Tuesday, February 8, 2011

SER JORNALISTICA É …

SER JORNALISTA É…

Sérgio Mattos

(Discurso proferido pelo prof. Dr. Sérgio Mattos, escolhido como Patrono da segunda Turma de Jornalismo (2010.2) da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Cachoeira,  05 de fevereiro de 2011.)

 

 Prezados formandos:

Antes de tudo quero agradecer a escolha de meu nome para ser o patrono da segunda turma de jornalistas da UFRB.   

Neste ano completo 45 anos de jornalismo, contando o tempo a partir do momento em que comecei a publicar meus primeiros textos em jornais. Confesso que continuo acreditando, como quando me iniciei na mais dinâmica de todas as profissões, nos compromissos do jornalista com a verdade e de servir à sociedade com ética.

Todos sabem que ao longo desse tempo o mundo mudou. O fazer jornalismo se transformou com os avanços tecnológicos. Ser jornalista no mundo competitivo de hoje não é fácil. Mas, sabemos também que o jornalismo permanece como uma das melhores profissões do mundo, uma profissão dinâmica, uma profissão que não vai torná-los milionários, mas que pode gratificar, a cada um, pela sensação do dever cumprido.

Jornalismo é uma profissão para realizadores; para pessoas que não são acomodadas; para pessoas que não estão preocupadas apenas com o próprio ego. Aliás, todos esperam que o jornalista faça coisas úteis e que pense na coletividade, antes de pensar em si mesmo.

A partir de hoje, como portadores de diploma de nível superior, como bacharéis em Jornalismo, não pensem que logo estarão ocupando importantes cargos na imprensa nacional. Antes, procurem, mais do que durante os quatro anos de Universidade, se aperfeiçoar no que sabem fazer.  Procurem executar suas tarefas com perfeição, da melhor forma possível.

Dediquem-se com paixão às suas missões jornalísticas independente da importância ou tipo de veículo e da região onde estejam trabalhando. Saibam aproveitar as oportunidades, com profissionalismo e respeitando as questões éticas, cumprindo seus deveres antes de bradar por seus direitos. Procurem aprender com os próprios erros, pois só assim alcançarão o sucesso almejado.

Meus caros formandos, confesso a vocês, sem resquícios de romantismo ou pieguice, que se tivesse hoje que recomeçar a vida profissional,  escolhendo  uma profissão de nível universitário,  podem ter certeza, não hesitaria, escolheria Ser Jornalista, apesar de tudo o que se tem feito para desvalorizar esta profissão cujo maior compromisso é com a verdade e com a sociedade.

As funções sociais básicas do jornalismo são informar, educar e fiscalizar. Para exercê-las, é necessário SER JORNALISTA com letras maiúsculas, como se fossem para compor a manchete da primeira página do jornal. Portanto, pretendo, agora, passar para vocês o que penso sobre o que é SER JORNALISTA e espero que internalizem essas reflexões para cumprir com o dever profissional, sem temer as ameaças e sem se deixar envolver em situações espúrias.

Ser jornalista é não perder a capacidade de sonhar, de acreditar num mundo melhor e de ousar. É estar em constante processo de atualização e sempre atento às questões éticas.

Ser jornalista é saber ouvir e dar voz a quem não tem.

Ser jornalista é saber respeitar a opinião dos outros.

Ser jornalista é não servir de instrumento a interesses econômicos e político-partidários.

Ser jornalista é ter certeza de que as aparências enganam. É ter um compromisso com a verdade e tentar desmascarar as verdades aparentes e camufladas.

Ser jornalista é ter consciência de que o papel da imprensa é fiscalizar os poderes, público e privado, e denunciar o que tem de errado, sem  omitir o que está acontecendo de bom. Ser jornalista é ter consciência de que seu papel é investigar antes, para denunciar depois.

Ser jornalista é assumir a função de testemunha da história, apresentando relatos verdadeiros.  Ser jornalista é estar consciente de que não compete a ele julgar ou condenar.

Ser jornalista é não perder a fé na profissão, é sair das redações e dos gabinetes para narrar histórias da vida real independente da plataforma a ser utilizada.

Ser jornalista é deixar de praticar o jornalismo oficial e declaratório tão em moda, para se dedicar a temas de interesse dos cidadãos.

Ser jornalista é saber educar por meio da informação. É saber a diferença entre opinião e informação.

Ser jornalista é buscar a simplicidade, é ter certeza de que não é o dono da verdade, é lutar contra a arrogância que tanto tem contribuído para esvaziar a credibilidade do jornalismo.

Ser jornalista é saber que a credibilidade é fundamental para a profissão. É ter consciência de que para se construir credibilidade se leva muito tempo, mas para destruí-la, bastam apenas alguns segundos.

Ser jornalista é lutar contra todo tipo de cerceamento às liberdades fundamentais do homem, preservando o direito de acesso às informações e o direito à privacidade dos cidadãos. Ser jornalista é ser contra todo e qualquer tipo de Censura.

Ser jornalista no mundo de hoje, da tecnologia digital, é saber interagir com o leitor. É saber compartilhar as informações de forma que possam ser compreendidas.

Enfim, ser jornalista, é ser cidadão, é defender a cidadania, trabalhar por um mundo melhor e procurar ser feliz.

Que sejam felizes na profissão que escolheram. 

Sejam bem vindos ao mundo real!

Muito obrigado!

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MISSÃO JORNALISTICA

MISSÃO JORNALÍSTICA
SÈRGIO MATTOS
(Discurso de Sérgio Mattos, Paraninfo da primeira turma da Jornalismo da Universidade Federal do Recôncavo – UFRB. Pronunciado no dia 11 de setembro de 2010, no auditório do Campus de Cachoeira – Bahia.)
Meus afilhados, minhas afilhadas, meus senhores e minhas senhoras:
Antes de tudo, quero expressar o meu profundo agradecimento pela honra de ter sido escolhido como Paraninfo da Primeira Turma de Jornalismo da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, que tem como patronesse Vânia Galvão. Ser escolhido como paraninfo significa um reconhecimento não só ao trabalho realizado em sala de aula, mas também uma homenagem a um profissional da área, que tem se dedicado e procurado contribuir para o desenvolvimento e valorização do jornalismo como profissão. Agradeço a homenagem, compartilhando-a com os demais professores do curso que ajudaram a habilitar vocês para o exercício do jornalismo, que no dizer de Gabriel Garcia Marques “é a melhor profissão do mundo”.
Apesar da decisão do Supremo Tribunal Federal ter abolido a obrigatoriedade do diploma de jornalismo, no ano passado, 2009, espero que isto não represente desanimo para vocês, pois o jornalismo está acima de decisões casuísticas e precisamos continuar defendendo , como principio, a formação universitária dos jornalistas. Como jornalistas profissionais diplomados, temos condições para discernir o que interessa à sociedade brasileira, defendendo-a contra o jogo de interesses do poder político, do poder econômico e até mesmo do poder judiciário, que se arvora como defensor da liberdade de imprensa e, na verdade, tem exercido o poder de amordaçar jornais e jornalistas em todo o território nacional, por meio de processos e sentenças judiciais que estão restaurando o clima de censura e estimulando a prática da autocensura.
Acreditem, como mediador social, cabe ao jornalista exercer as funções sociais de educar, informar, fiscalizar e entreter. Para tanto, transcrevo as orientações do professor Doutor José Marques de Melo, que clama: “A nossa posição na vida profissional deve ser exatamente a de vigilantes. Vigilantes para que as informações fornecidas ao público sejam verdadeiras e exatas, vigilantes para que elas sejam dotadas de honestidade e respeito à dignidade humana”.
Se devemos Ser e Estar vigilantes, devemos também estar conscientes que o jornalismo não deve ser exercido em causa própria, mas em nome da sociedade. Devemos assumir a missão de denunciar preconceitos, injustiças e sofrimentos, lutando contra a intolerância e a indiferença em todos os seus níveis. Assim sendo, saibam cultivar o bom senso, a liberdade e a justiça.
O compromisso do jornalista é com a verdade e a busca da verdade deve ser feita dentro dos princípios éticos que implicam em não se deixar seduzir pelo poder, não se contaminar pela arrogância e pelo cinismo. Ser ético é saber se posicionar, é ser justo, é não confundir equilíbrio com indiferença, pois a indiferença é uma das piores e a mais hipócrita das formas de censura existentes.
Como disse o poeta e jornalista Carlos Drummond de Andrade, quando foi paraninfo de uma turma de jornalismo em 1982, “a missão de vocês consistirá em tirar do princípio universal da comunicação uma utilidade específica, de benefício social e de afirmação individual. No jornalismo, no rádio, na televisão, na publicidade, nas relações públicas, nas mais variadas formas de atividade profissional, o objetivo é um só: promover o entendimento entre os seres humanos, para a dignificação da vida como projeto de felicidade”.
Para finalizar, vale lembrar que vivemos nesta primeira década do terceiro milênio, um momento único de decisões para o jornalismo, devido a convergência das novas tecnologias que apontam para transformações antes nunca vistas. Exatamente por isso e considerando que o jornalismo sempre esteve em permanente mutação, devemos nos engajar nos processos de reformas e inovações tecnológicas, sem contudo deixarmos de questionar e praticar o jornalismo com independência , independente da plataforma que viermos a utilizar. Em síntese, não abram mão do sonho de ser jornalista, pois o futuro pertence àqueles que ainda sabem sonhar com um Brasil melhor, um Brasil mais justo e com uma profissão cuja maior missão é com a ética, a transparência e o compromisso com a verdade.
Espero que vocês sejam felizes no exercício da profissão que escolheram.
Muito obrigado!

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Sunday, January 18, 2009

RESPONSABILIDADE SOCIAL E ENGAJAMENTO

RESPONSABILIDADE SOCIAL E ENGAJAMENTO

 

SÉRGIO MATTOS (*)

 

Apesar de figurar em quarto lugar como o país mais desigual no ranking mundial, o Brasil também está entre os países mais responsáveis e éticos do mundo. Ao mesmo tempo em que é considerado como um dos menos avançados no que diz respeito à concentração de renda, pois aqui os ricos são 33% mais ricos do que os pobres, o Instituto Social de Estudos Religiosos (Iser) apresenta dados instigantes: 23% dos adultos brasileiros (19,7 milhões de pessoas) doam parte do seu tempo para ajudar os outros. Isto significa que, apesar das desigualdades ainda existentes e gritantes, o brasileiro está cada vez mais consciente de seu papel como agente transformador da realidade e começa a se engajar no trabalho que visa a construção de um mundo mais próspero, justo e ambientalmente sustentável.

A responsabilidade social, entretanto, não pode ser parcial, ela exige a participação e o engajamento de todos e de forma integral. Como se costuma afirmar, “voluntariado é engajamento cívico”, mas para que este exercício da cidadania seja praticado conscientemente, devemos ter em mente que a responsabilidade social é, antes de tudo, uma responsabilidade do indivíduo e não das empresas e do Estado. Ter responsabilidade social não é uma escolha, é um dever de todo cidadão. É dever do cidadão cumprir o seu papel de tornar menos desigual a sociedade na qual está inserido. Este engajamento, individual ou coletivo, (por meio de uma empresa, da qual ele seja o dirigente máximo ou um simples funcionário), deve ser direcionado para a promoção do desenvolvimento sustentável.

 É preciso que os empresários e cidadãos conscientes saibam distinguir e nunca confundir responsabilidade social com filantropia.  A filantropia ou benemerência tem caráter assistencial e é uma ação que não incorpora mudanças multiplicadoras e auto-sustentáveis. A responsabilidade social está diretamente relacionada com a tomada de decisões que valorizem principalmente a ética, o cidadão, as comunidades e o meio ambiente. Ter responsabilidade social é assumir compromisso com o bem-estar das comunidades onde atuamos, contribuindo diretamente para diminuir as desigualdades, visando o resgate da cidadania e preservação do meio ambiente. A responsabilidade social envolve ainda solidariedade, respeito à dignidade humana e do bem comum, a produção de bens e serviços de qualidade, além do compromisso permanente com a transparência e a ética.

