILDA – não…o problema é que tinha havido uma briga na Escola de Teatro envolvendo o grupo de Martim Gonçalves e o de João Augusto. A reação de João Augusto deve ter sido por isso…

 

SM –  Com a inauguração da Escola e logo depois do Teatro Santo Antonio como ficou sua vida em relação à prática teatral?

NILDA –  Com a inauguração oficial da Escola eu passei a estudar teatro com os melhores professores que Martim Gonçalves trazia do sul do país. A Escola de Teatro da Bahia foi a primeira do gênero a ser criada no país e eu integrei a primeira turma diplomada no ano de 1959. Da turma, além de mim faziam parte: João Gama, Sonia dos Humildes, Jurema Pena, Lia Mara, Roberto Assis, Othoniel Serra, Maria Ivandete e Julieta Bispo.

 

SM – Pensei que Othon Bastos e Carlos Petrovich fizessem parte deste grupo também…
NILDA
– É faziam. Como disse houve uma cisão interna, entre os professores, na Escola de Teatro, o que levou alguns alunos, pouco tempo antes da formatura, entre eles, Carlos Petrovich, Sônia Robato e Othon Bastos a recusarem a diplomação e seguirem o grupo de professores (João Augusto, Gianni Ratto e Dometila Amaral) que rompeu com a direção da escola. Estes alunos sob a liderança de João Augusto fundaram depois o Teatro dos Novos.

 

SM –  Sim, mas o importante é que Martim Gonçalves foi  responsável pela formação de uma inteira geração de atores de teatro na Bahia…

NILDA – Sim, uma geração muito bem formada.

 

SM – E com João Augusto você também trabalhou?

NILDA – Sim, também trabalhei com ele. Fui e continuo sendo fã dele. Fiz O Grego e  Quincas Berro D’Água sob a direção dele.

 

SM – João Augusto me faz lembrar de minha experiência com teatro, no Colégio da Bahia – Central, quando integrava a equipe do GATEB. De nosso grupo de teatro amador saiu muita gente que se profissionalizou no teatro. Na época participavam do grupo, eu (Sérgio Mattos), Haroldo Cardoso, Zoroastro Santanna, Carlos Sarno, Angelo Oliva, Francisco Ribeiro Neto, Jurema , Rute e outros. Era um grupo bem eclético…
NILDA
– E você, Sérgio Mattos, por que desistiu do teatro?

 

SM – Fiz a opção pelo jornalismo, mas vejo que um dos diretores do grupo, o Haroldo Cardoso, também dirigiu você em algumas montagens, não é?

NILDA – É verdade, ainda esta semana falei com o Haroldo. Ele me dirigiu numa peça de Moliére, “Dotô Roda”, no Teatro Vila Velha.

 

SM – O período entre meados da década de 50 e toda a década de 60 do século passado,  foi de total efervecência cultural na Bahia. Um movimento cultural promovido, principalmente, pela Universidade idealizada por Edgard Santos, que coincide com o crescimento do cinema aqui na terra. Na época, você  não se envolveu também com o cinema por que?

NILDA – Olha, o Glauber Rocha não saia lá da Escola de Teatro. Ele ia muito lá, juntamente com Calasans Neto – o pessoal da Geração Mapa. Martin Gonçalves gostava muito de Glauber, mas eu nunca tinha pensado em fazer cinema, o meu negócio era mesmo o teatro. Certo dia, Glauber me perguntou se eu não tinha vontade de fazer cinema e eu respondi que não, pois não estava disposta a viajar para o interior e beber água com sapinho dentro, como aconteceu com Sonia dos Humildes. Vou nada… eu quero mesmo é fazer teatro. Apesar disso, eu também fiz cinema. Minha primeira experiência no cinema foi no ano de 1968, com “Juliana e D. Jorge”, um filme de Fred Souza Castro e Oscar Santana, filmado em Santo Amaro da Purificação, mas o filme nunca saiu da prateleira.

 

SM – Mas você participou de outros filmes, inclusive um de grande sucesso de crítica e de público…

NILDA – É. Luis Carlos Barreto era muito meu amigo e freqüentava minha casa. Por conta disso surgiu o convite de Bruno Barreto que estava filmando aqui, em Salvador,  o “Dona Flor e Seus Dois Maridos” e ele acabou me chamando para integrar o elenco de “Dona Flor…”.

 

SM – Você ganhou dinheiro com o sucesso de “Dona Flor”?

NILDA – Não. Na verdade eu nunca pensei em fazer teatro e cinema por causa de dinheiro…

 

SM – Pelo que sei, em “Dona Flor” você ia participar com um personagem menor, que  acabou crescendo. O que houve?

NILDA – Em “Dona Flor” eu ia ter apenas uma fala. Somente uma fala, mas o Bruno foi gostando e aumentando meu papel que acabou sendo o segundo papel feminino no filme. Eu nem me dei conta de que isto era muito bom nem nada. Eu era tão desligada…  ainda sou. Eu estava achando tudo muito bom, maravilhoso. Depois deste filme recebi o convite para fazer mais um.

 

SM – Qual foi?

NILDA – O Nelson Pereira dos Santos me chamou para fazer “Tenda dos Milagres”. E depois dele ainda participei de um outro, de Edgard Navarro, que me convidou para trabalhar em “O Super Outro”.

 

SM – Além destes, você também participou de várias outras produções locais, curtas metragens e outros de caráter experimental, não é mesmo?

NILDA – É verdade. Participei de “Meteorango Kid”, filme dirigido por André Luis Oliveira; “Caveira My Friend”, de Álvaro Guimarães; “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de André Klotzel; “O Boca do Inferno”, de Póla Ribeiro; “A Baixa dos Sapateiros” que contou também com a participação de Carlos Petrovich,  e  “Adela”, de Elísio Lopes Jr. Além destes teve também um filme italiano: “Rebelião dos Brutos”.

 

SM – E na Televisão, Nilda, qual foi sua participação? Você não aproveitou aquela onda com a chegada da TV Itapoan na Bahia?

NILDA – Não. Quem trabalhou muito na TV Itapoan foi a Sonia dos Humildes. Ela chegou até a fazer um programa com o Cícero Schinneider, “Catavento”. Eu nunca fiz nada na televisão local. Eu era muito entrevistada, mas nunca fiz programas.

 

SM – Mas já trabalhou em televisão também, não foi mesmo?

NILDA – Sim , é verdade. Eu fiz uma novela, “Rosa Baiana”, da TV Bandeirantes, rodada na Bahia. Eu e o Harildo Déda, quando fomos destacados como os melhores atores da novela.

 

SM – Teve outras experiências com televisão além desta?

NILDA – Sim. Participei de duas minisséries da Globo: “Tenda dos Milagres”, em 1984, e “O Pagador de Promessas”, em 1985.

 

SM – Com relação ao teatro, quanta peças você encenou? E quais as mais importantes?

NILDA – O total foi de 70 peças. A primeira, como já foi dito, foi o “Auto da Cananéia”, em 1956, e a penúltima, um grande sucesso de público, foi “Ensina-me a viver”, no ano de 2000. Este ano, participei de “1,99”. Entre estas encenei várias outras tais como: “Senhoria Julia”, “Morte e Vida Severina”, “A Falecida”, “A Companhia das Índias”, “A Exceção e a Regra”, “Lábios que Beijei”…

 

SM – “Ensina-me a viver” realmente fez muito sucesso…

NILDA – É ficou dois anos em cartaz, obedecendo um rodízio natural para dar espaço a outras montagens. É uma peça de Collin Higens. A peça conta a história de um amor entre um jovem de 18 anos e uma mulher de 80 anos de idade.  Foi nesta peça que pela primeira vez, no palco, beijei na boca de um ator (Lucas Valadares). Foi uma nova experiência de vida para mim e curti muito. Gostei muito de participar desta peça que ficou dois anos em cartaz na sala do Coro do TCA. Houve um dia que teve apresentação especial só para o pessoal da terceira idade e as pessoas curtiram muito, todo mundo queria também viver um amor igual. A peça foi muito aplaudida e bem recebida pela crítica. Até hoje as pessoas me param na rua para pedir autógrafos…

 

SM – Nilda, você também integrou o quadro de professores da Escola de Teatro, não foi?

NILDA – Sim, eu assumi a função de professora da Escola logo depois de formada, como assistente de Ana Edller, como professora de Dicção. Depois fui diretora da escola por quatro vezes, sempre eleita por unanimidade. Ensinei de 1961 a 1985 quando me aposentei. Depois de aposentada não tenho mais tempo para nada, tenho sido muito requisitada para compor comissões, júris, inaugurações, etc. Atualmente sou presidente da Câmara de Cultura Contemporânea do Conselho Estadual de Cultura, que mantem duas reuniões semanais.

 

SM – Como educadora que outras experiências você teve?

NILDA – Como já foi dito fui professora de Dicção e diretora da Escola de Teatro da UFBA, mas fui também professora da Universidade Federal de Sergipe; professora de dicção de emissoras de rádio e de televisão aqui na Bahia; autora de artigos especializados em revistas acadêmicas-universitárias; organizadora de inúmeros seminários de teatro, conferencista, além de tradutora oficial da Escola de Teatro por ocasião de visita de diretores de outros países durantes muitos anos, além de outras atividades..

 

SM – Como é que você virou colunista de Teatro da Tribuna da Bahia?

NILDA – Eu estava dando aulas de dicção para Quintino Carvalho, que tinha um programa na TV Aratu um pouco antes da Tribuna começar a circular e ele me convidou para escrever. Eu aceitei, começando em 1969 e permaneci na função até o ano de 2000 sem nunca ter deixado de escrever um único dia reservado à minha coluna.

 

SM – Você já pensou em reunir estas crônicas em um livro, resgatando assim parte da historia contemporânea do teatro baiano?

NILDA – É tem muita gente me procurando para eu fazer isto, mas…

 

SM – Nilda, é importante que isto seja feito. Se não for você, autorize alguém para realizar a tarefa. Acredito que até o Governo do Estado ou o próprio Conselho de Cultura deveria promover a produção deste livro.

NILDA – É…

 

SM – O fato de você ter escrito uma coluna de teatro por mais de 30 anos me leva a uma outra pergunta. Antigamente a mídia local estava cheia de colunas de teatro e de cinema. Os jornais faziam uma forte cobertura dos eventos culturais. O que foi que aconteceu? Hoje já não encontramos a mesma cobertura?

NILDA – É verdade, todos os jornais tinham colunas de teatro e as estréias eram verdadeiros acontecimentos com grande cobertura por parte dos jornais que dedicavam muito espaço aos eventos teatrais.

 

SM – Qual foi o momento mais difícil que você já teve em palco?

NILDA – Para mim no palco nada foi difícil. Tudo era muito fácil e natural como respirar. Quando assumo um personagem, parece até sessão espírita, pois enquanto estou no palco, incorporo o personagem, mas ao sair do palco me desligo. Volto a ser Nilda, mudo a roupa e vou para a noite.

 

SM – Como é que você assume o personagem e logo depois se desliga?

NILDA – Quando estou no palco não vejo ninguém na platéia, pois assumo mesmo a vida do personagem. Para assumir o mundo do personagem preciso de muita concentração e sem conversas entro no palco. O personagem é estudado e construído nos ensaios pelo ator e diretor. Temos que ensaiar muito para amadurecer o personagem e incorporar sua maneira de ser, de falar, de gesticular e de se vestir.

 

SM – Você sempre participou ativamente da boemia e das noites baianas. Quem eram seus companheiros?

NILDA – O poeta Jeovah de Carvalho sempre esteve por perto com seu vozeirão declamando poemas. Ele era um grande companheiro das noites. Cito ainda Afonso Coentro e Yan Sobanski. Freqüentei muito o Varandá (no Pau da Bandeira) e a Cantina 292 (no Dique do Tororó), mas nunca freqüentei nem o Tabarís nem o Rumba Dancing. Geralmente saíamos para a noite depois de encontros em minha casa onde costumava, a partir de sexta feira, oferecer uma open house, com comidas e bebidas.Minha casa era um ponto de encontro cultural.

 

SM – Como eram estas festas, open house. Sei que muita gente famosa andou por sua casa, inclusive Janis Joplin.

NILDA – Pois é. Eu morava no corredor da Vitória, bem em frente ao Museu Costa Pinto, e às minhas festas compareciam sempre pessoas ligadas às artes como Vinicius de Moraes,  João Gilberto, e até mesmo Janis Joplin, que era amiga de minha filha Judy. Porém quando ela veio para a Bahia para ficar em minha casa eu estava no Rio de Janeiro e não nos vimos pessoalmente. Janis Joplin foi lá para minha casa, mas a imprensa começou a persegui-la…

 

SM – … inclusive eu que havia sido contratado pela revista Veja, como free-lancer, para fazer a cobertura de Janis Joplin, na Bahia, juntamente com outro jornalista, o Ivan Leão, e não conseguimos nada. Quando chegávamos a um local ela já havia saído e ficamos apenas com as sobras, resgatando e descrevendo o que ela havia feito. Estávamos sempre chegando atrasado…

NILDA – … você também a perseguiu não é? Aí levaram-na para a casa de Luis Fernando Martins, que ficava na Paciência, no Rio Vermelho…


SM – Eu também morava lá, no bairro dos artista…

NILDA – É mesmo, o Rio Vermelho era o bairro do artistas…Janis Joplin foi levada então para a casa de Luis Fernando Martins, um pintor que hoje mora na Espanha e tem uma casa em Abrantes. Assim ela passou por lá, mas não ficou hospedada em minha casa e depois da casa de Luis Fernando foi para Arembepe.

 

SM – Entre as pessoas que você ajudou, tem algum nome famoso?

NILDA – Muita gente, mas tem um caso curioso e que já posso revelar porque já não é mais segredo, pois tanto ela quanto o irmão já contaram o episódio, ou seja o fato de ter sido eu a ter feito os contatos para que Bethânia substituísse Nara Lerão, que estava doente,  no show “Opinião”.  Um dia estava em casa e o Vianinha, o  Oduvaldo Viana Filho,  me telefonou perguntando se conhecia uma moça chamada Maria Bethânia e eu disse que conhecia e que ela estaria indo imediatamente para o Rio para substituir a Nara. Garanti que Bethânia podia ir e fui falar com D. Canô (que amanhã, dia 16/09 está completando 97 anos), mas ela criou alguns obstáculos no início dizendo que  “ela era de menor,  tinha apenas 17 anos e ainda tinha perdido matemática”. Depois de muita conversa ela aceitou desde que Caetano a acompanhasse. Ainda tive que comprar as passagens dos dois e a minha, a prazo, nas mãos de Fernando Conde, dono da agência Conde Turismo. Depois telefonei para Vianinha e disse que Bethânia ia acompanhada de Caetano, solicitando também que ele incluísse algumas músicas dele no show, no que fui atendida. Fui assistir a estréia de Bethânia e tudo foi um sucesso.

 

SM – Para finalizar, Nilda, que conselho você pode dar às pessoas para que elas tenham a sua força, determinação e alegria?

NILDA – O conselho que dou é que as pessoas façam o que  tiver vontade, no bom sentido. Além disso, só tenho a agradecer a todos, pois todo mundo aqui na Bahia sempre foi muito

carinhoso comigo.

 

 

OPINIÕES SOBRE NILDA SPENCER

 

Por ocasião das comemorações dos 40 anos de Teatro de Nilda Spencer, que coincide também com os 40 anos de fundação da Escola de Teatro da UFBA, a Secretaria da Cultura publicou um folheto no qual reúne várias opiniões sobre a importância do trabalho desta atriz para a solidificação do teatro na Bahia. Eis abaixo algumas opiniões:

 

Ewald Hackler: “Nilda faz parte daquele clube muito seleto dos atores realmente grandes – aqueles que sabem voar. Ela traduz a mais vaga sugestão do diretor numa ação teatral, inspirada e precisa. Ela é única”.

 

Harildo Déda: “Nilda Spencer é o que os americanos chamam de “Old Trooper” aquela que está sempre lá ao seu lado, pronta sempre a lhe ajudar, trabalhando sempre com um sorriso e, ao mesmo tempo, com a qualidade de estrela que engrandece com seu brilho a quem trabalha com ela”.

 

Deolindo Checcucci: “O talento de Nilda tem se consolidado nos palcos, assim como na vida, com uma alegria contagiante para todos os que têm a felicidade de tê-la como amiga”.

 

Ildásio Tavares: “Ninguém é insubstituível no teatro baiano, exceto Nilda Spencer – seu talento, seu caráter e acima de tudo, o carinho que dedicou a tudo e a todos fazem-na uma personalidade – insubstituível – de nossa cultura, da Bahia, que tão bem ela representa.”

 

Paulo Atto: “Ensinar pelo exemplo através de sua trajetória é uma das maiores qualidades da nossa Nilda Spencer, na qual vemos o prazer da entrega a um oficio tão duro e belo, que teceu e tece com sua presença nos palcos uma parte importante da nossa memória cultural, na qual a ética e a estética estão irmanadas numa criatura ímpar. Nilda é mais um presente de Dionísio para a terra de todos os santos”.

 

Márcio Meirelles: “Nilda, quantos personagens à sua procura… quantos autores… diretores, atores, atrizes… quantos cenários e figurinos e canções… quanto prazer e quanta beleza dependendo de você. Nos palcos desta vida, onde reinas absoluta”.

 

Eduardo Cabús: “Tímida, alegre, cheia de vida – características de uma atriz de grande talento”.

 

Guilherme Simões: “Tudo é quase óbvio: em ambos os palcos, no da vida e no do teatro, Nilda só é alegria, carinho, amiga de fé, caráter, um se dar interminável para que as coisas aconteçam bem. Por isso falar da neta de D. Mariquinha Cézar é exaltar o óbvio ou “antes disso, depois disso, diante disso tudo existe o amor que, como a lua, resiste a todos os poemas e abençoa todos os pântanos…”.

 

 

 

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Wednesday, January 26, 2005

O PAPEL SOCIAL DO RÁDIO

O PAPEL SOCIAL DO RÁDIO:

A Mão dupla da comunicação

 

 

 

Sérgio Mattos (*)

 

 

Neste trabalho, inconclusivo, reunimos uma série de opiniões de caráter pessoal a partir da observação sobre como este veículo tem atuado na sociedade independentemente de ser público ou privado. Isto porque, de acordo com a Constituição Brasileira de 1988, teoricamente, todas as emissoras de rádio e de televisão deveriam ser educativas.

 

O objetivo deste paper, portanto, é levantar questões que nos levem a refletir sobre qual é o papel social das emissoras de rádio educativas que, sob meu ponto de vista, devem antes de qualquer coisa assumir a função de serem instrumentos voltados para a prestação de serviços à comunidade, valorizando a cidadania e garantindo a preservação e renovação dos nossos valores culturais, nacionais e regionais, por meio de programação diferenciada e de qualidade, formando e informando o público a construir uma visão crítica do mundo real.

Pela própria natureza e vocação, as emissoras educativas de Rádio e de Televisão são veículos segmentados voltados para a promoção da educação, da informação e da cultura regional. Por suas características não-hegemônicas, e não-comerciais, suas programações devem ser abertas e

plurais. Ocupando cada vez mais os segmentos não atingidos pelas emissoras comerciais.  Valorizando os segmentos alternativos elas crescerão em importância e em audiência, pois o futuro aponta não apenas para a convergência das mídias, mas principalmente para a segmentação do mercado (Porcello, 2002).