Desenvolvimento sustentável é promover a melhoria dos indicadores sociais e condições de vida, satisfazendo as necessidades do presente, sem comprometer o meio ambiente e o futuro do próprio ser humano. Para que isto aconteça é necessário nos engajarmos na luta por políticas públicas de inclusão social, inclusão cultural e digital, além de procurarmos garantir educação e saúde de qualidade, serviços de assistência social como direito do cidadão e não como um favor da empresa ou do Estado. Precisamos também nos engajar no combate sustentável à pobreza. Em síntese, devemos fazer um exame de consciência buscando identificar o que estamos fazendo e o que precisamos ainda fazer para assumir o nosso papel de cidadão na prática social responsável, atuando como agentes multiplicadores de ações voltadas para o desenvolvimento humano e a inclusão social.

______________

( *) – Sérgio Mattos é Doutor em Comunicação, professor, jornalista e membro do Comitê Consultivo da Rede Ethos de Jornalistas). Texto publicado na Tribuna da Bahia, dia 21 de dezembro de 2007, pagina 06.

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Thursday, November 9, 2006

FIO CONDUTOR (Resenha)

FIO CONDUTOR

Comentário de GERMANO MACHADO*

 

            A poesia de Sérgio Mattos vem da juventude, possivelmente da infância, porque, moço, com outros, fez Experimental, nos anos 60, no Palácio da Sé, quando eu também, dirigindo o jornal diocesano A Semana, os apoei. Foi A Semana, conjugando juventude com adultez, imberbes com já amadurecidos e velhos, dentro da rígida padronização hierárquica religiosa, um ambiente para Sérgio Mattos e seus companheiros de Experimental, Poesia Experimental. De então para hoje, Sérgio tem tido uma vida aventurosa, nem sempre venturosa, crescendo do Brasil, da Bahia, vindo do Ceará, para os Estados Unidos, em ascensão para o jornalismo e a comunicação, agora também com a educação. De A Semana para a Tribuna da Bahia, para o IRDEB, para a América, para uma atuação polimorfa inegável
em A Tarde, doutorado em comunicação em o mundo estadunidense e jogando-se em publicações poéticas e comunicadoras. Sempre na evolvibilidade, mesmo no presente momento em que, para não ser um dependente de nada e de ninguém, como que está refazendo e re-ampliando a existência e a vivência. Que fique assim – sempre experimental na evolução (evolver) para não se esgotar, nem mediocrizar. É o que lhe deseja um velho de oitenta anos, seu amigo e admirador, também um aventuroso e nem sempre (ai de nós!) venturoso. Sérgio Mattos já tem nome nacional e vínculos internacionais, milita (é o termo realista) em uma revista como a Néon e coordena os cursos de Jornalismo e Relações Públicas das Faculdades Integradas Ipitangas (UNIBAHIA). É doutor (PhD) em Comunicação nos EUA e pertence (eu igualmente) à Academia de Letras e Artes do Salvador – ALAS -, da qual foi o primeiro Presidente. Não é muito ruista, mas também não irá de ser muito alencarino (cearense que é de nascimento).

            A introdução é longa, mas necessária, ao seu novo e último (em publicação, não em evolução) FIO CONDUTOR. O poema Fio Condutor (p.31), embora de 2001 e lhe tenha sugerido (com razão literária técnica) o título do livro, é completo e despido de facilidades totalmente, e merece, por isso, transcrição:

                                   “Entre versos o sussurro dos fatos

                                   São fendas de lucidez.

                                   O poema absoluto pode ser inalcançável,

                                   Mas todo poeta almeja transmitir

                                   Da vida a textura, não a experiência do sofredor.

 

                                   Na cacofonia intelectual quero ser o fio condutor

                                   Da poesia, transmitindo a textura da vida”

 

            Eis um “poema absoluto”, que supera o de rima, mesmo tecnicamente observado. E há um poema Solidão Literária (de 2004) p. 34, que Sérgio há de absorver constantemente, sempre a lhe estar na ponta do lápis e do cérebro e que, por força de necessidade, transcrevo também:

                                   “Não sigo escolas,

                                   Nem integro grupos.

                                   Abro novos caminhos

                                   E procuro comunicar,

                                   Dar meus recados,

                                   Simples e puro.

                                   Escrever é vital:

                                                           – Meus sentimentos indicam

                                                           O que é fundamental”.

 

            Eis o que você, Sérgio, há de de inculcar-se – sempre. O Mago, de 1998 (p.35) é exemplo disso, também.

            Bem racional e lógico, mas que não é intuitivo, sentido e cordial é o poema de 2002 – Onze de Setembro (p.47), falta-lhe ideologização, o que é importante não ter, mas sem tocar no espinho ferindo a carne do espírito…

            Você sabe, meu querido Sérgio Mattos, que você lembra, em vários poemas, Mário Quintana, fazendo centenário este ano? Pois é e vale! Não é coincidência. Alguns, poucos, é verdade, não gostei, o leitor tem o direito de opinião! Em Artista (p. 49). Não transcrevo, por exemplo. Inocência, de 1999, p. 53, é tão adequado que me lembra (olhe, o que digo), um trabalho de Elisabeth Bishop (traduza para o inglês). Não o copio a fim de não cansar. Pense no que afirmo.

            Missa Dominical, de 2001, p.56, para mim é completo. Bom Senso (p.57), ainda. Você não cai nunca no pieguismo e os louvores, aqui e ali, a Salvador, por exemplo, não se exageram…

            Enfim, como ledor, é que traço estas linhas e verifico que FIO CONDUTOR contém poemas de vários anos, o que demonstra que o autor quis mostrar o passo, em vários modos, da condução do seu poema. Sérgio Mattos vale porque é poeta e porque luta, enfrenta as tempestades, varonilmente. E basta.

            Faço questão que ele se mantenha assim: lutador, porque poeta e poeta, porque lutador. Tão platônico quanto aristotélico, mas platonicamente colocando acima do realismo, o ideal, e tão realista que é idealista…

            Jogo de palavras? Não. É que o seu fio condutor será sempre uma condição de luta por ideais. É um ENCANTAMENTO, p. 43:

                        “A poesia é nata

                        Inspira, transpira

                        E surge do nada”…

*GERMANO MACHADO, professor aposentado da UFBA e UCSal. Fundador do CEPA. Autor de A Longo Prazo, Sintetismo, Folosofia da Síntese, Tempo Decorrido (3ª edição), Da Física da Matéria à Metafísica do Espírito; jornalista, ensaísta, das Academias Baiana de Educação, Mater Salvatoris, Alas. Funcionário aposentado da Assembléia Legislativa da Bahia.

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Wednesday, August 9, 2006

O POETA DA BAIXINHA


 
NONATO MARQUES, O POETA DA BAIXINHA (Palavras pronunciadas pelo Acadêmico Sérgio Mattos em homenagem a Antonio Nonato Marques, na Sessão Saudade promovida pela ALAS – Academia de Letras e Artes do Salvador, no dia 12 de junho de 2006.)    Meus confrades, minhas confreiras, meus senhores, minhas senhoras, parentes do homenageado:  Como epigrafe do resumo de seu curriculum vitae, intitulado por ele mesmo como “Síntese de uma vida”, Nonato Marques escolheu uma citação de Leon Dénis que se aplica e muito bem para a homenagem que lhe prestamos na noite de hoje. Senão vejamos:    “Cada um constrói, dia por dia, hora por hora, muitas vezes sem mesmo o saber, seu próprio futuro. A sorte que nos cabe na vida atual foi preparada pelas nossas ações anteriores, da mesma forma edificamos no presente as condições da existência”.    É isso mesmo Nonato Marques, você soube, ao longo de 96 anos bem vividos, construir a poesia que foi a sua vida, no dia-a-dia, tecendo, laboriosamente os caminhos e as edificações de sua existência. Ao escolher a poesia como arte para transmitir seus sentimentos e observações, você metrificou suavemente o seu viver diário, com o ritmo e a sonoridade das palavras trabalhadas como se jóias fossem, marcando o seu compasso, suas ações e determinando o futuro que você ainda terá na história da vida literária baiana.  Ao optar pela carreira agronômica, você fez a escolha pelo meio ambiente, pela natureza, pela preservação da vida, pela ecologia. Não deixou aqui também de ser poeta. Isto porque ao fazer a opção profissional de trabalhar com os quatro elementos – terra, ar, água e fogo – você se aproximou mais ainda do sentido da própria vida, da necessidade do registro, do resgate e da preservação da natureza e do próprio homem. Ao exercer cargos públicos, inclusive eletivos, você demonstrou sua capacidade de contribuir pela edificação de um mundo melhor, pelo menos aquele sonhado pelo poeta que você foi e continuará sendo, buscando encontrar as alternativas necessárias para a melhoria do nosso povo, sertanejo e sofrido.      Como homem deixou sua marca, registrando sua passagem, sua existência nesta terra: Pensou e escreveu inúmeros livros e trabalhos, repercutindo sua experiência de vida e transmitindo conhecimentos para as novas gerações. Viveu seu tempo, quase um século, e nele deixou sua marca. Plantou não uma, mas inúmeras árvores. Deixou uma extensa prole e inúmeros amigos que saberão reproduzir sua obra que haverá de permanecer porque tem um cunho universal.  É isso Nonato Marques, você foi um homem e um amigo leal, mas também um Grande Poeta. Você já não é mais do Grupo da Baixinha, pois a partir de agora passou a integrar o Grupo dos Poetas Encantados, como Castro Alves, Drumonnd, Bandeira e muitos outros. Ao poeta Antonio Nonato Marques, ocupante da cadeira nº 40, dessa ALAS que tem como patrono Guilard Muniz, que foi o grande jardineiro de Salvador, é dedicada esta sessão especial, que com muita propriedade é intitulada Sessão Saudade.    Coube-me a missão de falar sobre o poeta, meu amigo por mais de 35 anos e por quem desenvolvi profunda admiração.  Conheci Nonato Marques pessoalmente quando, no início da década de 70, editando o suplemento “Jornal de Utilidades”, um dos projetos editoriais que desenvolvi para o Jornal A TARDE, ele comparecia semanalmente para levar sua contribuição para o caderno: o conteúdo de nossa página agrícola. Com uma voz grave e empostada, com os olhos pequenos e faiscantes de inteligência, Nonato me passava os artigos e as notícias com as quais eu deveria editar a página agrícola. Ele sempre manifestava sua opinião e recomendava o que era mais importante a ser destacado na página, com a autoridade de quem havia sido o homem responsável pelo desenvolvimento da agricultura do estado da Bahia.  Foi a partir destes encontros semanais que surgiu nossa amizade. Mais tarde, a partir de 1985, quando à frente de outros projetos editoriais de A Tarde, os suplementos A Tarde Municípios e  A Tarde Rural, dos quais também fui idealizador e editor, Nonato se aproximou mais ainda. Aí já não colaborava apenas no suplemento rural, mas também com seus artigos e crônicas que publicávamos
em A Tarde Municípios, sempre abordando temas de interesse regionais, fossem eles sobre economia agrícola, ou  de resgate da cultura da região sisaleira. Não faltavam, naturalmente, seus poemas e artigos sobre Santo Antônio de Queimadas e muitas outras histórias.
 Ele não se satisfazia apenas com o fato de entregar pessoalmente o artigo em minhas nas mãos. Ele queria ter a certeza de que o editor-amigo iria lê-lo antes de publicá-lo e, para não deixar dúvidas sobre isto, levava-me a um canto da sala da redação, onde com sua voz empolgada, lia o texto em voz alta, dando a ênfase necessária às palavras ou trechos que achava serem os mais importantes. Isso sem contar com os poemas de época. Ele não deixava passar uma data importante (Dia das Mães, Dia dos Pais, da Criança, Natal, Quaresma etc) sem levar um poema com a temática do dia, sempre tentando garantir sua publicação, não importava onde, em que caderno, o importante é que fosse publicado. Se não conseguia espaço no caderno Cultural ou no Caderno 2 de A Tarde, me procurava e quando possível eu publicava suas colaborações tanto em Municípios como em Rural.  Só no período em que fui editor de A Tarde Municípios e de A Tarde Rural, convivi com a visita semanal de Nonato por mais de 18 anos, entre 1985 a 2003. Esta convivência foi ampliada a partir do ano de 1999, quando começamos, no salão de festas do prédio do acadêmico Rozendo Ferreira, as reuniões semanais que deliberaram a constituição desta ALAS –Academia de Letras e Artes do Salvador, instalada oficialmente em dezembro daquele mesmo ano e da qual tive a honra de ter sido o primeiro presidente. Nonato Marques esteve presente desde os primeiros momentos da constituição desta ALAS, só faltando às reuniões por motivo de força maior. Nonato Marques era assim, de uma simplicidade sem par e ao mesmo tempo um homem persistente, seguro do que queria e brilhante no que fazia. Era também um excelente orador e crítico literário além de sentir muito orgulho sobre o que escrevia, valorizando ainda mais a publicação dos seus textos.     Como orador destacou-se na Câmara Federal ao lado de parlamentares e grandes oradores como o velho Mangabeira, Artur Bernardes, Afonso Arinos, Aliomar Baleeiro, Nestor Duarte e Carlos Lacerda, entre outros tão famosos quanto estes.  Nonato Marques nos contou, com uma dose de ironia e muito humor, em palestra aqui realizada, sob o título de “Pinga Fogo”, apelido dado às sessões do pequeno-expediente da Câmara dos Deputados devido à irreverência parlamentar, como se deu sua estréia na tribuna da Câmara Federal:     “Naquele recinto heráldico e cintilante, eu – pobre provinciano egresso das caatingas, sentia-me mais insignificante do que uma ameba. A minha constante e invencível timidez matuta se apoderou de mim com todo o peso de sua contenção insuportável. Mas, era preciso falar, dizer alguma coisa, desembuchar, enfim. A muito custo arranjei uma vaga para falar no grande–expediente. Logo no grande-expediente, onde o orador fica no alto, por conseguinte mais exposto aos aplausos ou aos massacres. Antes, para amansar os nervos rebeldes, eu havia preparado o discurso no melhor estilo de que fui capaz, com todas as vírgulas e acentos no lugar, caprichando no português à moda de Coimbra, mas uma surpresa desagradável me espreitava: na hora aprazada subi à tribuna como quem vai para um patíbulo. Do plenário, os olhares que para mim se dirigiam eram como se fossem farpas a me estraçalharem o coração. Proferi as saudações protocolares: Senhor Presidente, senhores deputados. Puxei do bolso o calhamaço. Procurei os óculos. Onde estavam os óculos? Apalpei os bolsos, nada. Na afobação, havia esquecido em casa os meus protetores visuais. Descer da tribuna seria um fiasco. De repente, não mais que de repente, uma reação raivosa se apoderou de mim e devolvendo ao bolso o papelório, fui forçado a falar sem as muletas escritas que eu havia cuidadosamente preparado. Quando terminei e desci da tribuna estava alagado de suor. Havia saído da maior batalha íntima que travei em toda a minha vida. Isto me fez lembrar Camões, quando o genial caolho adverte: ‘que o outeiro é mais fácil de descer do que de subir’. E a tribuna também.”     Ainda na Câmara Federal Nonato Marques praticou o que ele mais gostava de fazer: versos, sonetos satíricos ou epigramáticos, mas sem o propósito pejorativo. Durante as longas sessões de discursos na Câmara, para passar ou matar o tempo ele escrevia sonetos e se escondia por trás de um pseudônimo: Marquês das Laranjeiras. Marquês, segundo ele, derivado de Marques, seu nome de família, e Laranjeiras, proveniente do bairro em que residia no Rio de Janeiro. Dentre os muitos sonetos satíricos de Nonato Marques ou Marquês das Laranjeiras destaco dois, escritos em 1956 durante o desenrolar de sessões agitadas:  Está aberta a sessão. O presidente
toca a sineta. Há número na casa.
O secretário lê todo o expediente
e a águia do verbo sobre nós abre a asa. Depois há sururu…o verbo abrasa.
Há sempre, cada dia, um bom valente
que desafia, esbraveja e arrasa
a paciência e o humor de toda gente. Ninguém briga, afinal. É só arrelia.
Há uma turma do deixa-disso atenta,
que acaba de mansinho a valentia. Depois se vota. Tudo entra nos trilhos.
Vai se votando no levanta e senta
No vai e vem solene dos fundilhos.      Um outro soneto satírico do Marquês das Laranjeiras foi inspirado numa intervenção do então deputado Adauto Lúcio Cardoso ao dar um voto favorável a um projeto, recomendando que fosse melhorada sua redação final: Diz o Adauto: “Eu espero que o Senado
melhore a redação deste projeto.”
Ele quer português do bom, correto,
flor do jardim do Lácio decantado. Tudo isso para mim parece errado:
O que importa, de fato, no projeto,
direto ou não, é apenas o objeto,
é
o tal sujeito oculto ou disfarçado. Que importa na política a gramática,
A prosódia, a sintaxe, a sistemática,
todos esses troços complicados? Que importa, amigo, deixa esses defeitos.
Valem mais em política os sujeitos
E valem muito pouco os predicados.     Este era o Nonato Marques, inteligente, bem humorado e que nunca deixou de dar oportunidades tanto a jovens como a poetas já estabelecidos como também escrevia sobre os mesmos. Escreveu inúmeros prefácios, orelhas e artigos enaltecendo obras. Eu mesmo tive a felicidade de ser resenhado por ele, que com estilo elegante escreveu sobre dois de meus livros de poemas,  “Asas Para Amar” e “Estandarte”.  Certa feita, como fui fazer o lançamento destas obras em Queimadas, sua terra natal, ele fez questão de ir para lá para me receber, me  saudar  e me apresentar aos seus conterrâneos. Nonato foi um homem marcante e teve uma vida pública marcante. Que o diga sua esposa, dona Maria Angélica Marques, seus filhos, netos e bisnetos. Que o diga seus amigos, pois inimigos não os teve. O escritor, político, engenheiro agrônomo e Poeta, com letra maiúscula, Antonio Nonato Marques, autor de “A Poesia era uma festa” (1996) era também um memorialista de mão cheia.    Em resumo, Antonio Nonato Marques nasceu na antiga Vila Bela de Santo Antonio das Queimadas, atual cidade de Queimadas – Bahia, no dia 27 de abril de 1910 e morreu no dia 5 de abril de 2006, ou sejam 22 dias antes de completar  96 anos de idade. Fez seu curso elementar em sua cidade natal e o curso complementar na cidade de Alagoinhas.  Em 1924 começou a fazer exames preparatórios no antigo Ginásio da Bahia. Em 1934 prestou exame vestibular para a Escola Agrícola da Bahia, onde se diplomou tendo sido escolhido como orador da turma de Engenheiros Agrônomos de 1937.  Como agrônomo ocupou muitos cargos inclusive o de Secretário da Agricultura e Comércio da Bahia e Presidente do Instituto Baiano do Fumo entre outros. Foi deputado estadual pela “coligação baiana” (PSD/PTB) eleito em 1950 e deputado federal em 1954 pelo PSD (Partido Social Democrático) tendo se reelegido para mais dois mandatos na Câmara Federal, em 1961 e 1964. Permaneceu na Câmara Federal até 1967, quando se afastou definitivamente da política. Depois passou a se dedicar a funções ligadas à sua profissão de agrônomo.     Como escritor e poeta colaborou em diversos jornais e revistas do estado e do País, com artigos técnicos e literários. As suas produções na imprensa diária ou periódica dariam para formar livros sobre assuntos diversos. Durante oito anos consecutivos foi responsável pela seção de agricultura e pecuária do jornal A Tarde, tendo editado boletins técnicos e informativos das entidades autárquicas, fundações e associativas a que serviu. Como jornalista desempenhou ainda as seguintes funções, em 1939,  “Chefe do Serviço de Publicidade do Instituto Bahiano do Fumo, tendo sido na oportunidade também o redator-chefe do Boletim Informativo daquela autarquia e diretor da revista “Bahia Rural”. Em 1941 com a criação do departamento de Assistência ao Cooperativismo foi designado como responsável da Seção de Propaganda e Divulgação, tendo sob sua responsabilidade a revista “COOP” que ali era editada. Posteriormente, em 1942 assumiu a diretoria do Departamento de Assistência ao Cooperativismo. Em 1945  foi nomeado pela primeira vez Secretário da Agricultura, e logo em seguida Diretor da Escola de Agronomia, em Cruz das Almas. Foi ainda Inspetor Geral do Transito (1947), Presidente do Instituto Baiano do Fumo (1941 a 1951); Presidente da Comissão Estadual de Preço (1951 a 1952), Eleito deputado estadual em 1950 foi nomeado Secretário da Agricultura em 1951. Além destas funções, ele  exerceu várias outras, como também integrou várias comissões e conselhos  além de ter sido presidente do Conselho Administrativo da Caixa Econômica Federal.  Na área acadêmica foi diretor da Escola de Agronomia de Cruz das Almas e fundador da Faculdade de Medicina Veterinária da UFBA. Em sua homenagem, a EBDA – Empresa Bahiana de Desenvolvimento Agropecuário, mantém, aqui em Salvador, no bairro da Ondina, um herbário com seu nome e que foi fundado em 1952 com um acervo de 13 mil espécies.  Nonato Marques integrou ainda as seguintes entidades:  Associação dos Engenheiros Agrônomos da Bahia, Sindicato dos Engenheiros da Bahia, Associação Baiana de Imprensa (ABI), Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. Foi também membro fundador da Academia de Artes e Letras do Salvador – ALAS, da qual nunca deixou de manifestar orgulho por integrá-la. Esta ALAS também se sente honrada, permito-me a ousadia de falar em nome de todos os seus membros,  em ter tido entre seus fundadores um dos mais brilhantes poetas baianos do século XX: Antonio Nonato Marques, o Marquês das Laranjeiras, O poeta da Baixinha, hoje um Nonato Encantado.     A atividade literária, sobretudo na área da criação poética, iniciada na adolescência, o acompanhou  por toda a vida. Em poesia publicou:  “Poemas de meu enlevo”, “Poemas do Céu e da Terra”, “Tempo de Poesia”, “A poesia era uma festa”, “Os dois últimos poetas da Baixinha”, em parceria com o também poeta Bráulio de Abreu. Na prosa, destacam-se: “O Lado verde da vida”, “Dom Pedro I e seus amores”, “Pinga-Fogo”, “Santo Antonio das Queimadas” e “Uma Porta para Canudos”. Escreveu duas peças para teatro: “A Procura de Marido” e “O Gigante também tem asas”, que foram encenadas em algumas cidades baianas. Deixou inédito o livro “Crônicas Rurais” que a ALAS poderia tomar a iniciativa, fica registrado aqui a proposta, de tentar publicá-lo ou encontrar um patrocínio neste sentido. Outras produções literárias de Nonato Marques foram também publicadas em revistas e jornais do sul do país. E a respeito desses trabalhos existe uma grande fortuna crítica. Na área de estudos técnicos vinculados à agronomia destacam-se títulos como: “Geografia do Fumo na Bahia”, “Iniciação Cooperativista” , “Pessoas, Plantas e Animais” e monografias técnicas como “O Sisal na Bahia” e “O Umbuzeiro”.      Falar sobre Nonato Marque é falar sobre uma parte da história da vida literária da Bahia e sendo assim, não podemos deixar de destacar o seu papel  como membro do Grupo de Poetas da Baixinha. A denominação de Baixinha, era porque o Café Progresso, onde jovens poetas-boêmios se encontravam,  estava situado próximo a um larguinho, de onde despontam as ladeiras do Carmo, do Passo e do Pelourinho, e que liga a Baixa dos Sapateiros ao Taboão.  O Grupo da Baixinha, que  tinha como mecenas Raimundo Pena Forte, era formado por rapazes de 18 a 21 anos de idade, boêmios talentosos que passavam todo o tempo improvisando e escrevendo literatura em cafés e bares da cidade. O grupo da Baixinha freqüentava o Café Progresso até o horário de saída do último bonde. Fizeram parte do Grupo da Baixinha: Alves Ribeiro, Aníbal Rocha, Amphilophio Britto, Ângelo Brandão Donatti, Bráulio de Abreu, Clodoaldo Milto, Dagmar Pinto, De Souza Aguiar, Epaminondas Pontes, Elpídio Bastos, Egberto de Campos Ribeiro, Honorato Gomes, Leite Filho, Nonato Marques, Otto Bittencourt Sobrinho, Pereira Reis Júnior, Pinheiro Viegas, Raimundo Penna Forte, Samuel de Brito Filho, Wasny Casaes e Zaluar de Carvalho. O Grupo da Baixinha era conservador e seus integrantes cultivavam o verso rigorosamente metrificado, no melhor estilo parnasiano.              O Grupo foi responsável pelo lançamento da revista SAMBA que marcou época e presença na história da vida literária baiana dos anos vinte do século passado. Graças ao Conselho de Cultura do Estado da Bahia recentemente saiu publicada uma edição facsimilada da mesma. A revista mensal Samba foi a primeira de feição modernista a ser editada na Bahia, sendo, portanto, precursora da revista  Arco & Flexa, liderada pelo poeta e crítico Carlos Chiacchio.  Segundo depoimento de Nonato Marques, no livro “A poesia era uma festa”, “Samba era uma revista modesta composta em papel jornal. Foram publicados apenas quatro números. A revista teve vida efêmera como os cometas, porém, mesmo assim, deixou um traço luminoso na história da vida literária”. Nonato Marques registrou, no livro “A poesia era uma festa”, publicado em 1994,  o seu tempo poético de vida com as seguintes e precisas  palavras:       “No meu tempo a poesia fazia parte do cotidiano da vida da província. Vale dizer: habitava a idade dos homens e como eles conviviam no seu dia-a-dia, através da leitura de revistas e jornais que lhe abriam espaços generosos. A poesia se misturava com as pessoas, alegrando-as, divertindo-as, animando-lhes as festas cívicas e particulares, conquistando-as de tal maneira que era muito raro encontrar alguém, ainda que medianamente instruído que não soubesse de cor alguns versos de sua predileção”.  Nonato nos deixou um legado como obras. Deixou também viúva, dona Maria Angélica Marques, sete filhos, 13 netos e quatros bisnestos, a quem estendo esta homenagem com a palavra de muito obrigado, por ter ajudado na edificação da obra deste poeta encantado. Para finalizar vou recitar  alguns poema do POETA NONATO MARQUES:    DESPEDIDA      Foi bem ali naquela ponte estreita
- em tudo a um cromo antigo parecida –
que ela tristonha e um tanto contrafeita
levou-me seu adeus de despedida. Entre meus braços tensos envolvida,
ela por entre lágrimas desfeita
maldizia a desdita da partida
que ia forçada a viver insatisfeita.
 Era a separação. Era a distância.
Era a ausência cruel – próxima e expressa –
que violentava um grande amor de infância.
 Pelo meu rosto junto a minha fronte
as lágrimas corriam mais depressa
do que a água que corria sob a ponte…
                        