 

Enquanto a tendência por uma programação especializada e segmentada voltada para a audiência de grupos e não mais para todo o público já está exigindo das emissoras comerciais novos investimentos e reconfigurações mercadológicas de suas programações, as emissoras educativas já contam com a vantagem de já estarem classificadas e identificadas como alternativa de audiência. E exatamente por isso poderão cumprir com mais afinco a sua missão de elevar o nível cultural da população, participando ativamente dos movimentos culturais e educativos regionais, fugindo assim da praga de ser apenas mais uma emissora de rádio-vitrolão, ou seja, que executa apenas música.

 

Desta forma o principal compromisso das emissoras educativas é prestar um serviço público especial e de qualidade, transformando a informação em conhecimento, transmitindo e conservando o saber, preservando e valorizando a identidade cultural da comunidade onde está inserida.  Por outro lado, considerando que as emissoras educativas não têm identidade própria, uma vez que sofrem constantes interferências marcadas pelas mudanças políticas e ideológicas, o nosso principal desafio é o de NÃO permitir que as tendências do mercado interfiram na nossa missão social, cultural e educacional, atingindo os resultados finais da produção dos programas transmitidos.

 

Não podemos permitir, também, que esse recente processo de segmentação no rádio comercial venha, em um futuro próximo, a interferir na linguagem e conteúdos das emissoras educativas. Apesar de possuírem programação específica, as educativas ainda usam e abusam dos mesmos modelos existentes e praticados pelas comerciais, no que se refere às condições e formas de produção e distribuição da informação. Devemos, pois, buscar novas alternativas para vencermos estas limitações de linguagem e distribuição de conteúdos. A saída diferenciada para as emissoras educativas é apostarmos na nossa função cultural, educativa e social, acompanhando de perto o processo de mudanças que se desenrolam em todas as áreas de atividades da sociedade, exercendo um papel retroalimentador nesse processo, ajudando o cidadão a se redimensionar dentro do novo contexto de mudanças culturais provocadas pelas novas tecnologias.

 

Para melhor entendimento dos objetivos desta apresentação, este trabalho está dividido em cinco partes: 1) esta Introdução; 2) Mídia Rádio – um breve panorama da situação do rádio no Brasil; 3) Interatividade e Integração Regional – um destaque para o veículo como meio de integração; 4) Rádios Virtuais – perspectivas futuras para este meio; e, 5) Estratégias e Políticas – listagem de algumas sugestões para reflexão visando à definição de políticas para o setor.

 

Devemos ainda esclarecer que, sob meu de vista, todo e qualquer veículo de comunicação tem sua própria audiência, independente daquela aferida pelos institutos de pesquisa de opinião. Assim sendo, para efeito deste trabalho, quando afirmamos que as emissoras educativas não devem estar preocupadas com a audiência, estaremos nos referindo ao fato de que uma produção educativa não pode ficar presa ou seguir os mesmos critérios e valores adotados pela produção das emissoras comerciais que, antes de qualquer coisa, buscam aumentar a audiência para obter maiores lucros.

 

Entendemos ainda por programação de qualidade para as emissoras educativas/públicas, aquela que atende os pré-requisitos básicos, não apenas de caráter técnico de produção, mas também de conteúdos voltados para o cumprimento das funções culturais, educativas e sociais destas emissoras conforme estabelecido pela Constituição de 1988. Um programa de qualidade comercial, por outro lado, é aquele que, usando de todos os recursos e possibilidades técnicas permitidas pelo avanço tecnológico, atende prioritariamente aos objetivos e apelos comerciais voltados para captar altos índices de audiência, visando à obtenção de um lucro cada vez maior.

 

 

MÍDIA RÁDIO

 

O sistema brasileiro de radiodifusão é uma atividade eminentemente privada e tem desempenhado relevante papel na integração nacional, contribuindo para que o cidadão aumente sua participação na vida política e social do País. A radiodifusão é considerada um serviço público, sobre o qual o governo exerce controle desde 1922 quando da primeira transmissão realizada no País. Através de suas agências regulamentadoras e da legislação existente o Estado tem exercido não apenas um controle direto sobre a mídia eletrônica, como também a tem utilizado para sua legitimação e difusão de sua ideologia (Mattos, 1996 e 2002).

 

Desde seu advento no País que o rádio tem exercido relevante papel como meio de integração nacional. Um papel tão importante quanto o da televisão.  O interesse do Estado em controlar estes meios se explica em função da sua grande penetração social. Hoje o rádio é o meio que detém a maior audiência no Brasil. Segundo dados estatísticos do IBGE, mais de 90% das residências brasileira já estão equipadas com aparelhos de rádio.

 

Tendo em vista todo o potencial deste veículo, como também da Televisão, o governo, até a promulgação da Constituição de 1988, usou a concessão de licenças para exploração de canais de rádio ou televisão também como um instrumento para facilitar a penetração dos partidos políticos em diferentes regiões (Mattos, 2002). Segundo levantamento da AESP/ABERT, sobre a distribuição da propriedade de emissoras de rádio no País: 40% delas pertencem a políticos, 15% à Igreja Católica, 20% às evangélicas e o restante está distribuído entre as rádios profissionais e estatais.

 

O planejamento da distribuição de estações de rádio e de televisão demonstra a expectativa do governo de vir a cobrir todo o território nacional, promovendo a integração nacional e a integridade territorial.

O número de estações de rádio cresceu de duas, em 1922 para 3.200 em 2003, sendo que este total deverá ser 6.899 dentro dos próximos 18 anos. Segundo o Plano Básico de Freqüência Modulada (PBFM) do Ministério das Comunicações das 3.200 estações pouco mais de 1.300 estão efetivamente em operação.  O Ministério está identificando e levantando as regiões que ainda comportam novas emissoras porque o crescimento do número total de emissoras será possível devido à era digital.

 

A perspectiva de adoção do padrão de transmissão digital para o rádio e a televisão, juntamente com a aprovação do projeto que permite a entrada do capital estrangeiro nas empresas de comunicação marcam o início de uma nova fase para a mídia eletrônica brasileira, pois a partir de agora vamos assistir a uma grande mudança no perfil dos proprietários das emissoras e veículos de comunicação de um modo geral com influência decisiva nos processos de trabalho, relações de emprego e de conteúdos a serem transmitidos. Aliás, é bom salientar que estes dois itens, a tecnologia de transmissão digital e a abertura ao capital estrangeiro, nos abrem novas oportunidades para se discutir e se repensar o papel da radiodifusão no Brasil.

 

Segundo pesquisas recentes, o rádio continua sendo o veículo de maior credibilidade para milhões de brasileiros porque ele é ágil, interativo, participativo e polêmico.  O rádio, além de ter tido, nos últimos cinco anos, um crescimento de audiência de 44%, é a mídia que apresenta maior índice de satisfação do público: alcançou 73%.  No Nordeste existem mais de 10 milhões de aparelhos de rádio e 678 emissoras que cobrem 90% dos domicílios da região.  Na Bahia, mais especificamente estão instadas 185 emissoras de radio.

 

INTERATIVIDADE e INTEGRAÇÃO REGIONAL

 

Em um ensaio intitulado “O Rádio como instrumento de comunicação”, Bertolt Brecht escreveu, em 1926, alertando sobre os riscos da unidirecionalidade e da falta de participação coletiva no rádio: “O rádio se tornaria, provavelmente, a melhor aparelhagem da vida pública, uma vasta rede de canais. Isto quer dizer, ele seria isso, se soubesse como receber, assim como sabe transmitir, se soubesse como deixar o ouvinte falar, assim como sabe faze-lo ouvir” (Menezes, 2002, p77).

 

Na verdade, as transmissões radiofônicas não limitam suas mensagens com uma imagem, mas permitem que o ouvinte use sua imaginação, interagindo totalmente com a mensagem recebida que o leva a pensar. Apesar da linguagem do rádio ser temporal,


                  

“isso não significa que o rádio não possa criar imagens, conduzindo a imaginação do ouvinte. A diferença é que essas imagens interiores, produzidas na mente, não podem ser confundidas co,m as imagens que se vê numa tela. São imagens muito mais ricas – podem comportar três dimensões, e também incluir sensações táteis, olfativas, auditivas – e também muito mais econômicas: muitas vezes são dispensadas sem que isso prejudique a comunicação. Ao se ouvir um noticiário, por exemplo, ninguém fica imaginando o rosto do locutor ou o estúdio de onde se fala, porque isso não é importante para a mensagem” (Meditsch, 1997).



Considerando o seu alto poder de comunicabilidade, pode-se inferir que o rádio pode ser o meio mais interativo entre todos os veículos de comunicação, se permitir que o ouvinte participe usando telefone, carta, fax ou e-mail, para opinar, mandar seus recados ou fazer seus pedidos de forma quase que instantânea. Entretanto, com poucas exceções, raramente se permite que o ouvinte faça seu próprio juízo de valor, fazendo um contraponto às opiniões transmitidas pelas emissoras juntamente com as informações contidas nos noticiários. Destaque-se que o segredo do rádio é estar sempre próximo do ouvinte, prestando-lhe serviço de utilidade pública. Por meio de programas informativos, de orientação ou de cunho social, uma emissora de rádio consegue atuar também na mediação das relações de caráter reivindicatórios entre grupos constituídos da sociedade civil e o governo.

 

As emissoras de rádio devem atuar como elemento de integração regional, capaz de destruir barreiras, preconceitos e de reduzir distâncias, transmitindo a sensação de que os espaços entre os lugares são cada vez menores. Como instrumento de integração regional, o rádio é o mais eficiente meio democrático de divulgação de cultura e de utilidade pública. Isto porque este veículo pode e deve exercer o papel de resistência contra a alienação dos valores culturais, preservando os valores e peculiaridades regionais e garantindo a diversidade cultural nacional.

 

RÁDIOS VIRTUAIS

 

O número de rádios virtuais continua crescendo rapidamente. No Brasil, o rádio está na Internet há pouco mais de cinco anos. As emissoras brasileiras já começam a ter uma audiência virtual considerada como bem razoável. A maior vantagem para as emissoras que estão na Internet é que na WEB não existem fronteiras, não existem limitações geográficas e sua programação pode ser captada em qualquer local do planeta, ressalvando-se, naturalmente, as barreiras lingüísticas. Quanto mais rico em serviços de utilidade pública e entretenimento maior é a possibilidade do site da emissora ser acessado.