 

 BONECA  Porque ela é tão pequena e tão franzina
até receio quando alguém nos vê
beijar suas mãositas de musmê
ante seus olhos grandes de menina.

Ela parece assim (não sei porquê)
tendo uma boca rubra e pequenina,
uma boneca original da China
que ri e dança namora e lê.


Tenho receio de tocar de leve
aquela alvinha como a neve,
aquela carne tentadora e louca.


Se beijo-a muito, tenho muita pena
porque ela é tão franzina e tão pequena
que o meu beijo mau cabe em sua boca.
       Trecho de um outro poema referindo-se à época em que a poesia era uma festa: “…os rapazes boêmios daqueles
tempos perambulavam a declamar
pelas ruas tortuosas e
enladeiradas de Salvador,
até altas horas da noite,
dentro da qual sibilava ,
a intervalos, o apito do guarda
noturno e se ouvia o grito
dolente e comprido
da negra do acarajé.”
       Salve Nonato Marques, o Marquês das Laranjeiras, o mais novo Poeta Encantado da Bahia! Muito obrigado.
 
 Outono de 2006, Salvador, 12/06/2006.    

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Monday, August 7, 2006

O POETA DA BAIXINHA

NONATO MARQUES, O POETA DA BAIXINHA


 (Palavras pronunciadas pelo Acadêmico Sérgio Mattos em homenagem a Antonio Nonato Marques, na Sessão Saudade promovida pela ALAS – Academia de Letras e Artes do Salvador, no dia 12 de junho de 2006).  Meus confrades, minhas confreiras, meus senhores, minhas senhoras, parentes do homenageado:       Como epigrafe do resumo de seu curriculum vitae, intitulado por ele mesmo como “Síntese de uma vida”, Nonato Marques escolheu uma citação de Leon Dénis que se aplica e muito bem para a homenagem que lhe prestamos na noite de hoje. Senão vejamos:  “Cada um constrói, dia por dia, hora por hora, muitas vezes sem mesmo o saber, seu próprio futuro. A sorte que nos cabe na vida atual foi preparada pelas nossas ações anteriores, da mesma forma edificamos no presente as condições da existência”.     É isso mesmo Nonato Marques, você soube, ao longo de 96 anos bem vividos, construir a poesia que foi a sua vida, no dia-a-dia, tecendo, laboriosamente os caminhos e as edificações de sua existência. Ao escolher a poesia como arte para transmitir seus sentimentos e observações, você metrificou suavemente o seu viver diário, com o ritmo e a sonoridade das palavras trabalhadas como se jóias fossem, marcando o seu compasso, suas ações e determinando o futuro que você ainda terá na história da vida literária baiana.  Ao optar pela carreira agronômica, você fez a escolha pelo meio ambiente, pela natureza, pela preservação da vida, pela ecologia. Não deixou aqui também de ser poeta. Isto porque ao fazer a opção profissional de trabalhar com os quatro elementos – terra, ar, água e fogo – você se aproximou mais ainda do sentido da própria vida, da necessidade do registro, do resgate e da preservação da natureza e do próprio homem. Ao exercer cargos públicos, inclusive eletivos, você demonstrou sua capacidade de contribuir pela edificação de um mundo melhor, pelo menos aquele sonhado pelo poeta que você foi e continuará sendo, buscando encontrar as alternativas necessárias para a melhoria do nosso povo, sertanejo e sofrido.       Como homem deixou sua marca, registrando sua passagem, sua existência nesta terra: Pensou e escreveu inúmeros livros e trabalhos, repercutindo sua experiência de vida e transmitindo conhecimentos para as novas gerações. Viveu seu tempo, quase um século, e nele deixou sua marca. Plantou não uma, mas inúmeras árvores. Deixou uma extensa prole e inúmeros amigos que saberão reproduzir sua obra que haverá de permanecer porque tem um cunho universal.  É isso Nonato Marques, você foi um homem e um amigo leal, mas também um Grande Poeta. Você já não é mais do Grupo da Baixinha, pois a partir de agora passou a integrar o Grupo dos Poetas Encantados, como Castro Alves, Drumonnd, Bandeira e muitos outros. Ao poeta Antonio Nonato Marques, ocupante da cadeira nº 40, dessa ALAS que tem como patrono Guilard Muniz, que foi o grande jardineiro de Salvador, é dedicada esta sessão especial, que com muita propriedade é intitulada Sessão Saudade.      Coube-me a missão de falar sobre o poeta, meu amigo por mais de 35 anos e por quem desenvolvi profunda admiração.  Conheci Nonato Marques pessoalmente quando, no início da década de 70, editando o suplemento “Jornal de Utilidades”, um dos projetos editoriais que desenvolvi para o Jornal A TARDE, ele comparecia semanalmente para levar sua contribuição para o caderno: o conteúdo de nossa página agrícola. Com uma voz grave e empostada, com os olhos pequenos e faiscantes de inteligência, Nonato me passava os artigos e as notícias com as quais eu deveria editar a página agrícola. Ele sempre manifestava sua opinião e recomendava o que era mais importante a ser destacado na página, com a autoridade de quem havia sido o homem responsável pelo desenvolvimento da agricultura do estado da Bahia.  Foi a partir destes encontros semanais que surgiu nossa amizade. Mais tarde, a partir de 1985, quando à frente de outros projetos editoriais de A Tarde, os suplementos A Tarde Municípios e  A Tarde Rural, dos quais também fui idealizador e editor, Nonato se aproximou mais ainda. Aí já não colaborava apenas no suplemento rural, mas também com seus artigos e crônicas que publicávamos
em A Tarde Municípios, sempre abordando temas de interesse regionais, fossem eles sobre economia agrícola, ou  de resgate da cultura da região sisaleira. Não faltavam, naturalmente, seus poemas e artigos sobre Santo Antônio de Queimadas e muitas outras histórias.
 Ele não se satisfazia apenas com o fato de entregar pessoalmente o artigo em minhas nas mãos. Ele queria ter a certeza de que o editor-amigo iria lê-lo antes de publicá-lo e, para não deixar dúvidas sobre isto, levava-me a um canto da sala da redação, onde com sua voz empolgada, lia o texto em voz alta, dando a ênfase necessária às palavras ou trechos que achava serem os mais importantes. Isso sem contar com os poemas de época. Ele não deixava passar uma data importante (Dia das Mães, Dia dos Pais, da Criança, Natal, Quaresma etc) sem levar um poema com a temática do dia, sempre tentando garantir sua publicação, não importava onde, em que caderno, o importante é que fosse publicado. Se não conseguia espaço no caderno Cultural ou no Caderno 2 de A Tarde, me procurava e quando possível eu publicava suas colaborações tanto em Municípios como em Rural.     Só no período em que fui editor de A Tarde Municípios e de A Tarde Rural, convivi com a visita semanal de Nonato por mais de 18 anos, entre 1985 a 2003. Esta convivência foi ampliada a partir do ano de 1999, quando começamos, no salão de festas do prédio do acadêmico Rozendo Ferreira, as reuniões semanais que deliberaram a constituição desta ALAS –Academia de Letras e Artes do Salvador, instalada oficialmente em dezembro daquele mesmo ano e da qual tive a honra de ter sido o primeiro presidente. Nonato Marques esteve presente desde os primeiros momentos da constituição desta ALAS, só faltando às reuniões por motivo de força maior. Nonato Marques era assim, de uma simplicidade sem par e ao mesmo tempo um homem persistente, seguro do que queria e brilhante no que fazia. Era também um excelente orador e crítico literário além de sentir muito orgulho sobre o que escrevia, valorizando ainda mais a publicação dos seus textos.     Como orador destacou-se na Câmara Federal ao lado de parlamentares e grandes oradores como o velho Mangabeira, Artur Bernardes, Afonso Arinos, Aliomar Baleeiro, Nestor Duarte e Carlos Lacerda, entre outros tão famosos quanto estes.  Nonato Marques nos contou, com uma dose de ironia e muito humor, em palestra aqui realizada, sob o título de “Pinga Fogo”, apelido dado às sessões do pequeno-expediente da Câmara dos Deputados devido à irreverência parlamentar, como se deu sua estréia na tribuna da Câmara Federal: 
    