Apesar de ainda muito incipiente, os registros de acesso às rádios virtuais têm crescido, apontando que este é um dos caminhos para se chegar aos ouvintes que estejam fora do alcance das transmissões da emissora, em outro município, Estado ou País. As possibilidades de se realizar um trabalho social e cultural através deste sistema são inúmeras e ficamos mais na dependência da decisão política de se querer fazer e da criatividade dos profissionais envolvidos na produção dos programas. Este é também um caminho apropriado para aumentar a interatividade e a segmentação dos programas direcionados para públicos específicos.

 

Mesmo não sendo reconhecido oficialmente, a primeira experiência radiofônica no Brasil ocorreu em Recife, no dia 6 de abril de 1919, quando Oscar Moreira Pinto inaugurou a Rádio Clube com um transmissor francês. Para efeitos históricos oficiais, entretanto, a primeira transmissão via rádio no país foi realizada, no Rio de Janeiro, no dia 07 de setembro de 1922, durante os festejos do centenário de nossa independência. Entretanto, consta também que a primeira emissora latino-americana a entrar na WEB foi a Rádio Jornal do Comércio, também de Recife, que fazendo uso da primeira versão do servidor RealAudio da Real/Network colocou, mesmo que de maneira precária, sua programação na Internet.

 

É também de Pernambuco, mais precisamente de Caruaru,  a primeira rádio on-line do interior, o portal www.afolhanet.com.br , que nasceu com o objetivo de unir informações em tempo real e músicas regionais. Esta emissora on-line é uma experiência que vai além da simples disponibilização de sua programação original na rede. A Rádio Afolha apresenta, na WEB, além de outros serviços, boletins diários com notícias locais, nacionais e internacionais produzidas pela equipe de jornalismo do Portal e Jornal A Folha Net.

 

Atualmente, milhares de emissoras de rádio apenas disponibilizam na rede suas programações originais. Os americanos possuem o maior número de emissoras na WEB, seguido pelo Brasil que ocupa a segunda posição entre todos os paises do mundo. Os sites www.radios.com.br  e www.radio-locator.com  apresentam catálogos com centenas de emissoras que podem ser acessadas na Internet, mas nem todas estão ainda transmitindo ao vivo. A maioria das emissoras na Internet disponibiliza na rede a programação das rádios originais. As emissoras educativas, por sua vez, deveriam agir de maneira diferente: aproveitar o espaço para oferecer uma variedade ainda maior das alternativas culturais regionais e de programas educativos específicos, tais como cursos de educação à distância, resgatando assim parte de suas obrigações e funções educacionais que foram abandonadas ao longo dos anos devido às interferências político-administrativas.


Assim sendo, o rádio continua lutando por sua sobrevivência, competindo com outras mídias e tentando ocupar todos os espaços permitidos. De acordo com as perspectivas que apontam para a convergência das mídias de comunicação, o rádio tem o seu próprio espaço e está crescendo na medida em que aumenta a interação com outras formas de produção e distribuição de mensagens, como no caso da Internet.

 

Houve época em que as emissoras regionais de rádio independentes procuravam entrar em rede, associando-se àquelas de prestigio nacional, com o objetivo de reduzir custos operacionais e de garantir uma programação de qualidade comercial, que assegurasse a fidelização da audiência. Muitos erros foram e continuam sendo cometidos no que diz respeito às tentativas de padronização de programação, importando do sul e sudeste para outras regiões do País programações totalmente dissociadas dos interesses e valores culturais locais.

 

A experiência de formação de redes contribuiu para a aumentar a concentração do poder da mídia nas mãos de uns poucos. O modelo de rede adotado não é apropriado ou adaptado para as necessidades das pequenas emissoras de rádio espalhadas por todo o Brasil. Utilizou-se o mesmo modelo das redes de televisão que, de certa forma, além de ignorar os nossos, impõe valores e padrões de programação homogeneizados e espaços publicitários blocados para os grandes anunciantes. As redes nacionais de radio adotaram o sistema de franchising, através do qual as emissoras associadas assumem os mesmos formatos, de programação e comercialização, da emissora cabeça-de-rede com breaks para inserções de anúncios e programas, restritos, muitas vezes, apenas à veiculação de algum noticiário local.

 

Atualmente, estas emissoras independentes estão descobrindo que com a Internet elas não precisam mais ficar a reboque das grandes emissoras. Elas passaram a ter audiência na WEB sem precisar estar atreladas a nenhuma rede ou grupo nacional. Descobriram também que o ouvinte de rádio, principalmente aquele do interior, gosta mesmo é de ouvir as notícias sobre sua cidade ou Estado e as músicas de sua região. Ele gosta, por exemplo, de interagir com os locutores locais, fazendo pedidos musicais e mandando recados.  Esta interatividade aumenta quando as emissoras prestam um serviço de interesse público, com a participação e colaboração direta da população, oferecendo serviços de orientação, ajudando o ouvindo a exercer na comunidade o seu papel de cidadão consciente.

 

Nas rádios comerciais, por exemplo, esta receita de programa interativo está dando certo e muitos foram os proprietários de emissoras que já entenderam e constataram que a experiência de entrar em rede com emissoras nacionais não apresenta os resultados esperados. Se há economia no custo da produção, existem prejuízos com a perda da audiência e até mesmo de faturamento local.

 

Com a crescente influência da Internet sobre o meio rádio, muitos estão se questionando: Será que a convergência das mídias, em um futuro próximo, vai acabar de vez com o rádio?  Quanto a isto, concordo com a opinião de Heródoto Barbeiro, divulgada inclusive na Internet, reafirmando que o meio rádio não está ultrapassado e continua sendo indispensável à vida do dia-a-dia das pessoas.  E que não precisamos temer a Internet, pois o que deverá mudar no futuro é a forma de recepção e de transmissão das mensagens. Os equipamentos que conhecemos hoje é que deixarão de existir e passaremos a ouvir o áudio por outros processos, talvez até mais sofisticados do que os atuais computadores. No futuro, com o desenvolvimento das novas tecnologias, tanto de transmissão como de recepção, que já estão sendo industrializados, poderemos fazer nossa própria programação, escolhendo o que queremos, quando e onde ouviremos.

 

E, prestem bem atenção, este futuro não está muito distante.

 

 

ESTRATÉGIAS E POLÍTICAS

 

Para finalizar, apresentamos, nesta quinta e última parte do trabalho, algumas sugestões que poderão ajudar na definição de poderão ajudar na definição de políticas para o setor da radiodifusão pública. Antes, porém, devemos lembrar que o artigo 221 da Constituição de 1988 apresenta quatro princípios básicos que devem nortear todas as produções e programações das emissoras de rádio e televisão, principalmente as públicas com finalidades educativas. Os princípios são:

                  

                  I – preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas;

 

                  II – promoção da cultura nacional e regional e estimulo à produção independente que objetive sua divulgação;

 

                  III – regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei;

 

                  IV – respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família.

 

Diante da concentração da mídia em mãos de uns poucos grupos e da abertura da mídia brasileira ao capital estrangeiro, compete às emissoras educativas, mais do que nunca, estar atentas para trabalhar no sentido de evitar a padronização de forma e conteúdo das emissoras educativas. Devem sempre levar em consideração as condições sociais locais onde os programas são assistidos, pois esta é a única forma de contribuir para a abertura do universo cultural de nosso povo.

 

Devem lutar para que exista uma regulamentação específica de conteúdo na mídia brasileira, pois devido ao alinhamento das políticas econômicas e sociais ao neoliberalismo, aceitando o status quo estarão apenas contribuindo para enfraquecer a nossa identidade cultural.

 

As emissoras de rádio e televisão educativas não devem se preocupar com os princípios e índices de audiência que norteiam as emissoras comerciais, mas, sim, em prestar um serviço de interesse público de qualidade à população, oferecendo programas educativos e culturais.

 

As emissoras educativas devem produzir e veicular também programas que tenham a finalidade especifica de educar.

 

As emissoras educativas de rádio e televisão, através do IRDEB, devem intensificar a produção de programas locais, aumentando assim o total de horas na grade de programação diária com produções próprias regionais que valorizem e resgatem a memória cultural da Bahia. Entendemos que a implantação do Pólo de Teledramaturgia, um dos projetos do atual governo, com certeza vai fortalecer a produção regional.

 

O radiojornalismo deve ser considerado como um dos programas mais importantes das emissoras educativas, pois podem se impor como o principal canal de informação imparcial da população.

 

As emissoras educativas devem prestar serviços às comunidades sem a preocupação de concorrer com as comerciais. Devem fornecer informações que contribuam para o exercício da cidadania, ajudando a população a conhecer seus direitos e deveres, ensinando e esclarecendo, por exemplo, sobre leis e como e onde obter assistência previdenciária, judiciária e hospitalar.

 

Os produtores de programas culturais considerados de alto nível devem estar conscientes que quando criam este tipo de programa ele terá como público alvo apenas pessoas que já possuem nível cultural elevado. Portanto, também devem produzir programas culturais, menos sofisticados, voltados para aqueles segmentos menos favorecidos da sociedade, de nível cultural menos elevado, não deixando de observar que nestes, a função educativa deve predominar.

 

As emissoras educativas da Bahia devem continuar produzindo programas que resgatem a memória cultural regional, considerados socialmente relevantes, de acordo com as prioridades, a exemplo de projetos de sucesso já produzidos e veiculados tais como os vídeos “Tinharé”, “Recôncavo na Palma da Mão”, “A Natureza da Costa do Dendê”, pela Televisão Educativa da Bahia, e os CDs “Bahia Singular e Plural”, pela Rádio Educadora da Bahia, que são exemplos de produções regionais de valor que atendem às funções e aos compromissos culturais e educativos das emissoras educativas.