“Naquele recinto heráldico e cintilante, eu – pobre provinciano egresso das caatingas, sentia-me mais insignificante do que uma ameba. A minha constante e invencível timidez matuta se apoderou de mim com todo o peso de sua contenção insuportável. Mas, era preciso falar, dizer alguma coisa, desembuchar, enfim. A muito custo arranjei uma vaga para falar no grande–expediente. Logo no grande-expediente, onde o orador fica no alto, por conseguinte mais exposto aos aplausos ou aos massacres. Antes, para amansar os nervos rebeldes, eu havia preparado o discurso no melhor estilo de que fui capaz, com todas as vírgulas e acentos no lugar, caprichando no português à moda de Coimbra, mas uma surpresa desagradável me espreitava: na hora aprazada subi à tribuna como quem vai para um patíbulo. Do plenário, os olhares que para mim se dirigiam eram como se fossem farpas a me estraçalharem o coração. Proferi as saudações protocolares: Senhor Presidente, senhores deputados. Puxei do bolso o calhamaço. Procurei os óculos. Onde estavam os óculos? Apalpei os bolsos, nada. Na afobação, havia esquecido em casa os meus protetores visuais. Descer da tribuna seria um fiasco. De repente, não mais que de repente, uma reação raivosa se apoderou de mim e devolvendo ao bolso o papelório, fui forçado a falar sem as muletas escritas que eu havia cuidadosamente preparado. Quando terminei e desci da tribuna estava alagado de suor. Havia saído da maior batalha íntima que travei em toda a minha vida. Isto me fez lembrar Camões, quando o genial caolho adverte: ‘que o outeiro é mais fácil de descer do que de subir’. E a tribuna também.”         Ainda na Câmara Federal Nonato Marques praticou o que ele mais gostava de fazer: versos, sonetos satíricos ou epigramáticos, mas sem o propósito pejorativo. Durante as longas sessões de discursos na Câmara, para passar ou matar o tempo ele escrevia sonetos e se escondia por trás de um pseudônimo: Marquês das Laranjeiras. Marquês, segundo ele, derivado de Marques, seu nome de família, e Laranjeiras, proveniente do bairro em que residia no Rio de Janeiro. Dentre os muitos sonetos satíricos de Nonato Marques ou Marquês das Laranjeiras destaco dois, escritos em 1956 durante o desenrolar de sessões agitadas:  Está aberta a sessão. O presidente
toca a sineta. Há número na casa.
O
secretário lê todo o expediente
e a águia do verbo sobre nós abre a asa. Depois há sururu…o verbo abrasa.
Há sempre, cada dia, um bom valente
que desafia, esbraveja e arrasa
a paciência e o humor de toda gente. Ninguém briga, afinal. É só arrelia.
Há uma turma do deixa-disso atenta,
que acaba de mansinho a valentia. Depois se vota. Tudo entra nos trilhos.
Vai se votando no levanta e senta
No vai e vem solene dos fundilhos.         Um outro soneto satírico do Marquês das Laranjeiras foi inspirado numa intervenção do então deputado Adauto Lúcio Cardoso ao dar um voto favorável a um projeto, recomendando que fosse melhorada sua redação final: Diz o Adauto: “Eu espero que o Senado
melhore a redação deste projeto.”
Ele quer português do bom, correto,
flor do jardim do Lácio decantado. Tudo isso para mim parece errado:
O que importa, de fato, no projeto,
direto ou não, é apenas o objeto,
é
o tal sujeito oculto ou disfarçado. Que importa na política a gramática,
A prosódia, a sintaxe, a sistemática,
todos esses troços complicados? Que importa, amigo, deixa esses defeitos.
Valem mais em política os sujeitos
E valem muito pouco os predicados.       Este era o Nonato Marques, inteligente, bem humorado e que nunca deixou de dar oportunidades tanto a jovens como a poetas já estabelecidos como também escrevia sobre os mesmos. Escreveu inúmeros prefácios, orelhas e artigos enaltecendo obras. Eu mesmo tive a felicidade de ser resenhado por ele, que com estilo elegante escreveu sobre dois de meus livros de poemas,  “Asas Para Amar” e “Estandarte”.  Certa feita, como fui fazer o lançamento destas obras em Queimadas, sua terra natal, ele fez questão de ir para lá para me receber, me  saudar  e me apresentar aos seus conterrâneos. Nonato foi um homem marcante e teve uma vida pública marcante. Que o diga sua esposa, dona Maria Angélica Marques, seus filhos, netos e bisnetos. Que o diga seus amigos, pois inimigos não os teve. O escritor, político, engenheiro agrônomo e Poeta, com letra maiúscula, Antonio Nonato Marques, autor de “A Poesia era uma festa” (1996) era também um memorialista de mão cheia.     Em resumo, Antonio Nonato Marques nasceu na antiga Vila Bela de Santo Antonio das Queimadas, atual cidade de Queimadas – Bahia, no dia 27 de abril de 1910 e morreu no dia 5 de abril de 2006, ou sejam 22 dias antes de completar  96 anos de idade. Fez seu curso elementar em sua cidade natal e o curso complementar na cidade de Alagoinhas.  Em 1924 começou a fazer exames preparatórios no antigo Ginásio da Bahia. Em 1934 prestou exame vestibular para a Escola Agrícola da Bahia, onde se diplomou tendo sido escolhido como orador da turma de Engenheiros Agrônomos de 1937.  Como agrônomo ocupou muitos cargos inclusive o de Secretário da Agricultura e Comércio da Bahia e Presidente do Instituto Baiano do Fumo entre outros. Foi deputado estadual pela “coligação baiana” (PSD/PTB) eleito em 1950 e deputado federal em 1954 pelo PSD (Partido Social Democrático) tendo se reelegido para mais dois mandatos na Câmara Federal, em 1961 e 1964. Permaneceu na Câmara Federal até 1967, quando se afastou definitivamente da política. Depois passou a se dedicar a funções ligadas à sua profissão de agrônomo.        Como escritor e poeta colaborou em diversos jornais e revistas do estado e do País, com artigos técnicos e literários. As suas produções na imprensa diária ou periódica dariam para formar livros sobre assuntos diversos. Durante oito anos consecutivos foi responsável pela seção de agricultura e pecuária do jornal A Tarde, tendo editado boletins técnicos e informativos das entidades autárquicas, fundações e associativas a que serviu. Como jornalista desempenhou ainda as seguintes funções, em 1939,  “Chefe do Serviço de Publicidade do Instituto Bahiano do Fumo, tendo sido na oportunidade também o redator-chefe do Boletim Informativo daquela autarquia e diretor da revista “Bahia Rural”. Em 1941 com a criação do departamento de Assistência ao Cooperativismo foi designado como responsável da Seção de Propaganda e Divulgação, tendo sob sua responsabilidade a revista “COOP” que ali era editada. Posteriormente, em 1942 assumiu a diretoria do Departamento de Assistência ao Cooperativismo. Em 1945  foi nomeado pela primeira vez Secretário da Agricultura, e logo em seguida Diretor da Escola de Agronomia, em Cruz das Almas. Foi ainda Inspetor Geral do Trânsito (1947), Presidente do Instituto Baiano do Fumo (1941 a 1951); Presidente da Comissão Estadual de Preço (1951 a 1952), Eleito deputado estadual em 1950 foi nomeado Secretário da Agricultura em 1951. Além destas funções, ele  exerceu várias outras, como também integrou várias comissões e conselhos  além de ter sido presidente do Conselho Administrativo da Caixa Econômica Federal.      Na área acadêmica foi diretor da Escola de Agronomia de Cruz das Almas e fundador da Faculdade de Medicina Veterinária da UFBA. Em sua homenagem, a EBDA – Empresa Bahiana de Desenvolvimento Agropecuário, mantém, aqui em Salvador, no bairro da Ondina, um herbário com seu nome e que foi fundado em 1952 com um acervo de 13 mil espécies.  Nonato Marques integrou ainda as seguintes entidades:  Associação dos Engenheiros Agrônomos da Bahia, Sindicato dos Engenheiros da Bahia, Associação Baiana de Imprensa (ABI), Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. Foi também membro fundador da Academia de Artes e Letras do Salvador – ALAS, da qual nunca deixou de manifestar orgulho por integrá-la.     Esta ALAS também se sente honrada, permito-me a ousadia de falar em nome de todos os seus membros,  em ter tido entre seus fundadores um dos mais brilhantes poetas baianos do século XX: Antonio Nonato Marques, o Marquês das Laranjeiras, O poeta da Baixinha, hoje um Nonato Encantado. A atividade literária, sobretudo na área da criação poética, iniciada na adolescência, o acompanhou  por toda a vida. Em poesia publicou:  “Poemas de meu enlevo”, “Poemas do Céu e da Terra”, “Tempo de Poesia”, “A poesia era uma festa”, “Os dois últimos poetas da Baixinha”, em parceria com o também poeta Bráulio de Abreu. Na prosa, destacam-se: “O Lado verde da vida”, “Dom Pedro I e seus amores”, “Pinga-Fogo”, “Santo Antonio das Queimadas” e “Uma Porta para Canudos”. Escreveu duas peças para teatro: “A Procura de Marido” e “O Gigante também tem asas”, que foram encenadas em algumas cidades baianas. Deixou inédito o livro “Crônicas Rurais” que a ALAS poderia tomar a iniciativa, fica registrado aqui a proposta, de tentar publicá-lo ou encontrar um patrocínio neste sentido. Outras produções literárias de Nonato Marques foram também publicadas em revistas e jornais do sul do país. E a respeito desses trabalhos existe uma grande fortuna crítica. Na área de estudos técnicos vinculados à agronomia destacam-se títulos como: “Geografia do Fumo na Bahia”, “Iniciação Cooperativista” , “Pessoas, Plantas e Animais” e monografias técnicas como “O Sisal na Bahia” e “O Umbuzeiro”.      Falar sobre Nonato Marque é falar sobre uma parte da história da vida literária da Bahia e sendo assim, não podemos deixar de destacar o seu papel  como membro do Grupo de Poetas da Baixinha. A denominação de Baixinha, era porque o Café Progresso, onde jovens poetas-boêmios se encontravam,  estava situado próximo a um larguinho, de onde despontam as ladeiras do Carmo, do Passo e do Pelourinho, e que liga a Baixa dos Sapateiros ao Taboão.  O Grupo da Baixinha, que  tinha como mecenas Raimundo Pena Forte, era formado por rapazes de 18 a 21 anos de idade, boêmios talentosos que passavam todo o tempo improvisando e escrevendo literatura em cafés e bares da cidade. O grupo da Baixinha freqüentava o Café Progresso até o horário de saída do último bonde. Fizeram parte do Grupo da Baixinha: Alves Ribeiro, Aníbal Rocha, Amphilophio Britto, Ângelo Brandão Donatti, Bráulio de Abreu, Clodoaldo Milto, Dagmar Pinto, De Souza Aguiar, Epaminondas Pontes, Elpídio Bastos, Egberto de Campos Ribeiro, Honorato Gomes, Leite Filho, Nonato Marques, Otto Bittencourt Sobrinho, Pereira Reis Júnior, Pinheiro Viegas, Raimundo Penna Forte, Samuel de Brito Filho, Wasny Casaes e Zaluar de Carvalho. O Grupo da Baixinha era conservador e seus integrantes cultivavam o verso rigorosamente metrificado, no melhor estilo parnasiano.                O Grupo foi responsável pelo lançamento da revista SAMBA que marcou época e presença na história da vida literária baiana dos anos vinte do século passado. Graças ao Conselho de Cultura do Estado da Bahia recentemente saiu publicada uma edição facsimilada da mesma. A revista mensal Samba foi a primeira de feição modernista a ser editada na Bahia, sendo, portanto, precursora da revista  Arco & Flexa, liderada pelo poeta e crítico Carlos Chiacchio.  Segundo depoimento de Nonato Marques, no livro “A poesia era uma festa”, “Samba era uma revista modesta composta em papel jornal. Foram publicados apenas quatro números. A revista teve vida efêmera como os cometas, porém, mesmo assim, deixou um traço luminoso na história da vida literária”. Nonato Marques registrou, no livro “A poesia era uma festa”, publicado em 1994,  o seu tempo poético de vida com as seguintes e precisas  palavras:  “No meu tempo a poesia fazia parte do cotidiano da vida da província. Vale dizer: habitava a idade dos homens e como eles conviviam no seu dia-a-dia, através da leitura de revistas e jornais que lhe abriam espaços generosos. A poesia se misturava com as pessoas, alegrando-as, divertindo-as, animando-lhes as festas cívicas e particulares, conquistando-as de tal maneira que era muito raro encontrar alguém, ainda que medianamente instruído que não soubesse de cor alguns versos de sua predileção”.      Nonato nos deixou um legado como obras. Deixou também viúva, dona Maria Angélica Marques, sete filhos, 13 netos e quatros bisnestos, a quem estendo esta homenagem com a palavra de muito obrigado, por ter ajudado na edificação da obra deste poeta encantado. Para finalizar vou recitar  alguns poema do POETA NONATO MARQUES:    DESPEDIDA       Foi bem ali naquela ponte estreita
- em tudo a um cromo antigo parecida –
que ela tristonha e um tanto contrafeita
levou-me seu adeus de despedida. Entre meus braços tensos envolvida,
ela por entre lágrimas desfeita
maldizia a desdita da partida
que ia forçada a viver insatisfeita.
 Era a separação. Era a distância.
Era a ausência cruel – próxima e expressa –
que violentava um grande amor de infância.
 Pelo meu rosto junto a minha fronte
as lágrimas corriam mais depressa
do que a água que corria sob a ponte…
                        

 

  BONECA    Porque ela é tão pequena e tão franzina
até receio quando alguém nos vê
beijar suas mãositas de musmê
ante seus olhos grandes de menina.