 

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

 

MATTOS, Sérgio. O Controle dos Meios de Comunicação. Salvador: EDUFBA, 1996.


MATTOS, Sérgio. História da Televisão Brasileira: uma visão econômica, social e política. Petrópolis: Editora Vozes, 2002.

MEDITSCH, Eduardo. “A Nova era do Rádio: O discurso do radiojornalismo enquanto produto intelectual eletrônico”. Paper apresentado no GT de Rádio durante o XX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, realizado em Santos, São Paulo, 1997.

MENEZES. José Eugênio de Oliveira. “Rádio e cibercultura: contribuições para as teorias dos media”, in Comunicare: Revista de Pesquisa, v.2, nº 2(2002). São Paulo: Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero, 2002, pp. 73 –82.

PORCELLO, Flávio. TV Universitária: limites e possibilidades.Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002.

_________________________

(*) Sérgio Mattos é Professor Doutor em Comunicação, diretor do Campus I e coordenador dos cursos de comunicação social da UNIBAHIA. Este trabalho foi apresentado durante  o 1º Seminário de Políticas Públicas de Rádio e Televisão da Bahia, realizado no Pestana Bahia Hotel, no período de 12 e 13 de maio de 2003, promovido pela Secretaria de Cultura e Turismo do Governo do Estado através do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia



 

 

 

 

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Tuesday, January 25, 2005

PALAVRAS AOS JOVENS JORNALISTAS

PALAVRAS AOS JOVENS JORNALISTAS

 

Sérgio Mattos

(Coordenador do Curso de Jornalismo da UNIBAHIA, palavras proferidas no dia 29 de janeiro de 2004, no Teatro do ISBA, Salvador - Bahia)

 

 

“Uma imprensa livre é condição fundamental para que as sociedades resolvam seus conflitos, promovam o bem-estar e protejam a sua liberdade. Não deve existir nenhuma lei ou ato de poder que restrinja a liberdade de expressão ou de imprensa, seja qual for o meio de comunicação” – Esta afirmação faz parte do texto introdutório da Declaração de Chapultepec, no México, com os princípios sobre a imprensa livre e data de 11 de março de 1994, quando naquela cidade realizou-se a Conferência Hemisférica sobre Liberdade de Imprensa.

 

 

Meus senhores, minhas senhoras.

 

Meus caros colegas, Jornalistas hoje diplomados e integrantes da primeira turma de jornalismo de faculdade privada da Bahia.

 

A responsabilidade que vocês estão assumindo hoje, como jornalistas, é muito grande. Deverão, a partir de agora, defender e promover a liberdade de imprensa, sem esquecer que, para atingir a liberdade de que tanto falamos e defendemos, precisamos, antes de qualquer coisa, cuidar da credibilidade da imprensa como um todo e da credibilidade profissional que está diretamente ligada a cada um de nós. Por isso, vocês deverão continuar investindo, sistematicamente, no próprio aperfeiçoamento técnico profissional, acompanhando as evoluções tecnológicas dos sistemas de captação, checagem, produção e disseminação de informações, que tanto têm influenciado o exercício do jornalismo, para não se sentirem excluídos da Sociedade da Informação.

 

 Vocês concluíram o curso universitário de jornalismo, mas a vida jornalística está apenas começando e ela exigirá ainda, para que cada um obtenha o sucesso sonhado, muito estudo, dedicação, disciplina, respeito, ética, lealdade e humildade.

 

A credibilidade da imprensa como um todo, a credibilidade dos veículos de comunicação de massa e a dos jornalistas em particular estão diretamente ligadas ao compromisso que devemos ter com a verdade, com a precisão e imparcialidade com que transmitimos as nossas mensagens. Não podemos nunca esquecer que o jornalismo não é uma mera reprodução da realidade, pois participamos e contribuímos diretamente do processo de construção social da realidade. Como dizia Cláudio Abramo “o bom repórter é o que busca a verdade camuflada através da verdade aparente”.

 

Precisamos zelar para que os nossos erros individuais e os dos veículos de comunicação sejam sempre corrigidos. Devemos lutar contra a precipitação na divulgação de fatos não devidamente apurados a fim de que possamos evitar a publicação de equívocos, transmitindo erros no lugar da verdade, por causa da negligência ou preguiça profissional. A palavra de ordem para se ter credibilidade é apurar bem os fatos, ter humildade, aceitar as críticas e sugestões dos nossos leitores e aceitar, como um axioma, o fato de que jornalista não é Deus e que nenhum jornalista é dono da verdade.

 

Aliás, é bom lembrar que o maior pecado do jornalismo praticado hoje em dia é a arrogância com que profissionais e veículos tratam seus clientes, seus leitores e suas fontes de informação. Exatamente por isso, é bom ressaltar, mais uma vez, que o jornalista moderno e atualizado tem que assumir integralmente o seu papel de mediador na sociedade, contribuindo para a constituição de um sentido comum visando a coesão social.

 

 

O atual sistema de produção jornalística em voga no Brasil é repetitivo, oficialista, declaratório e muito dependente das fontes institucionais. Precisamos, pois, de mais criatividade e menos fantasia; de mais apuração e menos pressa; de mais precisão e menos equívocos. Em síntese, precisamos investigar mais e prejulgar menos. Precisamos também diversificar mais as fontes utilizadas e checar cada vez mais a qualidade e a motivação por trás das informações que chegam às redações dos jornais.

 

Não existem receitas e ingredientes específicos para a prática do bom jornalismo. O jornalismo de qualidade se impõe pela relevância das informações que divulga, desde que contextualizadas, explicadas e interpretadas de maneira clara, precisa, concisa e simples para que possa atingir o maior número possível de pessoas, contribuindo para manter a população bem informada e orientada no sentido de que cada indivíduo possa decidir seu próprio destino e exercer plenamente sua cidadania.

 

Para concluir, cito um conselho de Shakespeare que deve ser levado em consideração por todo jornalista: “Um relato honesto se desenrola melhor se o fazem sem rodeios”.

 

Salve a primeira turma de jornalistas formados pela UNIBAHIA!

 

Muito obrigado.

 

Lauro de Freitas, 29 de janeiro de 2004.

 

 

 

 

 

 

 

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Monday, January 24, 2005

Para conhecer a nossa televisão

PARA CONHECER MELHOR A NOSSA TELEVISÃO

 

Sérgio Mattos

(Doutor em Comunicação e autor do livro “História da Televisão Brasileira: uma visão econômica, social e política”, Editora Vozes, 2002).

(Artigo publicado no Jornal A CIDADE, de Campos dos Goytacazes, no dia 12 de dezembro de 2004, Caderno 2, pág. 2).

 

Apesar de ser uma mídia relativamente nova, com pouco mais que 50 anos, a História da TV no Brasil permanece com várias lacunas a serem resgatadas e explicadas. Muito se tem pesquisado e publicado, mas precisamos levantar e conhecer ainda muitos aspectos e detalhes para melhor entendermos o processo de evolução deste veículo no Brasil.

Apesar de existir uma carência na área, pressupostos teórico-metodológicos sólidos são indispensáveis para a construção da história da televisão brasileira como um dos mais importantes veículos do sistema de comunicação do país. Por isso, é indispensável que os estudos e análises para construir a história da TV sejam conduzidos sem dissociá-la do sistema brasileiro de comunicação do qual é parte. Ela precisa ser analisada como parte de um processo de mudanças e permanências das estruturas econômicas, políticas e sociais do país e não como parte isolada. A televisão, como outros veículos que compõem o sistema de comunicação, precisa ser, cada vez mais estudada, a partir de uma abordagem socioeconômica, política e cultural que considere também o meio de comunicação como um agente que intervem e ao mesmo tempo reflete o ambiente no qual está inserido.

No Brasil, as condições internas têm exercido sobre os veículos de massa influência muito mais forte do que os fatores externos. Aqui, os meios de comunicação, principalmente a televisão, e também a indústria publicitária têm refletido não apenas a forma particular de desenvolvimento dependente do país, mas também os interesses políticos de quem está no poder, como ocorreu durante o longo período da ditadura militar de 1964 a 1985, ou como ainda continua ocorrendo.

            O caso do Brasil nos leva a repensar as suposições e hipóteses de inúmeras teorias que vêm estudando o desenvolvimento dos meios de comunicação, principalmente a televisão, nos países periféricos. Exatamente por isso acreditamos que estudos de caso podem ser de maior utilidade para se compreender o crescimento da mídia no Brasil do que muitas abordagens que tentam estudar a evolução da televisão brasileira a partir, e unicamente, de uma perspectiva global.

            Defendemos também o ponto de vista de que, para estudar as causas e efeitos do processo global, precisamos construir uma teoria crítica e social da globalização que seja mais abrangente do que as teorias identificadas como sendo de direita ou de esquerda, responsáveis por enorme lista de estruturas teóricas (desenvolvimentistas, terceiro-mundistas e outras mais reformistas ou menos radicais) usadas para explicar o fluxo da informação, os veículos de comunicação, principalmente a televisão, e os processos de interação sócio-cultural entre as nações.

            Por isso, qualquer estudo sobre a televisão deve ser feito sem negar, rejeitar ou ignorar modelos anteriores, uma vez que o mundo ainda está cheio de evidências que, em parte ou no todo, comprovam várias teorias. Os estudos que aplicam as teorias da globalização para explicar o que está ocorrendo com a televisão em determinado país, o Brasil, por exemplo, não podem deixar de considerar a realidade local em relação à realidade global, a regionalização versus a globalização. Precisamos, portanto, enfatizar e privilegiar a análise dos contextos para melhor compreensão do desenvolvimento da nossa televisão porque não vemos a comunicação e a tecnologia em si, quase como entronizadas, produzindo sentido e desconectadas do todo econômico, político, social e cultural de uma nação.