Ela parece assim (não sei porquê)
tendo uma boca rubra e pequenina,
uma boneca original da China
que ri e dança namora e lê.


Tenho receio de tocar de leve
aquela alvinha como a neve,
aquela carne tentadora e louca.


Se beijo-a muito, tenho muita pena
porque ela é tão franzina e tão pequena
que o meu beijo mau cabe em sua boca.
    Trecho de um outro poema referindo-se à época em que a poesia era uma festa: “…os rapazes boêmios daqueles
tempos perambulavam a declamar
pelas ruas tortuosas e
enladeiradas de Salvador,
até altas horas da noite,
dentro da qual sibilava ,
a intervalos, o apito do guarda
noturno e se ouvia o grito
dolente e comprido
da negra do acarajé.”
        Salve Nonato Marques, o Marquês das Laranjeiras, o mais novo Poeta Encantado da Bahia! Muito obrigado. Outono de 2006, Salvador, 12/06/2006.    

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Thursday, January 19, 2006

FOLHA DE S.PAULO COMENTA MIDIA CONTROLADA

 

 

 

 

 

 

CRÍTICA/LITERATURA
 Publicado no Caderno Folha Ilustrada, pág. 02, no dia 02/01/2006.


Livro acende o necessário debate em torno da censura

 

CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA
ESPECIAL PARA A FOLHA

 

A liberdade de expressão é uma das mais importantes conquistas democráticas da história. Todos os países do mundo passaram a maior parte de sua história sem desfrutar desse bem, atualmente considerado indispensável para o convívio social construtivo.
Os brasileiros conquistaram esse direito há muito pouco tempo. Mesmo assim, ele ainda sofre ameaças graves, como se percebe em diversas iniciativas de poderes políticos diversos com o objetivo de restringi-lo ou mesmo eliminá-lo simplesmente.
O jornalista e professor Sérgio Mattos acaba de lançar um livro de extrema utilidade para a preservação dessa prerrogativa. Com extraordinário poder de concisão, ele traça em “Mídia Controlada” um histórico abrangente da censura no Brasil e no mundo.
Para demonstrar como é atual e necessário esse tipo de debate, Mattos abre o seu trabalho com exemplos muito recentes de tentativas de atentar contra a liberdade de expressão neste país por parte de instrumentos de Estado.
Para não se ater ao Poder Executivo, origem das três situações citadas, Mattos talvez devesse ter incluído a ação de juízes, que têm determinado apreensão de livros e proibido a veiculação de informações sobre determinados temas em veículos jornalísticos.
Mas isso, de modo algum, diminui a importância e a abrangência do estudo de Mattos, que analisa diversos países, inclusive os Estados Unidos, sociedade onde a liberdade de expressão talvez esteja mais enraizada e, mesmo assim, como mostra o autor, ainda sofre intimidações, como se observa desde o 11 de Setembro de 2001.
No Brasil, apesar do artigo 220 da Constituição de 1988, formalmente continua a viger a Lei de Imprensa (a 5.520, de 1967) do regime militar.
Embora tenha sido relegada à irrelevância, ela sobrevive e pode ser usada se alguém desejar fazer assim -como o presidente Fernando Collor de Mello (1990-1992) no processo que moveu contra Otavio Frias Filho, diretor de Redação da Folha, em 1991.
Essa é uma das inúmeras demonstrações absurdas de como o emaranhado de leis cria obstáculos para a consolidação das instituições no país. É essa rede de conflitos e inoperância que permite a ocorrência de abusos desmedidos contra a liberdade de expressão, apesar do claro desejo dos constitucionalistas para que isso não acontecesse.
Mattos discute se deve haver uma nova lei de imprensa. Cita os que alertam para o perigo de criar uma “indústria das indenizações” se o anteprojeto em debate no Congresso vier a ser aprovado com o texto atual.
Talvez o mais recomendável seja simplesmente não haver nenhuma lei de imprensa. Que os excessos do usufruto da liberdade de expressão sejam punidos pela lei penal comum, que já prevê sanções a quem cometa calúnia, injúria e difamação.
A experiência nacional é que a fartura de instrumentos legais, longe de auxiliar a sociedade, com freqüência a prejudica. Mattos se restringe em seu livro à ação do Estado no cerceamento (ou tentativa de) à liberdade de expressão.
Poderia, se o quisesse, ampliar o espectro e analisar como a criação de oligopólios econômicos da iniciativa privada também coloca em risco esse direito.
A convergência de meios de comunicação e a concentração setorial na economia se constituem em poderosos instrumentos capazes de ferir aos interesses da cidadania, como se tem visto em diversos incidentes nos EUA e em outros países.
É legítimo, porém, o objetivo do autor de se ater apenas à relação entre Estado e meios de comunicação. Afinal, é ele quem tem o monopólio do poder de censura formal e é dele que, com freqüência, emanam os principais atentados à liberdade de expressão.
O problema principal desse tema deriva do fato constatável e bastante humano de que todos são a favor da liberdade de expressão quando fazem o papel de estilingue, mas se sentem tentados a impedi-la quando passam à condição de vidraça.
Raros são os que mantêm a coerência de princípios quando se sentem prejudicados pelo uso da liberdade de expressão. Esses, especialmente quando chegam à condição de governantes, são os grandes heróis desse direito.
Felizmente, a sociedade brasileira teve a sorte e o engenho de ter contado com pessoas capazes desse prodígio no período em que os alicerces da democracia foram erguidos no fim da década de 80.
Ainda há muito a ser feito para que todo o edifício democrático se consolide. Manter, expandir e garantir a liberdade de expressão é uma das tarefas mais fundamentais para tanto.
Livros como o de Sérgio Mattos, capazes de motivar e ampliar o debate sobre esse tema, são instrumentos importantes para que isso ocorra.


Carlos Eduardo Lins da Silva é jornalista e diretor da Patri Relações Governamentais e Políticas Públicas

 


Mídia Controlada – A História da Censura no Brasil e no Mundo
    
Autor: Sérgio Mattos
Editora: Paulus
Quanto: R$ 30 (232 págs.)

 

 Publicado no Caderno Folha Ilustrada, pág. 02, no dia 02/01/2006.

 

 

 

 

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Friday, November 11, 2005

MIDIA CONTROLADA – uma resenha

 

 

LIVRO DENÚNCIA SOBRE A CENSURA

 

 

Consuelo Ponde de Sema

 

(Presidente do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e membro da Academia de Letras da Bahia. Artigo publicado no jornal TRIBUNA DA BAHIA, no dia 09/11/2005, p. 5, do primeiro caderno).

 

 

Com a publicação do livro “Mídia Controlada – a história da censura no Brasil e no mundo”, o escritor e jornalista Sérgio Mattos reafirma a sua condição de especialista da Comunicação, caminho que já vem trilhando há algum tempo, com rara competência.

Senhor de um estilo fluente e agradável, seus livros são sempre um convite à reflexão e ao debate, razão pela qual têm sido adotados nos cursos de jornalismo de todo o país, quiçá de outras nações de tradição ibérica.

 

Na obra em questão, o autor se debruça sobre pontos fundamentais da censura no Brasil, sem deixar de percorrer aspectos da censura no mundo, cujo conhecimento domina.

 

Com efeito, ao assenhorear-se da ampla bibliografia pertinente ao tema e dela abastecer-se para sustentar seus argumentos, assegura a familiaridade que possui com as idéias de autores nacionais e estrangeiros.

 

Este é um livro que se impõe como necessário a todo e qualquer profissional da imprensa. Afora isso, interessa aos advogados, juízes, promotores, a todos enfim que se envolvem com estas questões. Nele estão contidos todos os passos que permeiam a questão, a exemplo dos projetos restritivos à liberdade de imprensa, tais como a Lei Mordaça, que passaram a tramitar no Congresso Nacional com grande desenvoltura. Assim, as duas versões da Lei Mordaça, uma da Câmara e outra do Senado “atenta contra a liberdade de pensamento e de imprensa porquanto atenta contra prerrogativas de magistrados, membros do Ministério Público, do Tribunal de Contas, bem assim das autoridades policial e a administrativa, estes últimos impedidos de revelar aos meios de comunicação tudo quanto têm conhecimento em função dos cargos que ocupam, esta absurda Lei tem por objetivo, também, impossibilitar os meios de comunicação de ter acesso às informações dos processos em curso, que se encontram em tramitação. Estes e outros “expedientes” utilizados pelo poder em nosso país são detalhadamente relacionados por Sérgio Mattos e servem de alerta a todos os brasileiros.

 

Notícia veiculada pela Folha Online, em abril de 2004, revela que o ministro da Justiça denunciou uma ‘conspiração”contra o atual governo do país além de defender a Lei Mordaça para juízes, membros do Ministério Público e autoridades policiais, visando “evitar excessos” nas investigações que pudessem comprometer o governo. Defendeu ainda o absurdo e anti-democrático controle do Ministério Publico e do Judiciário.

 

Analisando, inicialmente os instrumentos de controle dos meios de comunicação no Brasil, Sérgio Mattos traz à baila as tentativas do estado no sentido de controlar os veículos de comunicação, utilizando-se de vários expedientes, desde o  uso da legislação específica às ações judiciais, as ameaças oficiais, pressões políticas e  econômicas, até a censura policial.

 

Tive o privilégio de ser professora de Sérgio no Curso de Jornalismo, há muitos anos e, por isso mesmo, tenho acompanhado sua trajetória vitoriosa como profissional e professor de Comunicação.

 

Segundo Leon Daudet: “Não há profissão mais bela, mais interessante que a do jornalista; nenhuma exige mais talento, tato e vivacidade…cidadania…e de prática consciente dos deveres de cidadão”.

 

E, por ser jornalista por vocação, por escolha consciente e deliberada do caminho a ser trilhado, Sergio Augusto Soares Mattos faz da profissão um exercício permanente de cidadania, de prática consciente dos  deveres inerentes ao seu oficio.

 

Neste livro, que ora é colocado à disposição do publico, o Doutor em Comunicação pela Universidade do Texas revela seus elevados conhecimentos da matéria que expõe com segurança, valendo-se das informações sobre o que domina “as forma sutis de censura que estão sendo impostas aos veículos de comunicação em particular e à sociedade em geral”.

 

Para o autor, o estado brasileiro sempre atuou ativamente no “desenvolvimento e regulamentação dos meios de massa”. De tal circunstância relaciona tudo quanto existiu, e ainda persiste, no campo da política de comunicação que passou a existir de forma sistemática a partir das ultimas quatro décadas no país. Lembra que durante os anos de 1964 a 1988 foram criadas várias agências reguladoras, destacando-se o Ministério das Comunicações, cujo surgimento e implantação promoveu significativas mudanças de natureza estrutural no setor das telecomunicações, contribuindo para “a redução da interferência de organizações privadas sobre agências reguladoras e crescimento oficial no setor”.

 

O pleno domínio da utilização dos meios de comunicação de massa no Brasil confere-lhe autoridade para versar sobre os instrumentos de controle empregados pelo poder público do País durante “período de exceção” em que esteve mergulhado. Com efeito, no curso do período militar os atos institucionais exerceram ação repressiva nos meios de comunicação de massa. De tais controles resultaram o domínio do governo central sobre as empresas de transmissão, dele dependentes, de cuja ação decorria o direito de conceder e cassar  licença de funcionamento.

 

Somente com a Constituição de 1988 foram estabelecidas normas coerentes, que impediam os critérios casuísticos adotados anteriormente.

Antevejo a adoção desta obra, como livro de referência obrigatória em todos os cursos de Comunicação de todo o país.

 

Por último, parabenizo o autor, a Editora Paulus, e outros tantos que estiveram envolvidos com a publicação deste importante volume da Coleção Comunicação, aos quais formulo pleno sucesso editorial.