            Da mesma forma que a política socioeconômica brasileira se desenvolveu dentro de uma mesma matriz, mas sempre oscilando de acordo com as tendências mundiais e ideológicas vigentes, o desenvolvimento da nossa televisão também sofreu a influência direta e indireta das mudanças do contexto. Contexto que apresenta não uma, mas várias realidades, devido à anomalia que é a nossa história contemporânea, que torna quase impossível a tarefa de se estabelecer critérios com os rigores da historiografia sob pena de apresentarmos resultados com distorções.

          A história da televisão não é diferente da história contemporânea do rádio, jornal e publicidade, assim o que se deve procurar é entender como os fatores internos e externos, os contextos socioeconômico e cultural interferiram no desenvolvimento histórico de cada veículo que compõem o sistema de comunicação brasileiro.

            Há mais de 20 anos, defendemos (Mattos, 1982) que para estudarmos e compreendermos qualquer veículo de comunicação no Brasil, principalmente a televisão, precisamos construir uma estrutura de análise, com uma abordagem histórica, dos meios de comunicação que leve em consideração o contexto socioeconômico, político e cultural, pois só assim poderemos compreender, plenamente, a evolução do veículo e suas variações, no tempo e no espaço, devido às influências internas e externas. Só assim, poderemos perceber como a dinâmica social interfere, se reflete e se relaciona com a dinâmica do veículo e vice-versa. Assim sendo, a importância dos fatores intervenientes de cada período histórico se refletem e influenciam a história do veículo estudado.

 Aqui cabem algumas perguntas: Qual a importância do resgate da memória da mídia TV no Brasil? Qual a importância da historiografia midiática no papel da construção do campo da televisão? Quais os pontos que são relevantes no levantamento histórico descritivo da TV?  Uma resposta pode estar baseada em um velho jargão: conhecer a história é fundamental para que possamos entender o presente e ao mesmo tempo podermos projetar o futuro. Todos os estudos de aspectos particulares da televisão devem ser considerados como elementos interdependentes de um contexto global. Cada estudo realizado sobre a televisão deve levar em consideração, seja qual for, que o aspecto ou recorte a ser feito continua sendo parte de um todo, recebendo influência do meio, mas também atuando sobre ele, modificando a realidade. Devemos reconhecer que a televisão é uma mídia interdependente. Precisamos estar conscientes da televisão como unidade em si e da inter-relação dela com o meio no qual está inserida, sofrendo influência e influenciando a realidade do contexto socioeconômico político e cultural.

 

 

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Jorge Calmon: o ponto de referência

 

 

 

 

JORGE CALMON:

O PONTO DE REFERÊNCIA

 

SÉRGIO MATTOS (Texto publicado na revista NEON, edição nº 47, de dezembro de 2004).

 

 

   No ano de 2005, Jorge Calmon estará completando 90 anos de idade, dos quais mais de 60 anos dedicada ao jornalismo diário, trabalhando no jornal A Tarde. Inúmeros eventos vão acontecer durante todo o ano para comemorar a data. A NEON antecipa-se a estas comemorações, dedicando sua capa ao decano dos jornalistas baianos.

   Desde o momento em que decidimos dedicar uma capa ao jornalista Jorge Calmon – o Dr. Jorge, como o chamávamos na redação do jornal A Tarde -, assumi a responsabilidade de esboçar este perfil da figura do Jornalista Maior que ele é, mesmo sentindo o peso da responsabilidade. Várias pessoas já  destacaram as suas inúmeras qualidades. Repeti-las, acrescentando outras seria fácil. Difícil é encontrar uma outra qualidade que não tenha sido ainda lembrada e registrada.

   Partindo desta constatação, optei por dar um testemunho objetivo, conciso e preciso. Um relato sobre este profissional que merece, mas reluta em aceitar homenagens e elogios, pois os considera exagerados. Na verdade, todas as homenagens que já lhe foram prestadas em vida estão aquém das que ele realmente merece, principalmente por sua atuação, não apenas como jornalista, mas como homem comprometido com a cultura e a preservação das entidades culturais da Bahia.

   Quem não teve o privilégio de conviver no dia-a-dia de uma redação, sob o comando deste profissional da imprensa, não pode imaginar que por traz de sua figura tranqüila - a imagem clássica de um verdadeiro gentleman - existe um jornalista cheio de energia, possuidor de uma força de vontade capaz de mover montanhas para defender os interesses da Bahia.

   Esta é uma qualidade, entre outras, que gostaria de destacar, pois a imagem do jornalista Jorge Calmon se confunde com a imagem do cidadão consciente, do homem público que sempre soube exercer o seu ofício em benefício da comunidade. Além de mestre do jornalismo, emérito professor universitário e historiador, com vários livros publicados, ele se projetou como uma das personalidades mais marcantes da Bahia e que continua sendo ouvido e consultado por dirigentes de várias entidades baianas.

   Consciente das funções sociais que um jornal deve desempenhar junto à comunidade, com equilíbrio e senso de percepção, enquanto esteve à frente do jornal A Tarde, ele soube dar continuidade aos objetivos traçados por Simões filho, ajudando a transformar aquele jornal, durante o século passado, num porta-voz das minorias e injustiçados, defendendo, em campanhas memoráveis, os interesses da Bahia. Sob seu comando, o jornal de Simões Filho tinha a Cara da Bahia e quando queríamos saber o que acontecia na terra, bastava ler aquele veículo, que já foi considerado inclusive como sendo uma instituição baiana devido aos laços que mantinha com a cultura e as tradições locais, dando espaço a todas as manifestações culturais, políticas, religiosas, sociais e econômicas que aqui aconteciam. Graças à visão e preocupação de se praticar um jornalismo correto e honesto, participativo e ético (conceitos transmitidos a toda a equipe que com ele trabalhou), aquele jornal, sob sua direção, interagia com credibilidade no contexto da comunidade no qual estava inserido.

   Como escreveu Jorge Amado, o escritor maior da Bahia, “sem ser político, Jorge Calmon, exerceu cargos políticos e administrativos com capacidade e zelo, sem falar na extrema integridade que caracterizou (e caracteriza) sua atuação. Dedicou-se, sobretudo, a apoiar e incentivar organizações culturais do quilate da Academia de Letras da Bahia e da Associação Bahiana de Imprensa, centros definitivos e indispensáveis da cultura de um Estado”.

   Doutor Jorge foi o responsável direto por inúmeras campanhas vitoriosas realizadas pelo jornal A Tarde, haja vista a campanha contra a Divisão Territorial da Bahia entre muitas outras. Graças à sua determinação e seu amor pela terra e pela cultura baiana, o mapa da Bahia continua o mesmo e muitas instituições culturais, como a Academia de Letras da Bahia(ALB), a Associação Bahiana de Imprensa (ABI) e o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB), para citar apenas algumas, foram beneficiados, direta e indiretamente, por sua atuação e influência no sentido de restaurar, preservar e modernizar suas respectivas sedes.

   Sua atuação na condução da linha editorial do jornal, por mais de 60 anos, contribuiu diretamente para o sucesso que A Tarde conseguiu angariar no século passado. A atuação firme do então diretor-redator-chefe, se constitui também em um marco referencial para o jornalismo baiano. Jorge Calmon passou a ser o ponto de referência do sucesso alcançado pelo jornal fundado por Simões Filho.

   Dr. Jorge soube assimilar o dinamismo, a sagacidade e o espírito determinado de Simões Filho. E exatamente por isso, historicamente, ele também ‚ se constitui num referencial para qualquer jornalista e deve ser objeto de estudo de monografias e teses, nas Faculdades de Jornalismo e cursos de pós-graduação em comunicação, cujos autores queiram entender e registrar sua participação e influência na história do jornalismo da Bahia. Quem vier a escrever sobre a história da imprensa baiana e não se dedicar à figura e atuação de Jorge Calmon e sua participação no desenvolvimento da mesma fará um trabalho incompleto. Isso porque sua influência está evidenciada por mais de meio século de atuação.

   Conviver com ele e trabalhar sob seu comando‚ foi um privilégio e uma certeza de que, todos os dias, sempre aprendia algo de novo. Suas observações, críticas ou elogiosas, sempre foram pertinentes e equilibradas. Como diretor-redator-chefe ele soube ser duro e condescendente. Soube ser justo e exigente. Soube também como valorizar o empenho e a dedicação dos colegas e nunca deixou de estimular os jovens, abrindo-lhes oportunidades, desde que possuíssem dinamismo, garra e agressividade - atributos que ele considera natos de um bom jornalista e com os quais ele mesmo se identifica.

 

     OPINIÕES DE JORGE CALMON

 

   Jorge Calmon iniciou sua carreira jornalística como repórter de assuntos gerais em 1935. Cinco anos depois foi nomeado secretário de redação e em 1949 foi nomeado redator-chefe. Em 1979 passou a exercer a função de diretor-redator-chefe, cargo que exerceu até deixar o jornal em 1995, após 60 anos de trabalhos ininterruptos na mesma empresa. Ao longo de sua vida profissional, o professor e jornalista Jorge Calmon sempre emitiu suas opiniões, em artigos, entrevistas, discursos e palestras sobre o jornalismo e diversos outros assuntos. A seguir algumas de suas opiniões sobre o jornalismo que garimpamos:

 

 

Quando começou no jornalismo, quais suas primeiras funções dentro do jornal?

Jorge Calmon– Comecei a trabalhar gratuitamente (como estagiário, em meados de 1934) como auxiliar de arquivo, recortando fotografias e fazendo reportagens eventuais. Fui admitido em 1º de fevereiro de 1935. Eu não fui repórter de grandes reportagens, mas adquiri boa experiência nos primeiros anos.

 

Quais foram os seus mestres no jornalismo?