 

 

 

 

 

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Tuesday, October 4, 2005

ÉTICA NA MÍDIA E NA SAÚDE

 

ÉTICA NA MÍDIA E NA SAÚDE

Sérgio Mattos

Professor Doutor em Comunicação

 

(Texto preparado para o I Ciclo de Mídia e Saúde Pública no Brasil realizado em Salvador, no período de 20 a 21 de  setembro de 2005, no auditório do Ministério Publico)

 

    O objetivo deste trabalho é refletir a situação ética que envolve o papel do jornalista e da mídia na divulgação da saúde e do seu relacionamento com a área médica. Não pretendemos ser conclusivos, mas apresentar algumas reflexões críticas.  Vamos contextualizar o problema e discutir as questões que envolvem os dois segmentos, mídia e saúde, refletindo sobre os direitos e deveres do jornalista na prática profissional e apresentar sugestões que possam contribuir para resolver alguns dos problemas de relacionamento entre os profissionais das duas áreas.

 

O Problema

 

Segundo Wilson da Costa Bueno, um estudioso do setor, “a cobertura de saúde na mídia padece de uma doença difícil de ser tratada: a chamada patologia da fonte, cujos sintomas são a desqualificação da informação e o domínio dos interesses comerciais. A cura pressupõe um tratamento longo e doloroso, que inclui uma postura ética e política frente às pressões das fontes e uma capacitação dos comunicadores de saúde” (Bueno, 2001).

 

Por sua vez, José de Sá afirma que a imprensa quando divulga informações do setor da saúde “não trata da doença e, sim, da cura” (Sá, 2001). E que, por causa desta abordagem, o jornalismo passa uma idéia de superficialidade e descartabilidade, levando o paciente (leitor/telespectador/ radiouvinte) que acreditou na informação, a uma total frustração, pois quando  procura um hospital ou um profissional para se utilizar daquele avanço da medicina acaba percebendo que o que a mídia anunciou é  algo que ainda está em fase de estudo ou que aquele serviço está restrito em apenas um hospital e, ainda por cima, num país que não é o seu.

 

Completando este quadro surge ainda um outro aspecto que é mais um fator complicador da situação e que foi constatado por Paula Renata Camargo de Jesus ao realizar um estudo sobre a propaganda de medicamentos e as questões éticas, concluindo que “apesar de existirem leis, estas não são cumpridas”.  Para ela, “a verdade é que o governo finge que o consumidor não se automedica, e farmacêuticos, quase sempre substituídos pelo balconista, finge vender medicamentos tarjados só com receita médica e o consumidor finge estar tudo bem. Prova disso é que a maior parte da população ainda não tem acesso a médico e portanto acesso à receita médica e dois dos principais medicamentos éticos estão na lista dos mais vendidos  no país: Cataflan e Voltaren. E certamente, são comprados sem receita médica nas farmácias” (Jesus, 2001).

 

Na prática, as acusações, críticas e falhas são de todos os setores envolvidos: os cientistas e médicos desconfiam dos profissionais de imprensa além de criticarem as matérias divulgadas, acusando-as de serem incorretas, simplificadas em demasia e divulgadas em clima de sensacionalismo e precipitação. Os jornalistas por sua vez apresentam a tendência de culpar as fontes especializadas ou por não fornecerem todas as informações necessárias, ou por apresentarem dados demasiadamente complicados e inadequados para que possam ser transmitidos de maneira clara e objetiva aos leitores (Epstein, 2001). Os jornalistas criticam a forma como os veículos de comunicação apresentam suas matérias, principalmente no caso da televisão, onde são muito fragmentadas. Eles também se queixam que os profissionais de saúde não respeitam os jornalistas e que enquanto este respeito não passar a existir dificilmente haverá um bom relacionamento entre as duas categorias.

O público consumidor de informações da área de saúde, por sua vez, acusa a mídia de ser inconveniente por divulgar informações incompletas  e que muitas vezes não passam de experiências cujos resultados são muito incipientes e que se encontram ainda em fase de testes laboratoriais. Acusam também os profissionais de saúde de revelarem situações da saúde individual de cada paciente, principalmente quando famosos, sem prévia autorização, indo de encontro ao art. 102 do Código de Ética Médica, do Conselho Federal de Medicina que diz: “É vedado ao médico revelar fato de que tenha conhecimento em virtude do exercício de sua profissão, salvo por justa causa, dever legal ou autorização expressa do paciente”.

Sobre a divulgação de casos de pacientes por médicos, referindo-se especificamente à cobertura do caso do ex-governador de São Paulo, Mário Covas,  a jornalista Conceição Lemes, especializada em saúde e ganhadora de dois prêmios Esso de Informações Científicas, diz:

“Entrevistas coletivas, só as indispensáveis. A freqüência exagerada banaliza esse instrumento de divulgação e predispõe os médicos a escorregões. Boletins diários, com eventuais esclarecimentos do diretor clínico da instituição, cumprem plenamente o papel de garantir a informação à sociedade.

Desde que autorizados, divulgar só o que o bom senso determina. Na dúvida, este exercício ajuda: substituir o paciente famoso por um parente querido, tentando pensar o quanto sofreria se descobrisse pela imprensa algo terrível que desconhecia sobre a sua saúde.

Comissões de ética dos hospitais precisam refletir sobre o assunto, buscando definir estratégias futuras. Isso vale para todos, principalmente para os hospitais universitários, que, afinal, têm o papel de formar os médicos do futuro.

Em outras palavras: o nosso compromisso de jornalistas é com a informação ética. O do médico é única e exclusivamente com o seu paciente, famoso ou anônimo. Hospital não é palco, doença não é espetáculo midiático nem paciente, escada. O show  tem que parar” (Lemes, 2001).

 

Em síntese, baseado na simples observação e acompanhamento dos noticiários específicos, podemos afirmar que apesar do tema saúde ocupar hoje grandes espaços na mídia, a cobertura jornalística ainda é muito deficiente, pois acaba mascarando a realidade do setor. O jornalismo minimiza os problemas de saúde da população, limitando-se muitas vezes a cobrar soluções paliativas tais como atendimentos médicos, redução de filas no INSS, aumento do número de leitos e de internações hospitalares, como se esta fosse a saída.

Na verdade, a mídia brasileira e, principalmente a da Bahia, tem dado pouca ênfase à dramática situação da saúde da população. Exatamente por conta disso, as matérias jornalísticas veiculadas não podem mais se limitar apenas a noticiar eventos e descobertas de novos medicamentos, divulgar campanhas de vacinação entre outras, denunciar a precariedade dos serviços de saúde, além de estimular a prática de padrões de comportamento saudáveis. Para desenvolver bem suas funções sociais, o jornalismo e os jornalistas devem assumir uma postura crítica em relação às definições de políticas públicas de saúde, cobrando a melhoria da qualidade de vida da população, abordando temas correlatos e responsáveis pela saúde do cidadão tais como moradia, saneamento, transporte, qualidade do ar e da alimentação, além de debaterem os grandes temas de saúde, sem esquecer que a doença não pode ser assunto tratado isoladamente dos aspectos da prevenção da mesma e de sua cura.

A mídia precisa também denunciar os apelos mercadológicos da indústria da saúde que não estão atendendo as necessidades da população, principalmente se levarmos em consideração que a Constituição Brasileira de 1988, em seu art. 196 estabelece que:

 

“A saúde é um direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco à doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”.

 

Com diz  Bernardo Kucinski:

“A Concepção desse novo direito de cidadania ativa, no campo da saúde, confere à informação jornalística sobre saúde, sobre políticas públicas e terapias de saúde, um valor político na esfera da cidadania, além, de seus valores pedagógicos tradicionais em campanhas sanitárias e na medicina preventiva, ou de seu entendimento como ‘jornalismo de serviço’. Por extensão, tornam-se objetos privilegiados de cobertura jornalística, vigilância e crítica, as políticas publicas de saúde dirigidas a grupos populacionais, como as campanhas de prevenção da aids ou de detecção do câncer de mama” (Kucinski, 2000, p. 183).

 

A ÉTICA NA SAÚDE

 

Durante toda a última década do século passado, a ética esteve sempre na berlinda e foi tão debatida e exigida, em todas as situações, que aquela foi considerada como a Década da Ética, principalmente pelos profissionais ligados, direta e indiretamente, aos meios de comunicação de massa.

Durante os últimos 15 anos, mais intensamente, principalmente os jornalistas, buscaram a todo custo desvendar a verdade, revelar e denunciar o lado obscuro, a corrupção política, a corrupção econômica e os desvios de verbas e escândalos envolvendo a previdência e a saúde pública.  Durante este período, quando predominou o espírito do denuncismo, a imprensa cometeu alguns erros e exageros. Pecamos, podemos reconhecer, mas não nos omitimos.

Hoje, estamos aqui reunidos, no I Ciclo de Mídia e Saúde Pública no Brasil, discutindo a Ética na Mídia e na Saúde, buscando encontrar o caminho ético a ser percorrido. Particularmente, devemos esclarecer, Não Acreditamos que deva existir uma ética própria para cada profissão. Ética é ética e vale para todos, apesar de termos particularidades para cada setor profissional, que adota códigos de ética e linhas ou normas de conduta para aqueles que exercem, por exemplo, o jornalismo, as Relações Públicas, a Publicidade, a Medicina, a odontologia, a advocacia e todas as demais profissões.

Por isso, acreditamos que a integridade é a base fundamental da credibilidade de todo e qualquer profissional independente do campo de atuação. Acreditamos que o profissional deve defender sempre a regra fundamental da democracia e do respeito individual, conforme estabelecida pela Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Devemos, pois, examinar nossos próprios valores, evitando impor os nossos valores nos outros. Devemos evitar estereótipos étnicos e sociais de raças, gênero, idade ou religião.

Acima de tudo devemos ter em mente que um profissional ético trata suas fontes, seus clientes e colegas como seres humanos merecedores de respeito. Vamos, pois, exercer a nossa cidadania de maneira ética e profissional para que possamos, juntos, independente de profissão ou setor de atuação na sociedade, construir um Brasil melhor.

Assim sendo, o que trazemos hoje para vocês, a título de reflexão e sugestão, resume-se em uma mensagem comum a todos os profissionais de comunicação e trata sobre a Ética e a Responsabilidade Social com que devemos exercer nosso papel na sociedade na qual estamos inseridos.

A responsabilidade social é um tema que vem sendo analisado e debatido por estudiosos e profissionais de comunicação, jornalistas, Relações Públicas e Publicitários. Se uma empresa socialmente responsável é aquela que está empenhada em construir uma relação ética, transparente e solidária com os mais diversos públicos, o profissional de Comunicação Social é aquele que incorpora práticas responsáveis na elaboração de suas tarefas diárias. É aquele profissional que busca divulgar e estabelecer condições para a sustentabilidade da sociedade, estimulando o exercício da cidadania e lutando sempre pela melhoria da qualidade de vida da população e de sua saúde e em defesa do  meio ambiente.

Por isso, a cidadania que devemos defender é aquela da integração e do respeito pleno do homem para com a natureza. Para conseguirmos isto alguns princípios e objetivos devem ser cumpridos:

Devemos valorizar e abrir espaços para iniciativas pró-ativas. Devemos nos comportar como profissionais pró-ativos, impulsionando e contribuindo para construir uma sociedade melhor. E só conseguiremos isto se aumentarmos o nosso vínculo pessoal com a comunidade na qual atuamos. Para tanto, devemos nos engajar e estimular o engajamento empresarial nas questões de saúde pública, nas questões ambientais e promover campanhas de sensibilização para estes problemas.

Devemos informar sem preconceitos, permitindo a construção de uma consciência mais crítica sobre os temas estereotipados.

Devemos denunciar as agressões contra os direitos do homem e contra o meio ambiente, mas é bom que se diga, não basta divulgar, é preciso faze-lo com responsabilidade.

Devemos divulgar denúncias e soluções, pois assim contribuiremos para erradicar os problemas quando detectados. Disseminar campanhas de saúde e de prevenção às doenças, contra a fome, contra a violência doméstica, contra a criança, é um procedimento que demonstra a maturidade do profissional de comunicação social.

Devemos atuar como verdadeiros agentes fomentadores e fortalecedores de ações sociais, descobrindo novos caminhos e trilhar sempre aqueles que nos conduzem a uma prática de comunicação social voltada para o Cidadão.