Jorge Calmon– Entre os mestres, invoco naturalmente ao primeiro plano a figura tutelar de Ernesto Simões Filho que me abriu a porta de seu jornal e que, a seguir, me deu a mão para que eu pudesse galgar, degrau por degrau, os sucessivos patamares da carreira. Enquanto me permitiu observar, ao longo de 23 anos de relacionamento, o seu próprio desempenho como jornalista, um dos mais completos jornalistas que jamais houve neste país, sabendo da imprensa todos os segredos e possibilidades. Soube conhecer como poucos a industria do jornal e as formas mais apropriadas de comunicação pela palavra impressa. Raros também o terão igualado na utilização do jornal como instrumento de influência junto ao povo, para orientá-lo de acordo com seus apelos e suas idéias. Foi um privilégio ter estado tanto tempo ao seu lado, aprendendo, verificando que ele sempre tinha razão quando reclamava ou corrigia, mas, sobretudo, buscando assimilar seus conceitos sobre os homens e sobre os assuntos públicos, conceitos derivados de uma sagaz experiência que, entretanto, de nenhum modo estiolava a pureza dos objetivos, seu espírito público, sua apaixonada baianidade.

 

E quais foram os outros mestres?

Jorge Calmon – Mestres, tive vários: Ranulfo Oliveira, que me ensinou, pelo comportamento e pelas opiniões, a preciosa lição do equilíbrio. Antonio Marques Pinto, modelo de discrição e companheirismo. Aloysio de Carvalho, pai, de quem recolhi conselhos sobre a arte de escrever, e que me habituou a recorrer ao dicionário para dirimir dúvidas. Florêncio Santos, corrigindo os meus primeiros originais e mostrando como titular matérias. Aristóteles Gomes, o irreverente e honesto Aristóteles, exemplar na capacidade de trabalho, e, dentre os de gerações mais recentes, ressuscitando-lhe a presença, Heron de Alencar, jornalista nato, que, certa feita, solidariamente, preparou comigo, a quatro mãos, um editorial a ser impresso com urgência.

 

 

Quais os requisitos exigidos para que o trabalho na imprensa alcance seus elevados objetivos?

Jorge Calmon – Para ser digno da singular posição a ele reservada na sociedade democrática, o jornalista tem de acreditar, firme e sinceramente, nessa abstração que se chama interesse público. E, porque nele acredita, tem de defendê-lo com intrepidez e veemência.

 

Quais os pré-requisitos do bom jornalista?

Jorge Calmon – O bom jornalista deve saber escrever e ter agressividade. O desanimado e burocrata, que espera pelo fato, este não é um jornalista. Só considero mesmo jornalista aquele que tem o calor, o interesse pela notícia. O espírito público é outra característica fundamental ao jornalista. Acho que a profissão só tem beleza quando tem sentido social. O jornalista deve ser um combatente do interesse coletivo, e não um carreirista.

 

Como se constrói a credibilidade do jornalista e de um jornal?

Jorge Calmon – A credibilidade se constrói vagarosamente e se destrói por muito pouco. Se o jornal escorregar, se sair do sério, se virar instrumento de negociata, o leitor percebe.

 

O que mudou na prática jornalística ao longo do tempo?

Jorge Calmon – Quando me iniciei no jornalismo, e nos primeiros anos em que o exerci, pude observar vários casos e modalidades de aproveitamento da condição ou do trabalho do jornalista para fins nada recomendáveis. Naquele tempo, havia jornalistas que eram meros passageiros da profissão, sempre à espera de nomeação para uma sinecura, quando não de um mandato político, havendo também os vencidos na vida, acomodados com o magro salário pago pelo jornal, a que somavam o ordenado de um empreguinho em repartição pública. Esse quadro mudou muito, para melhor. Hoje, o jornalismo é uma atividade cuja remuneração, mesmo fora dos grandes centros, caminha para a suficiência, não devendo estar longe o dia em que o profissional da imprensa possa viver e sustentar família, em nível decente, com a contrapartida pecuniária do seu trabalho, deixando, assim, de necessitar de outras fontes de renda, e adquirindo, por isso mesmo, plena independência.Ora, é inegável que para isso, quer dizer, para a autonomia e dignidade da profissão, contribuiu, decisivamente, a habilitação universitária do jornalista, complementada e protegida pelas garantias legais que atualmente cercam o trabalho na imprensa.

Naquela época (quando se iniciou), o estilo jornalístico diferia do de hoje, dava-se certo teor literário aos textos no jornal. Hoje o jornalismo é mais objetivo, investigativo e voltado para os fatos.

 

E a imprensa propriamente dita mudou ao longo dos anos em que o senhor exerceu o jornalismo diário?

Jorge Calmon – Eu diria que a imprensa mudou muito neste período, inclusive com o advento dos outros meios de comunicação de massa. O rádio e depois a televisão vieram de certo modo como concorrentes, mas a imprensa tem sua faixa própria. A principio, julgava-se que o rádio poderia prejudica-la no alcance e influência, o que não aconteceu porque muita coisa não pode ser veiculada no rádio. A televisão também, quando se popularizou, julgou-se que afetaria o jornalismo impresso, porém a televisão tem sua mensagem própria e peculiar, caracterizando-se mais como divertimento, sendo que na informação seu desempenho é relativo. À imprensa cabe a informação minuciosa com a interpretação e o comentário que a televisão não pode fazer. No que diz respeito à imprensa baiana, embora tenha sofrido com a concorrência desses outros meios de massa, inclusive na parte publicitária, ela continua a ter influência.

 

E a censura no jornalismo?

Jorge Calmon– Você dizer que não há nenhuma censura em jornal seria faltar com a verdade. Existe uma censura moral, como existe na consciência de cada um de nós. Não praticamos determinadas coisas porque refletimos e vemos que não podem ser praticadas.Assim também é no jornalismo Há varias coisas que o jornal não publica porque não quer assumir responsabilidade, ou porque fazem mal aos leitores certos fatos degradantes. Por outro lado, isso de jornal estar aberto a todas as opiniões, de certo modo é justificado sob determinado ponto de vista, mas acontece que não há um jornal sem ideologia. Claro, poderíamos vender muito com notícias de polícia e fotos de mulher nua, mas este não era o padrão de jornalismo adotado em A Tarde.

 

Então, em alguns casos a censura é justificável?

Jorge Calmon – Não digo a censura, mas o pudor na liberação da notícia. Não por falta de coragem, mas por responsabilidade.

 

Que critérios então o senhor utilizava para decidir o que era ou não para ser publicado?

Jorge Calmon – O bom senso. O bom senso e o respeito às pessoas e sua imagem.

 

O senhor lembra de alguma situação em que ficou em dúvida na hora de decidir o que seria publicado ou não?

Jorge Calmon – Não dúvida, não. A Tarde deixou de publicar a partir do dia 4 de dezembro de 1968 todos os comentários editoriais por falta de liberdade de expressão. Essa foi a decisão mais delicada que eu tive que tomar.

 

O senhor teve algum arrependimento por algum veto ou por ter autorizado a publicação de alguma matéria?

Jorge Calmon – Pode ser. Mas o jornalista mais experiente dificilmente hesita, porque a sensibilidade reage logo. E é mais provável que eu tenha me arrependido de uma permissão do que de um veto.

 

O que é essencial para a prática do bom jornalismo?

Jorge Calmon – Uma coisa essencial é a ética dói jornalismo. Quando deixar de exercer função social, o jornalismo se enquadrará em qualquer outra atividade, será um balcão, uma banca de engraxate, uma loja. Claro, o jornalismo deve estar aberto a opiniões amadurecidas, mas lutamos com limitação de espaço e a produção do jornal é cara.

 

Em sua opinião o que caracteriza o bom jornalismo?

Jorge Calmon – O jornalismo praticado conforme os padrões da boa comunicação. O jornalismo comprometido com a verdade; O jornalismo que informa com exatidão, sem nada esconder. O jornalismo que lealmente fornece ao leitor os elementos necessários a que ele forme a sua própria opinião. O jornalismo consciente de sua função educativa. O jornalismo que se abstém de emprestar sensação ao registro de fatos escabrosos, ainda que sabendo que isso lhe renderia mais leitores, e aumentaria a mídia publicitária. O jornalismo que despreza as seduções oferecidas pela sai própria influência, para manter-se fiel à sua missão. O jornalismo desvinculado de intimidades com o poder e com grupos de qualquer natureza. O jornalismo que assume, sem vacilações, o papel que a sociedade implicitamente lhe confere, de fiscal dos assuntos públicos. O jornalismo elevado à condição de intérprete do pensamento e dos reais interesses da coletividade. O jornalismo intransigentemente engajado na preservação da liberdade, da qual a imprensa retira o oxigênio vital.

 

Como decano do jornalismo baiano, o que o senhor acha que lhe faltou ao longo de 60 anos de prática jornalística?

Jorge Calmon – Na lenta viagem pela vida, o tempo é o sutil e implacável timoneiro, que, em dado momento nos surpreende mostrando a distância percorrida. Neste caso, no entanto, o tempo importa menos que a confortadora certeza interior de que não me abandonou o entusiasmo com que, ainda bem jovem, ingressei na profissão; e de que mantenho, intactos, os mesmos ideais. Se me falta, como bem reconheço, o fulgor intelectual característico dos grandes jornalistas, daqueles que sabem conduzir à expressão máxima as potencialidades da imprensa, daqueles que em si reúnem o gênio, a mensagem e a bravura, daqueles que pelo só atitude ou pelo artigo eletrizam o ambiente social – sempre procurei, quanto possível, suprir essas qualidades com o modesto e pontual cumprimento do dever, todos os dias na minha mesa de trabalho, buscando contribuir para que a opinião do jornal fosse oportuna e sensata, e que a notícia fosse publicada tão imediata quanto veraz, avesso ao sensacionalismo, cioso da honra e dignidade alheias, mais amigo dos fracos do que dos poderosos, fiel, sinceramente fiel ao interesse público.

 

 

DADOS BIOGRÁFICOS DE JORGE CALMON

 

   Filho do comerciante Pedro Calmon Freire Bittencourt e de Maria Romana Moniz de Aragão Calmon de Bittencout, Jorge Calmon nasceu a 7 de julho de 1915, na rua do Genipapeiro, no bairro de Nazaré, em Salvador. Foi no jardim de infância mantido pela profa. Laura Barbuda onde fez seus primeiros estudos, concluindo o segundo grau no Colégio Antonio Vieira. Ingressou mais tarde na Faculdade de Direito da Bahia, diplomando-se em 1937.  Em 12 de junho de 1948 casou-se com Leonor Calmon com quem teve seis filhos: Maria Romana, Maria Edith, Mário, Maria Virginia, Maria Tereza e Jorge Filho.