Devemos estar conscientes de que divulgar os nomes de empresas socialmente comprometidas com o desenvolvimento sustentável é um ato de valorização da iniciativa e que, ao fazermos isto, tanto os profissionais como a mídia, estaremos dando visibilidade e estímulo para as empresas comprometidas com a prática social. Se isto é feito, tanto as empresas de comunicação como os profissionais  tomam consciência de seu papel e percebem que investir nesta área gera credibilidade para ambos. Destacar ações individuais ou empresariais na área social, é sensibilizar a sociedade para a importância deste tipo de atitude e de participação.

Para que possamos  exercer estes deveres sociais precisamos desenvolver uma forte consciência ética nas práticas da comunicação social em suas diferentes modalidades. Precisamos aproximar cada vez mais a mídia e as empresas nas quais exercemos nossas funções com outros segmentos da comunidade, tendo em vista que a Responsabilidade Social tem que estar na pauta do dia e mover todas as nossas ações.

Precisamos ter sempre em mente que a qualidade da comunicação envolve princípios e compromissos com a Verdade, justiça, Liberdade e Responsabilidade. A Verdade envolve o rigor informativo (clareza, precisão e exatidão), a neutralidade valorativa (separar o que é informação de opinião), bem como os procedimentos discursivos que devemos praticar. A justiça envolve a imparcialidade com que informamos o cidadão e a maneira como tratamos os grupos sociais desfavorecidos. A Liberdade, por sua vez, envolve o nosso posicionamento e independência perante os condicionamentos externos, tais como os controles políticos, comerciais, as relações com as fontes e os conflitos de interesses entre empresas, profissionais e a maneira como lutamos pela preservação dos direitos do cidadão e do meio ambiente. A Responsabilidade é um princípio que está relacionado diretamente com a segurança das pessoas, com a privacidade e a sustentabilidade social, que devemos respeitar (Alsius, 2003).

Compete ainda ao profissional de imprensa diversificar as fontes ouvidas; preservar as informações que são protegidas por lei; levantar informações extra-oficiais que sirvam para ilustrar e esclarecer melhor os fatos a serem divulgados; ressaltar a importância dos fatos sem barreiras e preconceitos; indicar estratégias e soluções e não se limitar apenas a realizar denúncias; dar visibilidade aos fatos e realizações que sejam positivas; atuar como agente fortalecedor das ações; assumir uma postura crítica para refletir sobre a importância dos programas sociais e de saúde; acompanhar as ações governamentais e não-governamentais no setor da saúde pública; e, praticar um jornalismo sério comprometido com a ética e com a busca da verdade.

Em síntese, precisamos, como profissionais de Comunicação Social , estar preparados para lidar com assuntos delicados tais como: corrupção, pública ou privada, exploração do trabalho infantil, trabalho escravo, violência contra a mulher, abuso sexual de crianças e adolescentes, saúde pública e principalmente dos direitos do cidadão. A prática jornalística tem um compromisso ético com a busca da objetividade e da verdade visando a construção e preservação da cidadania.

Por outro lado, “compete ao profissional da saúde saber aproveitar os espaços que lhe são oferecidos na mídia para apresentar, de forma transparente, a questão das enfermidades, visto que, muitas vezes os discursos se fecham no nicho da ‘competência’ de uma pretensa cientificidade, dificultando, ou até mesmo impossibilitando, que o leitor tenha uma compreensão clara sobre o tema” (Epstein, 2005).

Sendo assim é importante que o profissional da área de saúde entenda e aceite o fato de que não se pode entender a saúde divorciada da mídia e dos jornalistas,  responsáveis pela interface entre a ciência e a sociedade. Os profissionais da saúde não podem esquecer que os veículos especializados em temas científicos relacionados com a saúde e a medicina não circulam junto ao grande público que só toma conhecimento do que ocorre no setor por meio dos veículos de massa que fazem o papel de propagar as novidades e exatamente por causa disso devem colaborar com a imprensa no sentido de que esta possa reproduzir e desenvolver uma visão mais ampla sobre a saúde que, segundo a Organização Mundial de Saúde, envolve também o bem estar físico, social e espiritual dos indivíduos.

 

Sejam, portanto, éticos e socialmente responsáveis no exercício de suas funções profissionais exercendo e defendo a cidadania.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ALSIUS, Salvador. “Ética? Invoque-se a qualidade”. Conferência do XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 2 a 6 de setembro de 2003, Belo Horizonte.

 

BUENO, Wilson da Costa. “A cobertura de saúde na mídia brasileira: os sintomas de uma doença anunciada”. In Mídia e Saúde. Issac Epstein …[et al.] organizador. Adamantina: UNESCO/UMESP/FAI, 2001,pp.671-685.          

 

EPSTEIN, Isaac. “Introdução”, in Mídia e Saúde. Isaac Epstein…[et al.], organizador. Adamantina: UNESCO/UMESP/FIA, 2001, pp. 25-29.

 

EPSTEIN, Isaac.  “Prefácio”, in Comunicação e Loucura: a representatividade da lei antimanicomial nos jornais O Estado de S. Paulo e A Tribuna. Eliana Martins MARCOLINO. São Bernardo do Campo: UMESP, 2005, pp. 13-16.

 

JESUS, Paula Renata Camargo de. “Propaganda de Medicamentos”,  in Mídia e Saúde. Isaac Epstein, José Marques de Melo, et al, organizadores. Adamantina: UNESCO/UMESP/FAI, 2001, pp.311-316.

 

LEMES, Conceição. “Lições do Caso Covas – O show tem que parar”. Observatório da Imprensa, 21 mar.2001. Disponível em http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos/jd210320001lp.htm

Acesso em 15 agosto 2005.

 

KUCINSKI, Bernardo. “Jornalismo, saúde e cidadania”, in Interface – Comunicação, Saúde e Educação, n° 6, fevereiro 2000, pp. 181-186.

 

SÁ, José de. “Ética, informação e saúde”, in Mídia e Saúde. Isaac Epstein [et al.] organizador. Adamantina: UNESCO/UMESP/FAI, 2001, pp. 307-310.

 

 

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Tuesday, August 23, 2005

ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL (mensagem)

 

 

ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

 

SÉRGIO MATTOS

(Mensagem do coordenador do curso de Comunicação Social das Faculdades Integradas Ipitanga/UNIBAHIA, dirigida aos formandos de 2005.1, com habilitação em Jornalismo e Relações Públicas, dia 19 de agosto de 2005)

 

Meus senhores, Minhas senhoras

Meus caros formandos de Jornalismo e Relações Públicas

 

 

     Em uma sociedade como a nossa, em que as informações se disseminam com maior velocidade e cresce a suscetibilidade às crises, tanto do ponto de vista público como privado, político ou organizacional, ampliam-se as funções e as responsabilidades dos profissionais que atuam na área da comunicação social, seja como Jornalista, como Relações Públicas ou como publicitário. Nossa atividade tem uma função estratégica na sociedade. As ações comunicacionais que desempenhamos têm uma importância fundamental no desenvolvimento auto-sustentável, na soberania do país, e na preservação dos direitos e da valorização da cidadania.

 

   Esta é a primeira vez que fazemos uma formatura conjunta dos cursos de Jornalismo e Relações Públicas das Faculdades Integradas Ipitanga, mantidas pela UNIBAHIA. Trata-se de uma oportunidade impar e que serve de base para consolidar o que venho tentando repassar aos alunos dos dois cursos: tanto os  Jornalistas como os  Relações Públicas são profissionais de Comunicação Social.  Assim sendo, a mensagem que trago hoje para vocês, é uma mensagem comum a todos os profissionais de comunicação e trata sobre a Ética e a Responsabilidade Social com que devemos exercer nosso papel na sociedade na qual estamos inseridos.

 

   A Responsabilidade Social é um tema que vem sendo analisado e debatido por estudiosos e profissionais de comunicação, Jornalistas,  Relações Públicas e Publicitários. Se uma empresa socialmente responsável é aquela que  está empenhada em construir uma relação ética, transparente e solidária com os mais diversos públicos, o profissional de Comunicação Social  é aquele que incorpora práticas responsáveis na elaboração de suas tarefas diárias. É aquele profissional que  busca divulgar e estabelecer condições para a sustentabilidade da sociedade, estimulando o exercício da cidadania e lutando sempre em defesa do meio ambiente.

 

    Por isso, a cidadania que devemos defender é aquela da integração e do respeito pleno do homem para com a natureza. Para conseguirmos isto, alguns  princípios e objetivos devem ser cumpridos:

 

     Devemos valorizar e abrir espaços para iniciativas pró-ativas.  Devemos nos comportar como profissionais pró-ativos, impulsionando e contribuindo para construir uma sociedade melhor. E só conseguiremos isto se aumentarmos o nosso vínculo pessoal com a comunidade na qual atuamos. Para tanto, devemos nos engajar e estimular o engajamento empresarial nas questões ambientais e promover campanhas de sensibilização para esses problemas.

 

      Devemos informar sem preconceitos, permitindo a construção de uma consciência mais crítica sobre os temas estereotipados.

 

      Devemos denunciar as agressões contra os direitos do homem e contra o meio ambiente,  mas, é bom que se diga, não basta divulgar, é preciso fazê-lo com responsabilidade.

 

     Devemos divulgar denuncias e soluções, pois assim contribuiremos para erradicar os problemas quando detectados. Disseminar campanhas contra a violência doméstica, contra a criança, contra a fome, é um procedimento que demonstra a maturidade do profissional de comunicação social.

 

    Devemos atuar como verdadeiros agentes fomentadores e fortalecedores de ações sociais, descobrindo novos caminhos e trilhar sempre aqueles que nos conduzam a uma prática de comunicação social voltada para o Cidadão;

 

      Devemos estar conscientes de que divulgar o nome de empresas socialmente comprometidas com o desenvolvimento sustentável é um ato de valorização da iniciativa e que, ao fazermos isto, tanto os profissionais como a mídia, estaremos dando visibilidade e estímulo para as empresas comprometidas com a prática social. Se isto é feito, tanto as empresas de comunicação como os profissionais tomam consciência de seu papel e percebem que investir nesta área gera credibilidade para ambos. Destacar ações individuais ou empresariais na área social,  é sensibilizar a sociedade para a importância deste tipo de atitude e de participação.

 

    Para que possamos exercer estes deveres sociais precisamos desenvolver uma forte consciência ética nas práticas da comunicação social em suas diferentes modalidades. Precisamos aproximar cada vez mais a mídia e as empresas nas quais exercemos nossas funções com  outros segmentos da comunidade, tendo em vista que a Responsabilidade Social tem que estar na pauta do dia e mover todas as nossas ações.

 

   Precisamos ter sempre em mente que a qualidade da comunicação envolve os princípios e os compromissos com a Verdade, Justiça, Liberdade e Responsabilidade. A Verdade envolve o rigor informativo (clareza, precisão e exatidão), a neutralidade valorativa (separar o que é informação de opinião), bem como os procedimentos discursivos que devemos praticar. A  Justiça envolve a  imparcialidade com que informamos o cidadão e a maneira como tratamos os grupos sociais desfavorecidos. A Liberdade, por sua vez, envolve o nosso posicionamento e independência perante os condicionamentos externos, tais como os controles políticos, comerciais, as relações com as fontes e os conflitos de interesses entre empresas, profissionais e a maneira como lutamos pela preservação dos direitos do cidadão e do meio ambiente. A Responsabilidade é um princípio que está relacionado diretamente com a segurança das pessoas, com a privacidade  e a sustentabilidade social, que devemos respeitar.

 

   Em síntese, precisamos, como profissionais de Comunicação Social, estar preparados para lidar com assuntos delicados tais como: corrupção, pública ou privada,  exploração do trabalho infantil,  trabalho escravo,  violência contra a mulher e o abuso sexual de crianças e adolescentes. Enquanto a prática jornalística tem um compromisso ético com a busca da objetividade e da verdade, o profissional de Relações Públicas tem uma importância estratégica na promoção do relacionamento das empresas com seus públicos alvos visando a construção e preservação da cidadania.  

 

    Sejam,  portanto, éticos e socialmente responsáveis no exercício de suas funções profissionais e que Deus nos ajude a construir um Brasil melhor.

     Boa sorte!

 

 

Posted by smattos in 14:48:58 | Permalink | Comments (1) »