    Um ano depois de formado, em 1938, já demonstrando sua tendência cultural, fundou, juntamente com Pinto de Aguiar, a Editora Cruzeiro, que publicou entre outros clássicos “O Rio São Francisco e a Chapada Diamantina”, de Teodoro Sampaio.

   Suas atividades profissionais estão distribuídas por quatro setores básicos: o jornalismo, o serviço público, o magistério e a política. Como reconhecimento nestas atividades ele também foi condecorado e recebeu vários títulos. A seguir suas principais atividades:

 

JORNALISMO

   

    Na Faculdade de Direito desenvolveu intensa atividade política, participando da direção da Associação Universitária da Bahia, quando participou da campanha pela construção da Casa do estudante e executou sua primeira atividade jornalística ao editar o órgão oficial da Associação.

    Começou no jornal A Tarde ainda quando estudante universitário, no ano de 1934, por recomendação do seu irmão Pedro, que mantinha boas relações com Simões Filho. Depois de um longo estágio como auxiliar de arquivo e realizando reportagens eventuais, Jorge Calmon foi definitivamente contratado como repórter no dia 1º de fevereiro de 1935, com a função de cobrir os acontecimentos da cidade.

   Um ano depois de formado, em 1938, fundou, juntamente com Pinto de Aguiar, a Editora Cruzeiro, que publicou entre outros clássicos “O Rio São Francisco e a Chapada Diamantina” de Teodoro Sampaio.

   Como jornalista foi repórter, redator e secretário(1935), Redator-Chefe (1949) e Diretor-Redator Chefe(1971-1996). Foi presidente da Rádio Cultura da Bahia(1955); membro do Grupo de Trabalho nomeado pelo Presidente da Republica para estruturar a Agência Brasileira de Notícias (1961), membro da Comissão de Liberdade de Imprensa da Sociedade Interamericana de Imprensa e Presidente da Associação Bahiana de Imprensa (1970-1972).

           

SERVIÇO PÚBLICO

 

   Foi diretor da Biblioteca Pública do Estado (1938-1942), editando um boletim informativo mensal e duplicando, em sua gestão, o total de volumes à disposição do publico. De 1955 a 1963 não exerceu cargos públicos, dedicando-se ao jornalismo e ao magistério, lecionando História das Américas na Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia. Em 1963 foi nomeado Secretário do Interior e Justiça, durante o Governo de Lomanto Junior, permanecendo no cargo até 1966. Foi Secretário da Justiça (1966-1967) e Ministro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia (1967-1971).Em 1969 foi nomeado relator das Contas do Governador, apresentando na oportunidade um amplo estudo sobre a situação econômica e financeira do Estado no ano de 1968. Em 1979, reconhecendo a colaboração que o Conselheiro prestara com seus trabalhos, o Tribunal de Contas outorgou-lhe a Medalha do Mérito Ruy Barbosa.

 

POLÍTICA

  

   De 1947 a 1955, Jorge Calmon foi eleito e reeleito deputado estadual, primeiro pela União Democrática Nacional e depois pelo Partido Libertador. Como deputado participou dos trabalhos da primeira Constituição do estado da Bahia, contribuindo com o artigo constitucional que assegurou ao município de Salvador a sua Lei Orgânica. Pode-se destacar também como sua efetiva participação parlamentar a preparação do anteprojeto da Lei Orgânica do Município de Salvador, os estudos sobre o êxodo de baianos para São Paulo, sobre os preços do petróleo baiano, sobre as tarifas de água e a decadência das estradas de ferro. Destacam-se ainda seus pareceres técnicos sobre a reforma do Tribunal de Contas do estado da Bahia e do Instituto de Cacau da Bahia.

           

MAGISTÉRIO

  

   Jorge Calmon iniciou suas atividades no magistério no ano de 1941, como professor de Português e História do Comércio na Escola Comercial Feminina da Bahia. Naquele mesmo ano foi nomeado Professor Catedrático de História Americana da Faculdade de Filosofia da Bahia, atual Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia, da qual foi um dos professores fundadores, mantendo-se em atividade até julho de 1985, quando se aposentou. Na área do magistério superior exerceu vários cargos e funções, participando também de inúmeras comissões, dentre os quais foi chefe dos Departamentos de Jornalismo e de História, vice-diretor da Faculdade de Filosofia (1961-1964) e Presidente do Núcleo da Bahia da Associação Nacional dos Professores Universitários de História (1961-l962). Foi professor voluntário de Técnica de Jornal no Curso de Jornalismo da Faculdade de Filosofia da Universidade da Bahia (1956) e organizador, a convite do Reitor da Universidade, do segundo e atual Curso de Jornalismo e chefe do respectivo Departamento (1961).

 

TÍTULOS

 

   Entre os inúmeros títulos que Jorge Calmon possui destacam-se: Professor Emérito da Universidade Federal da Bahia; Membro Benfeitor e ex-presidente da Academia de Letras da Bahia; Sócio Benemérito e ex-presidente da Associação Bahiana de Imprensa; Membro da Academia Brasileira de Historia; Administrador do Ano (1984) outorgado pela Escola de Administração da UFBA; Cavalheiro da Ordem de Malta; além de outros títulos de destaque Jorge Calmon é também Cidadão Honorário de Ilhéus, Itabuna, Juazeiro, Feira de Santana, Santo Amaro, Ubaitaba, Coaraci e Uauá.

 

CONDECORAÇÕES

 

   Entre inúmeras condecorações, destacam-se Ordem do Mérito da Bahia, no grau de Grande Oficial; Ordem do Mérito das Comunicações, Grande Oficial; Medalha Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras; Medalha do Mérito Jornalístico, da ABI-BA; Medalha Thomé de Souza, da Câmara Municipal de Salvador; Ordem do Mérito Judiciário do Trabalho, no grau de Oficial; Medalha do Mérito Ruy Barbosa, do Tribunal de Contas do Estado; Medalha Ana Néri, da Sociedade Brasileira de Educação e Integração, de São Paulo; Medalha do Mérito astro Alves, da Secretaria de Educação do Estado da Bahia; Medalha do Pacificador, do Exercito Brasileiro; Medalha do Mérito Tamandaré, da Marinha de Guerra, Medalha do Mérito Marechal Argolo, Visconde de Itaparica, da Policia Militar da Bahia; Ordem do Infante D. Henrique, de Portugal, no grau de Comendador, Comenda de Numero de 1ª Ordem Del Mérito Civil, da Espanha; Comenda Del Mérito Civil da República do Chile.

 


 

 

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Sunday, January 16, 2005

OS DEVERES DO JORNALISTA

               O DEVER DO JORNALISTA

(Palavras dirigidas aos formandos de jornalismo das Faculdades Integradas Ipitanga - UNIBAHIA, em 15/01/2005).

 

Sérgio Mattos

(Professor Doutor Coordenador dos Cursos de Comunicação Social da UNIBAHIA)

 

 

“A IMPRENSA NÃO É A ÁGUA QUE PASSA PELO CANO, E SIM O CANO POR ONDE PASSA A ÁGUA”.

Antonio Gramsci

 

 

 

Meus senhores, minhas senhoras, meus caros colegas e jovens jornalistas:

 

 

Quando se fala sobre a imprensa, na verdade as pessoas querem se referir aos profissionais da imprensa, os jornalistas, e não necessariamente às empresas que compõem a indústria editorial.

 

Se a imprensa está perdendo credibilidade, na verdade, quem a está perdendo são os jornalistas. A crise de credibilidade da imprensa passa pela queda na qualidade da informação fornecida ao público com reflexos negativos nos índices de audiência.

 

Por isso, a missão maior de cada um de vocês que a partir hoje assumem os valores da profissão, é reconhecer que antes de tudo o jornalista é um profissional que presta um serviço público, que lida com acontecimentos do mundo real e que antes de se preocupar em relatar suas histórias tem o dever de saber e conhecer em detalhes os fatos a serem narrados.

 

Exatamente por isso, é dever do jornalista manter o senso crítico e nunca ignorar o papel histórico da imprensa no desenvolvimento da sociedade na qual está inserido e para a qual trabalha, coletando e repassando-lhe informações verdadeiras que contribuam para a formação da opinião pública.

 

É dever do jornalista assumir seu compromisso com a verdade e com os seus leitores, ouvintes, telespectadores e internautas, exercendo a profissão com ética.

 

É dever do jornalista refletir os fatos e oferecer ao publico análises mais consistentes.

 

É dever do jornalista informar com isenção e exatidão, ouvindo sempre os dois lados, evitando fontes anônimas e, principalmente, checando as informações antes de divulgá-las.


É dever do jornalista nunca enganar seu público e suas fontes, procurando ser transparente em seus métodos e objetivos, evitando obter informações de forma sub-reptícia.

 

É dever do jornalista apurar e checar as informações antes de transmiti-las de maneira exata, clara e precisa. Vale aqui destacar um conselho de Shakespeare: “Um relato honesto se desenrola melhor se o fazem sem rodeios”.

 

É dever do jornalista evitar o jornalismo declaratório e oficialista, o opinionismo e achismos, assumindo e trabalhando temas que sejam do interesse da sociedade e do cidadão comum.

 

É dever do jornalista lutar pela promoção e preservação da liberdade de imprensa.

 

É dever do jornalista manter-se atualizado, conservando a mente sempre aberta e sem preconceitos, evitando a arrogância e a falta de humildade hoje tão comuns em nosso meio.

 

Para finalizar,  como já dizia Cláudio Abramo, “o bom repórter é o que busca a verdade camuflada através da verdade aparente”.

 

Muito obrigado.

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